quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Todos os Patinhos


Com a sua personalidade a delinear-se a bebé já tem também gosto musical. Existem músicas que despreza, outras que suporta e, uma em particular, que adora com paixão: a dos patinhos! Mal entra no carro começa a pedir: “patos!”, “patos!” e, assim que esta termina pedincha encores intermináveis. Ou seja, todo o percurso automobilístico passa a ter como música de fundo a brevidade de uma faixa elevada à eternidade on the road
E eu apercebo-me que deixei de ouvir música. Antes, ouvia em casa, quando escrevia ou arrumava coisas. Também escutava no ginásio ou sempre que conduzia o carro. Mas desde o dia da morte do meu pai – e já na doença dele – fui cortando com a música. É engraçado constatar isso porque, na realidade, é ainda uma forma de luto. Sinto-me demasiado inadaptada para abanar a cabeça ou cantarolar, nessa onda de boa disposição e alegria que a música nos proporciona.
Mas a bebé, alheia aos dramas da vida exige os patinhos e, a eles tem todo o direito. Sinto-me, como mãe, responsável pela felicidade da minha filha. E nada do que me possa afectar a mim deve afectá-la a ela. Separo o coração do cérebro e sigo com as nossas vidas…
Outro prazer da bebé foi a descoberta dos lápis de cor. Risca folhas brancas – porque ainda a consigo impedir de pintar as paredes cá em casa – e diverte-se com os desenhos que lhe faço e que o meu marido diz que são cópias das ilustrações dos livros dela. E daí? O que interessa é que ambas nos divertimos imenso.
Quando ela acorda fá-lo sempre com uma tremenda boa disposição. Sinceramente, acho isso fantástico. Para ela, cada dia é mais um dia de brincadeiras, onde tudo vai correr bem, terá os seus brinquedos para jogar, é inundada de beijinhos, transportada ao colo ou no seu carrinho de princesa, todos lhe ligam e sorriem e ninguém a atraiçoa ou lhe faz mal. A bebé não sofre a não ser que uma constipação lhe entupa o nariz ou uma cólica lhe faça dores de barriga. E neste mundo de bebés onde tudo é uma perfeição tecida na tranquilidade e segurança nós, os pais que vivemos no mundo real, mais cedo ou mais tarde começamos a temer que algo de sinistro trave a felicidade dos nossos filhos.
Um dia, um colega meu confessou-me que nunca iria ter filhos porque não lhes queria dar o nosso mundo louco por herança. Pensei que tal teoria não tinha qualquer fundamento, e que se todos pensássemos assim, então ninguém procriava. Porém, agora que a bebé está cá fora e faz parte da humanidade também eu me inquieto e muito. Basta ver um noticiário para termos a nossa dose de crime e violência. E se ela, um dia, for uma vítima? Quem me garante que a minha filha – que é o meu maior diamante – está a salvo da selvajaria dos assaltantes e violadores? Ou da fatalidade de um acidente de automóvel? Ou da desgraça de uma doença incurável?
Começamos a viver com estes medos e a recear a escuridão que possa vir dos outros. As pessoas boas não andam com uma estrela na testa, caso contrário seria fácil seguir o caminho certo, sem falhar nas escolhas. Porém, é neste mundo tão maravilhoso quanto cruel e sanguinário que nós vivemos. E uma vez que somos pais compete-nos a mais tremenda das tarefas: somos responsáveis pela felicidade dos nossos filhos. Temos de lhes oferecer segurança e cuidar para que nada lhes falte. Fomos nós que decidimos que eles iam nascer e somos nós que velamos por eles até à idade adulta e, quantas vezes, depois dela. Ser pai e mãe não é uma obrigação com princípio, meio e fim mas antes algo que nos transforma até à morte em anjos tutelares e que nos faz questionar se a paciência é ou não é genética :-)
Todo o ouro do mundo não paga os sacrifícios diários que os pais fazem pelos filhos para que estes possam voar mais alto e mais longe. É esse o orgulho de quem é pai ou mãe: tentar proporcionar o melhor do mundo para os seus patinhos. E assim, quando estes baterem asas e procurarem, por sua vez, nidificar, alguma coisa terão aprendido com os seus progenitores. O amor gera o amor.


Todos os Patinhos Versão I

Todos os patinhos acabam de brincar, acabam de brincar,
Os pijamas vão vestir e os dentes vão lavar,
Os pijamas vão vestir e os dentes vão lavar.

É que esta hora, é hora de dormir, é hora de ir dormir,
Mas ainda é tempo para uma história ouvir,
Mas ainda é tempo para uma história ouvir.

Pais, mães ou avós à cama lhes vão dar, à cama lhes vão dar
Um beijo de boa noite e a luz apagar e a luz apagar

Todos os Patinhos Versão II

Todos os patinhos
sabem bem nadar (bis)
cabeça para baixo
rabinho para o ar

Quando estão cansados
da água vão sair (bis)
depois em grande fila
p'ró ninho querem ir

Na hora da papa
todos querem comer (bis)
atrás da mamã pata
vão todos a correr











quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Onde estás?

Com pouco mais de 18 meses, a bebé já tem um vocabulário cirúrgico. As deixas mais correntes são: “onde estás?”, “luz/ escuro”, “papa”, “bebezinhos”, “bola”, “almofada”, “jardim”, “meninos”, “cão”, “gato” e por aí fora, com muitas das palavras a terminarem em inhos por acréscimo próprio. Assim, o papá ficou pai e, depois, evoluiu para paizinho. Já eu sou mamã e mãe e ponto final. Hum….
O número de birras tem acompanhado os centímetros, ou seja, está maior e mais birrenta do que nunca. É bem disposta mas quando contrariada contorce-se e grita de tal maneira que só me apetece fugir. E está a ficar egoísta como todos os filhos únicos. Tudo é dela e é impensável emprestar roupas e brinquedos seja a quem for. Às vezes, até nos tenta expulsar dos sofás ou da cama: “sai!”, exige, toda autoritária. É de uma pessoa pensar que talvez tenha criado um pequeno monstro… mas de repente sorri e dá beijos inesperados a torto e a direito e com os bracinhos envolve-nos o pescoço e deixa-nos com um xiiiii-coração que nos derrete por inteiro.
Embora rendida ao charme dela ainda guardo na memória os lamentos do meu primo neste Verão. Dizia-me ele que a filha de seis anos o tinha ameaçado: “Se não te portas bem ponho-te num lar”… Fiquei siderada com a tenra pertinácia. Esta nova geração promete enlouquecer-nos.
Foi também no Verão que descobri que a bebé detesta a cor amarela arrancando toda a roupa dessa família que eu lhe vestisse: canário, torrado e tal. Tudo puxado como se lhe queimasse a pele. Não sabia que era possível já ter um gosto assim apurado tão cedo. A minha mulher-a-dias não acreditava e armou-se em campeã, estilo: “comigo ela veste o amarelo e não refila.” Porém, só faltou sair do quarto com um braço ao peito, tal foi a barulheira que se ouviu. Lá concluiu: “Nossa, essa minina já sabe bem o que quer!”.
Às vezes, quando vou a conduzir e a levo atrás sinto choverem-me objectos e lembro-me dos Gremelins transformados numa sala de cinema a atirarem com pipocas e copos de coca-cola, tudo num caos tremendo orquestrado por gargalhadinhas sinistras. É a evolução: não se pode ser um bebé deliciosamente lindo e tranquilo para sempre. Agora, assistimos ao despertar da fera.
Durante o Verão, a bebé passeou o seu balde e pá pela areia molhada, entrou corajosamente nas ondas e mostrou que é de fibra e viciada em água. Fico orgulhosa com esta sua apetência aquática dado que eu também assim era como testemunham as minhas fotos de nadadora precoce.
O seu delírio maior foram os animais que conheceu e os quais, a partir de agora, já é capaz de identificar quando os vê em livros e desenhos animados ou filmes. Animais como as ovelhas, vacas, porcos, galinhas, golfinhos, focas, leões-marinhos, macacos, iguanas e saguins, dando esta lista também uma ideia das férias dela, do campo à praia nada faltou.
Como não podia deixar de ser, eu e o pai dela trouxemos de Espanha o seu novo guarda-roupa de Inverno, tal como no ano passado. Isto por a aldeia do meu sogro ser a 10 minutos da fronteira. Tenho que reconhecer que os espanhóis adoram crianças e sabem tratá-las como autênticas princesas. Têm uma loja imperdível, a “Nanos”. Mas mesmo as mais acessíveis são belíssimas nas peças das suas colecções que não se vêem por cá. O preço anda ela por ela é mesmo uma questão de bom gosto.
E assim envaideço e dou cabo da minha filha que já escolhe, grita e exige. Gostava de a educar o melhor possível e emociono-me muitíssimo quando ela me chama querida. Estamos em pleno processo de educação e, até eles serem maiores há que dobrá-los mas... tudo com muito carinho.




terça-feira, 6 de maio de 2008

Acabou a tua agonia, Papá



Fevereiro, Março e Abril são meses para esquecer. Vivi os dias mais negros e tristes da minha vida. No dia 29 de Abril partiste, papá. A tua dor acabou. Foi horrível ver-te em agonia e o meu único consolo é saber que já não agitas os braços numa tentativa de arrancares tubos, já não tens dificuldade em respirar, já não tens a ansiedade, a garganta seca e o desespero que te tomaram por inteiro e te asfixiaram por fim.
Partiste, papá e eu sinto-me mais só do que nunca e tão triste e com tanta dor física e um aperto mental tão grande que sempre que me lembro que não te tenho é como se sofresse choque eléctrico após choque eléctrico.
A dor é constante e a saudade eterna. Não por teres sido apenas meu pai mas por teres sido um pai meigo, querido, amigo, que gostava de dar e receber miminhos, a pessoa mais terna e doce que conheci até hoje. Dói-me mais por te ter sido predilecta e tratada com tanto amor e ternura por ti. As minhas mãos encerram os mil beijos que me deste, o meu coração é ocupado por ti, a minha memória nunca te esquecerá e eu sou quem sou graças a ti.
Gosto de te imaginar no Céu entre os nossos entes queridos que também já partiram, em particular os avós, o tio e os primos. Gosto de pensar que o teu espírito deixou este invólucro terreno e agora corre solto por dimensões alegres e boas. Dizem que é assim, que as pessoas boas quando morrem vão para o Céu. E assusta-me imaginar-te perdido ou sozinho preso num desses pesadelos horríveis que às vezes tínhamos.
Sabes, papá, nunca mais consegui sonhar contigo e isso mata-me. Eu que sonho tanto e milhares de vezes sonhei contigo agora estou bloqueada e nem aí me é permitido ver-te. Durmo abraçada à tua almofada e só assim durmo.
Eu sei que vou encontrar-te. Sempre fui óptima a descobrir-te as coisas: papéis desaparecidos, objectos perdidos, tudo o que me pedisses para encontrar na bagunça do teu escritório eu achava-te. E vou reconhecer-te no Céu e correr para os teus braços. PROMETO-TE. Sinto-te em mim, dentro deste coração que ainda bate e sei, do fundo do meu ser, que um dia, vou vasculhar esse Céu à tua procura e nem que passe por oceanos e oceanos de espíritos eu saberei quem tu és e não descansarei até te reencontrar.
Tenho recebido muitos beijos e palavras de conforto. Às vezes penso se também terás sido recebido com uma chuva de beijos. Eu sei que tiveste tanto medo mas agora quero acreditar que estás bem. Intercede por mim e pela bebé e nós oramos por ti. Um dia vamos estar juntos e tu daí, do Céu, vais ver a bebé transformar-se numa bela mulher. No dia do teu funeral, 1 de Maio, a querida deu os seus primeiros oito passos seguidos. Já deve ter sido o teu espírito a segredar-lhe para não ter medo de andar. Se calhar deste-lhe a mão e ajudaste-a e ninguém te viu.
Prometo-te papá que viverás sempre através de mim e que a única neta que chegaste a ver saberá quem foi o avô e amará e respeitará a tua memória, assim como eu amo e respeito a dos meus avós que pouco ou nada conheci.
A vida é dura e é uma graça. Disse o senhor padre na tua homília: “Ninguém pede para nascer, a vida é uma graça de Deus, um dom que Ele nos dá.” Mas também ninguém pede para morrer ou para sofrer a dor provocada pela perda de quem amamos. A vida é assim um presente envenenado. É dada mas retirada. A morte é um mistério. A vida é uma graça e a morte um mistério. Nunca gostei muito destas definições religiosas. Não sei o que é a morte mas agora tenho-lhe menos medo. Ganhou um novo atractivo: o poder abraçar-te de novo. Espera por mim, papá.

Stop all the clocks

Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.

Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message He Is Dead,
Put crepe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.

He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last for ever: I was wrong.

The stars are not wanted now: put out every one;
Pack up the moon and dismantle the sun;
Pour away the ocean and sweep up the wood.
For nothing now can ever come to any good.


W.H. Auden

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Mamã, mamã

“Mamã, mamã/ Onde estás tu mamã? / Nós sem ti não sabemos, mamã / libertar-nos do mal.” Embora a bebé nunca tenha ouvido a Canção de Lisboa ela entoa alegremente a palavra MAMÃ, a sua primeira palavra, o que muito naturalmente me enche de ORGULHO.
Quando é que a bebé diz mamã? Sempre que me vê, é certo, em alturas de grande aflição, também, quando lhe faço mimos e, se pensar bem, em momentos incertos, vários vezes ao dia, quase em tom de campanha eleitoral: Mamã, mamã, mamã. Assim, repetidas vezes como se eu fosse a votos. É um amor este bebé.
Aos catorze meses, para além de mamã, diz também algo que soa a “já está” e quanto a reportório falado ficamos por aqui.
Tem a boca cheia de dentes como refere, babada, a minha mulher-a-dias e baby-sitter involuntária. À frente, atrás, é um delírio de dentição. E quando ri mostra aqueles dentinhos doces e brancos, tão pequeninos, dentes de leite que um dia uma fada virá reclamar.
Quando olho para a bebé e me derreto penso que se eu sou o mundo dela ela é o meu. Respiro nela, alimento-me nela, rejuvenesço nela e nesses mergulhos totais faço por esquecer a angústia que é saber que em breve não terei mais o meu pai.
Ontem massajei-lhe as pernas que já acusam muita dormência e inventei uma série de exercícios. Ele disse-me que eu podia ser uma boa fisioterapeuta e, nesse momento, estava contente. Depois, chegou um cadeirão, daqueles com comando e mil posições. Esteve lá sentado pouco mais de meia hora. Queixou-se de dores e voltou para a cama/cela. Depois, com as lágrimas nos olhos confidenciou-me: “Só hoje tive a certeza de que estou um farrapo humano, um verdadeiro trapo e que vou ser assim para o resto da minha vida que espero seja curta.” Repreendi-o como se faz a uma criança. Disse-lhe que não o queria ouvir falar assim mas também eu já tinha a voz embargada e tive de sair do quarto com a desculpa de ir buscar água.
Para o meu pai, o tempo é vagaroso e custa muito a passar. Está sempre a olhar para o relógio. Desconfia dos dias. Acha que o enganamos. Para ficar mais tranquilo deixei-lhe na mesa-de-cabeceira o seu querido Borda d’Água, uma velha publicação que sempre comprou e apreciou. Acho que vai passar a marcar os dias com uma esferográfica.
Custa-me muito vê-lo assim, como uma candeia que todos os dias se apaga um pouco mais. Lamento a minha mãe que tanto se esforça por minimizar-lhe a dor e que emagrece de desgosto. Às vezes, o meu pai é agressivo com ela e faz mais birras. Penso que é uma questão de proximidade.
O olhar do meu pai é uma novidade para mim. É alegre e triste ao mesmo tempo. Ausente e presente. É um olhar novo que veio com a doença. Tudo começou com uma dor, dor essa que nunca mais o abandonou e que só quando está na posição de deitado o deixa mais em paz. Ele também já me disse que percebeu que essa dor nunca mais o iria largar. Se essa dor tivesse forma eu dava-lhe dois sopapos.
Como tudo na vida aquilo que mais nos magoa é o que não conseguimos ver mas só sentir. Estilo o filme de terror clássico: nada se vê, todo o horror se depreende, invade-nos o calafrio, percorre-nos o arrepio na nuca mas não está ali nada. Aborrece-me que o medo não tenha cara para lhe cuspir em cima.

terça-feira, 8 de abril de 2008

Um raio de luz



Foi assim de repente, de repente como tudo acontece. Havia sido diagnosticado há já vários anos um cancro na próstata ao meu pai. Em consequência foi seguido, medicado e os níveis de PSA sempre vigiados. Os médicos diziam que um homem na idade do meu pai podia morrer de muita coisa mas não do cancro em si. O meu pai tem 86 anos e inúmeras vezes – para seu desagrado – era tomado por meu avô. Casou tarde com uma brasa vinte anos mais nova. E nascemos três, sendo eu a primogénita e única menina.
Não suporto que me digam que o meu pai já viveu muito. Uma avó de uma amiga minha tem 93 anos e ainda anda aí para as curvas. Para além disso sabemos que idade nunca foi critério para morrer. E não existe ninguém neste mundo que em seu perfeito juízo deseje morrer. Mais: apesar de sabermos que toda a vida é uma espécie de presente envenenado porque a morte nos espera não imaginamos que a nossa seja uma realidade inevitável. Isto é, não imaginamos o pesadelo que é ser um paciente com uma doença terminal preso a uma cama. Preferimos pensar que o nosso momento será rápido e indolor.
Os amigos não sabem o que fazer ou dizer. Muitos não querem atrapalhar. Outros têm os seus próprios medos. A verdade é que a conversa da morte não é um tema interessante. Ela torna-se a palavra proibida da própria vida e esquecemos esse assunto para podermos seguir em frente e achar que tudo vale a pena. E vale. Porque se aproveitarmos a vida, se a vivermos em pleno partimos de papo cheio e tranquilizamos os que ficam, os nossos queridos, aqueles que irão sofrer e chorar a perda.
Intimida a morte. Na universidade fiz uma tese intitulada “Sexo, Sida e Morte”. Quando a finalizei a minha sensibilidade era tal que chorava por tudo e por nada e a minha mãe teve de se impor e não me deixar contactar com mais doentes.
Hoje, o doente moribundo é a pessoa que mais me vai custar perder. Aquela que eu dava a própria vida para não ver partir. Nada me vale o meu posicionamento aberto ao longo dos anos, o da aceitação da ordem natural das coisas, o existencialismo que tanto me apaixonou, todas as ideias e credos. Na verdade, estou apavorada. O medo da morte tomou-me de assalto e eu adorava ser mexicana para pensar de um modo diferente mas não tenho o sangue sul-americano que faz do dia dos mortos uma festa memorável.
Na minha cultura a morte é tabu. É o fim absoluto. Não se fazem oferendas de açúcar. Chora-se e esquece-se. Por isso, os nossos cemitérios estão vazios de vivos e os jazigos abandonados…
Recomecei a rezar há uns quatro anos atrás quando o meu pai foi internado com um edema da glota e a minha mãe apareceu vinda de um corredor hospitalar com toda a roupa dele e pertences num saco de plástico. Supliquei a Deus para não o levar. E o meu pai salvou-se. Mas hoje é diferente. Sei que não há oração que o traga de volta e já o tenho como uma espécie de clone do que era. Porém, não me consigo revoltar contra Deus. Pelo contrário. Desde que recomecei a falar com Ele que lhe agradeço todos os dias as inúmeras graças que me concede: pais maravilhosos, uma vida boa, saúde, criatividade e tudo o mais que tenho. Em especial, não me canso de lhe agradecer ter-me dado um marido que, apesar de já termos passado por vários e graves problemas é um homem que eu amo muito, me apoia e é super carinhoso. Sem ele, creio que já tinha endoidado de vez. E através dele eu tive a bebé, o meu amor que me sustém. Por eles convenço-me de que não posso ir abaixo e desistir. E pela minha mãe também.
E assim, a bebé e o meu pai são o Alfa e o Ômega. O princípio e o fim. Quando ajudo a minha mãe a trocar a fralda do meu pai, quando tento que o meu pai coma a sopa de legumes triturada que lhe dou lentamente com uma colher, quando o limpamos com toalhetes e o beijamos muito muito eu penso que é tudo igual ao que eu faço com a bebé. Surpreende-me este ciclo onde tudo termina como começa completando a famosa roda da vida de que as pessoas dadas à espiritualidade tanto falam.
Sempre que estou com o meu pai faço-o rir e brinco com ele. Soam-me duras as palavras da médica: “O seu pai tem menos de um mês de vida.” Ela é fria porque já perdeu ambos os pais com cancro. Diz as coisas mesmo assim: “Ele está a fazer uma compressão medular e vai ficar paralisado da cintura para baixo”, ou “um edema pulmonar era o melhor que lhe podia acontecer.” Às vezes, apetece-me dar-lhe um tiro...
Só Deus sabe o tempo que o meu pai tem. Só Deus. E por isso eu agora rezo diferente e peço só para que não o faça sofrer e ele reencontre os nossos no céu porque o meu pai detesta estar sozinho e desde criança tem medo do escuro.
Esse meu pai que está acamado e cheio de dores, que já delirou com morfina e se queixou de sentir que estava partido pela espinha hoje despediu-se de mim assim: “Eu sei, querida, que agora tens a tua casa, o teu marido e a tua filha mas sempre que me vens visitar é um raio de luz que entra nesta casa.” E eu que nunca choro à frente do meu pai quase quebrei. Guardei as minhas lágrimas para a noite e pensei que também eu tinha a minha luzinha, a única neta que o meu pai ainda viu e que quando o visita é um anjo irrequieto à cabeceira dele mas fá-lo feliz.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Parabéns Princesa


Ontem, meu amor lindo e pequenino fizeste um ano de vida. Não te consegui dar o que queria porque não me consigo ter a mim. Até tu vomitaste um interminável jorro verde. Porque há coisas que são como aço em nós e nos dilaceram por dentro. Prometo-te que tudo será diferente e melhor. E até lá, fica com uma estória da mamã, inventada só para ti.

Há muito muito tempo, num bosque encantado, um pequeno duende verde parou à frente de um cogumelo único no mundo. Hesitou se seria ou não o cogumelo raríssimo mencionado no Grande Livro de leitura obrigatória na escola dos duendes. Pelas pintas azuis celestes que sobressaíam numa textura tão doirada que quase o obrigava a semicerrar os olhos concluiu que sim, que só podia ser o famoso e lendário tigrado azul.
Nesse momento de certeza, iniciou uma série de pulinhos e de gritinhos de alegria e, até, uma espécie de samba. E pensou: “É tão difícil os duendes encontrarem aquilo que querem quanto mais darem de caras com o inesperado e o mágico.” E depois pensou também que aquele cogumelo era dele e devia-o proteger.
Um gnomo ambicioso passou perto dele e, ainda que respeitando o direito de chegada, não se conteve e proferiu:
- Por que te alegra tanto teres descoberto o tigrado? Se ao menos tivesse sido o pote das moedas de oiro, aí sim, podias festejar dessa maneira exuberante.
- Pois, tens razão – anuiu, tristonho – mas esse, todos sabemos que está no fim do arco-íris… E ninguém se atreve a molestar as cores protectoras do ancião.
- Não acreditas nessa lenda – troçou o outro, implacável – que o mais velho dos duendes é, de facto, um guardião do pote. Ele está lá, cheio de moedas e moedas. E pode ser teu. Só tens de esperar pelo arco-íris e aventurar-te.
- Mas eu não quero sair de perto deste – disse, apontando para o raríssimo cogumelo.
- Eu tomo conta dele por ti. Vai lá, tranquilo e não te preocupes. Fica descansado. Eu cuido bem dele.
- Não posso virar costas e ignorar que este cogumelo é meu. Só meu. O meu sonho era ficarmos juntos para sempre longe de vocês todos, uma tribo de seres pegajosos.
- Ai, que malcriado! Então é assim que agradeces a minha ajuda?
- Mesmo que cuides deste cogumelo por mim ele nunca será teu. Vê. O tigrado já sabe o meu nome.
E as pintas formaram a palavra Miko que era o nome do duende.
- Agora existe o mais forte dos laços entre nós. E o poder dele é o meu e o meu é o dele. Perdeste gnomo mau e usurpador. Agora desaparece e vai à procura de um duende que cai nas tuas patranhas.
E o pequeno duende ficou junto do seu cogumelo maravilhoso e durante toda a noite viu-o mexer graciosamente e ambos dançaram unidos num segredo que só revelariam anos e anos mais tarde.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Casar antes dos 15


Quando andava na faculdade, um colega meu ridicularizou-me por eu me assumir como feminista. Considerava ele que era uma batalha dos anos 70, já ganha pela sociedade e, como tal, totalmente anacrónica. Acusou-me de segurar uma bandeira absurda e até me provocou com a famosa queima de soutiens no parque Eduardo VII. Mandei-o pastar, claro, sem sequer me incendiar ao ponto de puxar por argumentos justificativos. Lembro-me de lhe ter respondido algo simples, antes de lhe ter virado as costas: “Enquanto no mundo existirem mulheres a serem discriminadas pelo facto de serem mulheres a bandeira do feminismo mantém-se bem erguida e firme. Não é apenas a nossa sociedade ocidental que conta e, até na nossa, as disparidades continuam.”
Na realidade, tanto esse meu colega como muitos homens crêem não só que o feminismo é ultrapassado como deliram com as imagens das feministas, para eles mulheres feias, lésbicas, frustradas e sem uma ponta de interesse. Não aceitam que uma mulher possa ser feminina e feminista, heterossexual e feminista, giríssima de fazer parar o trânsito e feminista. Pois, de facto, esses homens estão enganados. Graças a Deus, existem no mundo inteiro mulheres muito diferentes umas das outras mas unidas na mesma luta, uma irmandade mergulhada no mesmo credo: a dos direitos das mulheres seja em que nação for. E essas mulheres são lindas por dentro e por fora e eu orgulho-me de ser uma delas.
Dizem que em África nasceu o primeiro homem. Se esse continente é o berço da humanidade é também o da bestialidade. Os actos mais selvagens e vis são perpetrados contra as mulheres. E o pior é que a lei não pode fazer nada. A questão é cultural: a menina é um fardo para os pais e a virgindade sagrada para os esposos. Logo, temos negócio. Na Etiópia, apesar de os casamentos terem sido proibidos com meninas menores de 18 anos, desde 1995, todos ignoram o decreto. As crianças etíopes casam com homens muito mais velhos a partir dos dez anos adiante. O que seria considerado pedofilia nas nossas sociedades é uma questão culturalmente aceite naquela região.
O problema é que essas crianças não só perdem o direito de serem crianças como ganham uma carga de trabalhos domésticos e praticam relações sexuais antes do tempo. O resultado é uma taxa elevada de mortalidade materna, imensos partos prematuros e uma grande vulnerabilidade a infecções sexualmente transmitidas, entre elas a sida. Para mais, estas meninas desenvolvem uma fístula, ruptura entre a bexiga e a vagina que as faz perder o controlo da urina e, como tal, passam a ser rejeitadas. O cheiro delas deve ser insuportável mas o que lhes fazem nem sequer tem nome… Não é de admirar que o hospital Addis-Abeba, na capital, realize a operação a título gratuito. No fundo, é um gesto de misericórdia de um país que não consegue impor a própria lei.
Factos: todos os anos, devido a um número infinito de partos, 8 000 raparigas desenvolvem esta fístula. É na Etiópia que existe a taxa de casamentos de crianças mais elevada no mundo: 74 por cento das meninas casam antes dos 15 anos. A combater esta situação cultural existe o projecto Berhane Hewan, financiado pelas Nações Unidas. Procura-se informar a população dos riscos destes casamentos precoces. A UNICEF também leva a cabo uma série de ateliers de sensibilização. Mas a verdade é que esta prática já proibida há mais de dez anos nem sequer é reprimida. Na Etiópia, as crianças do sexo feminino não têm direito a uma vida feliz. São violadas por homens bem mais velhos que, por ironia, são os maridos delas. São rasgadas e atiradas para a sarjeta. Até um hospital se apiedar delas…
Em África, a excisão clitoriana é outra prática ignóbil levada a cabo por “questões culturais”. Extirpa-se o clitóris porque é uma tradição muito antiga. Na Índia, as mulheres são tratadas abaixo de cão. Se não têm dote ninguém lhes pega. Quando os maridos se cansam delas queimam-nas e inventam acidentes domésticos do estilo foi uma explosão no fogão. Outros preferem atirar-lhes à cara ácido sulfúrico. Na Índia, oferecem-se meninas aos turistas. Mas na China a rejeição dos bebés do sexo feminino é igual ou pior. Antes, na Idade Média, os chineses aproveitavam as cheias para largar estas bebés que levadas pela corrente morriam afogadas. A verdadeira “muralha” da China é feita de sangue e ossos e separa qualquer pessoa lúcida da selvajaria cultural aí praticada, tanto no passado como hoje, com as suas salas de morte, repletas de camas de bebés meninas que ninguém quer adoptar.
São tantas as atrocidades que difícil é não querer ver o que se passa. Ainda bem que não nascemos mulheres nestes países e que culturalmente aprendemos a amar os nossos filhos meninos ou meninas. Ainda bem que somos todos iguais mas uns são mais estúpidos e primitivos do que outros. Ainda bem que tenho um clitóris, não acho possível viver sem ele. Que sorte a minha filha não ter nascido na Etiópia, caso contrário, aos dez anos já estava a ter relações sexuais e, depois, teria fatalmente uma horrenda pústula. Que agradável é estar do lado de cá, onde nada destas farpas nos podem atingir. Mas o mundo não é só o meu país. Posso ficar neutra quando as minhas irmãs sofrem? Cruzo os braços só porque já estou dentro do bote e os outros que se afundem? Cabe a todos nós fazermos algo dentro das nossas possibilidades. Não podemos fingir que nada disto não nos afecta. Eu tenho uma filha e é neste planeta que ela vai viver. Gostava tanto que o mundo fosse um sítio melhor.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Só hoje


Hoje porque é dia do meu aniversário vou viajar até uma ilha deserta e paradisíaca e banhar-me em águas cristalinas. Vou descobrir um lago fantástico com muitas flores aquáticas à superfície, cujas pétalas abrem e fecham graciosamente como se de pestanas se tratassem. Apanhar sol e deliciar-me com sumos naturais. Vou esquecer que sou a rainha da nicotina e gozar o ar puro e salgado da brisa marítima. Vou descobrir criaturas novas que me irão encantar com danças e cânticos. Depois, como num sonho incongruente, aparece-me um massagista lindíssimo e musculado que irá fazer o meu corpo sentir-se descontraído e tão leve como as próprias folhas que se despegam dos ramos.
Irei usar o mais belo dos vestidos e cinco crianças dos cinco continentes irão cirandar à minha volta convencidos de que sou uma princesa por causa da minha bela tiara de diamantes. São elas que me guiarão para uma sala quase indescritível, de painéis de âmbar russos e uma opulenta mesa de muitos metros plenos de iguarias. Não existem cadeiras nem convidados. Só as cinco crianças. A primeira dar-me-á uma taça de morangos tão saborosos e explosivos na minha boca, cujo suco tingirá os meus lábios de vermelho. Dir-me-á com uma expressão única: “Pelo sangue que perdeste.”
A segunda avança destemida com um jarro de ambrósia e avisa-me: “Por que os deuses estão de olho em ti e a tua missão, embora penses o contrário, ainda não acabou.”
A terceira olha-me nos olhos e enfia-me na boca pedaços inteiros de melancia. Ao mesmo tempo recorda-me: “O sumo da vida é o sexo. Não te deixes secar como uma velha carcaça. Sê superior a tudo o que te enfraquece e humilha. Goza a humidade das mulheres.”
A quarta pulveriza-me com chocolate e ri: “Para não perderes a tua ironia, a forma gulosa de devorares a vida, a tua doçura única, esses teus pensamentos racionais estimulados para sempre. Para não desistires.”
E eu lembro-me das barras de chocolate que os soldados levam com eles, perdidos nos bolsos, quando partem para a guerra... Por fim, a quinta miúda avança para mim com uma cesta de ovos, laranjas e um jarro de leite: “Para que nunca deixes de abrir o que gostas mesmo desconhecendo a qualidade do interior, para que tenhas um pomar perfumado sempre que abrires mais uma janela e para que abundem no céu da tua imaginação vias sem limites. A tua estrela da sorte ainda não se fragmentou. Sê forte, imaginativa, fértil, ousada e não deixes de espremer o sumo da vida. Sê ávida.”
As crianças riem à minha volta, puxam-me pelas mãos e depois desaparecem em fila indiana, após terem feito mil profecias e desejos. Fico a vê-las partirem, enquanto o meu sumptuoso vestido desaparece e fico nua numa paisagem amena de areia e mar.
Uma mulher aproxima-se segura do seu passo, com longos cabelos e olhos negros, um rosto de traços perfeitos. Quando chega perto de mim toma-me nos braços e embala-me docemente: “Quiduxinha”, murmura embevecida. Sinto-lhe o cheiro, reconheço-lhe a voz e deixo-me adormecer nos braços inconfundíveis da minha mãe que tanto adoro.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Divas e cowboys


Nos dias de maior frio aquecíamos as mãos em canecas de chocolate quente, lembras-te? Mas não querias que eu bebesse chocolate. Preferias chá ou café. Achavas-me infantil por preferir a doçura do cacau… E contudo, sempre foste feita de preconceitos. Dizias que só as pessoas básicas viviam em apartamentos e as outras, de bem, possuíam uma vivenda. Assim era com os teus pais, na cottage deles, de telhado de colmo, comme il faut, e vigas escuras de madeira a cortarem o tecto em rectas compridas e escuras à boa maneira inglesa.
I’m a town woman, resmungavas orgulhosa dos teus feitos: conduzir um citroën dois cavalos cor de laranja descapotável e conseguindo a proeza de fumar ao mesmo tempo – uma vez, íamos atropelando um ciclista… – beber cubas libres em bares onde nos deixassem entrar, etc. Foste tu que com as tuas manias estilizadas me ensinaste a pegar num cigarro. Desde aí, nunca mais fumei de outra maneira. Apenas algumas pessoas muito observadoras reparam nessa diferença e, uma vez, um rapaz até nos perguntou se tínhamos ensaiado ao espelho. Foi o cúmulo. Atingíramos a perfeição: “Um cigarro nunca se leva ao centro dos lábios mas ao canto dos mesmos. É assim que fumam as divas. E os cowboys.”
Em tua casa, os teus pais não te deixavam lavar um prato. Terias tempo, explicavam, enquanto te apaparicavam satisfazendo todos os teus caprichos. Confessaste-me mais tarde o porquê de todo esse servilismo à tua volta. Não era por teres sido filha única mas por remorsos e culpa de não terem acreditado em ti quando, muito nova, te queixaste dos abusos sexuais de um dos teus tios. Foi só quando o apanharam a arrastar-te pela casa puxada pelos teus longos e belos cabelos loiros que eles, regressados inesperadamente, caíram em si. Desde então tudo foi pouco para minimizarem o trauma.
Eras a única que tinhas televisão no quarto e gira-discos. No colégio, mais ninguém conseguira tais privilégios. Quem quisesse ver TV ia para a common room mas quem fosse tua amiga podia ficar na comodidade privada do teu quarto.
Quanto te vi pela primeira vez no cruzamento de dois corredores fazias o pino e acrobacias várias. A tua camisola laranja contrastava com os obrigatórios uniformes colegiais azuis que te cercavam. Rias alto e quando me viste aproximaste-te com a curiosidade e o andar peculiar dos gatos. Sorri pela primeira vez em três meses. Parecias-me um raio de sol a dissipar a tormenta do meu internato forçado. Conversámos e convidaste-me para o teu grupo restrito de televisão nocturna. Em breve, tornámo-nos as melhores amigas.
Passeávamos juntas, partilhávamos actividades no colégio – em particular o squash – pisgávamo-nos para fumar em todos os locais onde as freiras nunca na vida se atreveriam a ir – o mais arriscado o telhado do próprio edifício, o mais lúgubre mas tranquilo um velho cemitério oculto no meio do bosque, de campas tão antigas que já ninguém se devia lembrar da sua existência.
De táxi e comboio – antes de teres tirado a carta – percorremos todas as cidades próximas e visitámos quem nos apeteceu. Foste a única a almoçar comigo num restaurante em Sherborne quando fiz dezassete anos e deixava para trás os sweet sixteen. Fizemos compras, fomos ao cinema e deitámo-nos tarde. Ainda fomos chatear a Emma para nos deixar trepar pelo guarda-fatos dela, o melhor situado para nos escapulirmos pela clarabóia para o telhado e fumarmos os últimos cigarros e bebermos um Porto. Ela ainda nos desenhou e acabámos essa noite a dormir as três amontoadas no edredão.
Lembro-me de correres atrás de um tipo que te roubara a mala no comboio e de a teres recuperado. Eras dura. Querias ser médica e estudavas imenso. Aprendi a ser obstinada e orgulhosa do meu saber contigo. Quando partíamos levávamos trinta livros no mínimo na bagagem. Depois o ano acabou e por cortesia – eu que tantas vezes fora convidada em tua casa – convidei-te para uma quinzena de Verão no meu país. Nessas férias zangámo-nos para a vida. O motivo não podia deixar de ser uma idiotice de adolescentes. Não resististe ao charme do meu irmão do meio, com o qual eu nem sequer falava, numa das muitas das nossas eternas zangas de miúdos.
Volvidos alguns anos, em Londres, com a Isabel e a Sophie fiquei a saber, entre a risota geral que tu, menina preconceituosa e defensora das classes altas, tinhas ido para Paris, deixado tudo para trás, todos os projectos e família, porque te apaixonaras por um pasteleiro. Veio-me logo à cabeça a tua gula por bolos de creme e o let’s be piggys, antes de te precipitares para eles. Não que fosses gorda. Aliás, em Portugal ficaste mais magra, bela e bronzeada do que nunca. Mas isso foi também o amor.
Tenho a dizer-te que nunca acompanhei o riso das nossas antigas colegas. Fiquei espantada, claro. Mas agradavelmente surpreendida. Não sei se tens filhos. Eu tenho uma bebé lindíssima. A Sophie já tem uma e vai ter outro agora em Junho. Tu desapareceste do mapa e ninguém sabe de ti. Nunca forneceste informações ou fotos à antiga revista do nosso colégio. No fundo, permaneces como uma memória felina da minha adolescência. E quando estou triste, penso em ti naquele cruzamento de corredores a fazer piruetas e a pousares, de súbito, os teus lindos olhos azuis em mim com um sorriso luminoso. Até sempre, Garfield.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Dois velhos parafusos


Tenho guardada uma caixa com dois velhos parafusos e uma carta escrita pelo meu pai datada de 1 de Outubro de 1960. Comentei o facto com a minha mãe que exclamou entre atónita e furiosa: “O quê? Essa porcaria ainda existe? Pensei que a tivesse deitado fora!”. E só lembrar-me desta reacção dela faz-me ir às lágrimas de tanto rir. Claro que temos de associar a reacção da minha mãe à caixa e, mais importante, à nota escrita pelo meu pai.
Trata-se de um texto imperdível, no qual ele faz a apologia do lar e de como a mãe dele – exemplo virtuoso de todas as mulheres – deveriam reger a casa. Só isto já era o suficiente para deixar a minha mãe em brasa… Vejamos: “O que esta caixa encerra é evidentemente apenas um símbolo (…) são dois velhos e puídos parafusos tão cuidadosamente – ia dizer amorosamente – guardados. Isto é qualquer coisa mais que um gesto sem significado, pois encerra todo o segredo da manutenção e desenvolvimento de um lar”. Tudo porque terá sido a minha avó que “com uma economia sábia estimulou com o seu seguro e proficiente governo, o gosto e a vontade de novos empreendimentos”. E a carta termina dizendo que os tais parafusos que a minha mãe pensava já ter atirado para o lixo são “evidentemente apenas um símbolo, o símbolo de uma vida, de um triunfo e de um exemplo a seguir…”.
Confesso que é das estórias mais hilariantes do meu clã. Já todos sabemos que o pai sempre foi assim um bocado sovina, forreta, vá Tio Patinhas como lhe chamávamos em pequenos. Mas que tivesse herdado a tara da poupança directamente de uma avó que chegava ao cúmulo de não deitar fora mas antes guardar em caixinhas forradas a cetim parafusos todos podres confesso que é de mais. Para o feitio da minha mãe que sempre odiou comparações entre ela e a sogra – a qual nunca chegou a conhecer em carne e osso porque esta morreu muito antes de eles terem casado – a carta é um autêntico atentado.
Apesar de ser poupada e estimar as minhas coisas – como boa materialista que sou – tenho de admitir que deito muito lixo fora. Não presta ou não funciona vai logo pela conduta abaixo ou mais ecologicamente falando pelos respectivos eco pontos. Espero que o espírito da minha avó não se zangue muito… A minha mãe deveria aplaudir, certo? Mas mesmo ela desarrumada por excelência considera as minhas limpezas muito étnicas… Enfim, minha filha é impossível escrever com os teus gritos. Arruínas-me a vida de escritora e esvazias-me a inspiração. Mas mesmo lutando contra essas tuas birras de bebé se movimentam as palavras para que um dia as possas ler e sorrir com elas.