And for the first time, Constance was not scared, did not cry and was willing to take a picture with Santa Claus… Although hard to believe it’s a very special moment to remember :-))))
quinta-feira, 16 de dezembro de 2010
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
Amazona
Levanto-me, visto-me em minutos, trato do pequeno-almoço, preparo a filha para o colégio. Vou tratar das compras para a casa: bens alimentares, roupa, aquecedor novo, árvore de Natal e o que for necessário. Preparo a comida, trato da roupa, arrumo, escrevo, conserto, pinto, arranjo e volto a arrumar. Vou buscar a filha ao colégio. O tempo passou rápido. Banho, jantar, paródia e ver se ela adormece quente e bem. Fujo da cama e volto a escrever. Por vezes, adormeço e já não fujo. Há dias que me cansam mais. Meter o carro na oficina, ir aos correios, farmácia, consultas minhas e dela. Não me posso esquecer dos remédios. Um novo DVD. Não consigo ouvir mais as vozes que dobram os desenhos animados. Preciso de um armário novo. Onde está o papel do seguro? E este telemóvel não pára de tocar… No final, quando olho para mim, o espelho devolve-me uma imagem de… amazona. É bom poder contar comigo.
segunda-feira, 22 de novembro de 2010
Princesas na tela / Acrylic and oil painting of princesses
A primeira foi para a Constança. Depois... comecei a pintar em série!
The first one was for Constance. Then... I began a series of princesses!
The first one was for Constance. Then... I began a series of princesses!
sexta-feira, 19 de novembro de 2010
O Meu Sonho... / My Dream...
Talvez por eu ser escritora ainda goste mais de ler e inventar estórias para a Constancinha. Descobri uma colecção fantástica de quatro pequenos livros intitulada "O Meu Sonho de..." e depois lá aparecem as fantasias eleitas das meninas: bailarina, fada, princesa e cavaleira. Não necessariamente por esta ordem, claro está. Mas o mais giro nestes livros é o facto de podermos recortar e colar uma fotografia das filhotas e fazê-las personagens da estória. O resultado? Quatro noites de gargalhadas gostosas antes de adormecermos. Deixo-vos as lindas imagens.
Maybe because I’m a writer I enjoy even more to read and make up stories to Constance. I found a great collection of four little books entitled “My Dream of…” and then, you get all little girls best fantasies: ballerina, fairy, princess and horsewoman. Not necessarily by this order. The funniest thing is that in these books we can cut out and paste pictures of our daughters in order to transform them into story characters. The result was four nights laughing like crazy before getting into sleep. I leave you with the adorable pics.
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
The Poppy effect
Constance – as many little girls in the world, I suppose – is absolutely mad about Princess Poppy. Her favorite book is from The Pictures Books collection (not all translated into Portuguese yet) “The Wedding”.
I guess I’ve read that book thousands of times at bed time hour but she insists over and over again. I don’t know why she’s so fascinated by this story in particularly but she really is… I think is because Poppy doesn’t lie about her cousin’s dress when she accidentally ruins it. The fact that she stands for the truth makes her a real princess and Constance – who feels really embarrassed for Poppy’s accident – wants to be a princess like Poppy, which is the same to say a little girl who doesn’t lie.
Each time I begin to read a Poppy story Constance reassures Poppy character by saying: “Poppy I didn’t lie to mummy.” And Poppy – with my voice, of course – says to her: “Well done, Constance. That’s why you are a real princess like me.”
For about two months I read to Constance the eight books of Poppy collection. Then, I found the Poppy homepage with many activities and delicious games with flowers and baskets. She went nuts!
Constance is only three years old. She will be four next February. So my daughter is still very young to the Poppy Young Fiction Collection. Although we already have done one of the Activities Books: “On Barley Farm”. I think the others are too advanced for her.
Until now, the Poppy effect has been great! She doesn’t lie in order to always be a real princess, she wants to wear princess dresses at home and play with me as her mummy queen and she knows that she is not good in doing everything at once. Like Poppy she wanted to have ballet lessons, horse riding lessons and like Poppy’s friend Melody, she even wanted to learn how to play piano. At this moment, the Poppy effect was disturbing. So I told her: “You already have swimming lessons. First, you learn how to swim and then you will learn how to dance or how to ride a pony. You can’t do all at once. You’re just a baby and babies need time to do those things”.
She accepted my explanation with some distress. So, in order to calm her I decided to become her ballet teacher at home. She already has a ballerina costume and we use that and I choose to teach her listening to Borodin’s Prince Igor. At first, Constance was really excited but after some artistic jumps and beautiful pas de deux she said: “Mummy, I don’t like this music. It scares me…” I laugh but maybe she is right. Next time, I’ll try Tchaikovsky’s Nutcracker. I think that the Sugar Plum Fairy melody is absolutely marvelous!
So, we both are really grateful to Janey Jones, the author of Princess Poppy, to inspire children and their mums in getting fun out of live! Thanks so much!!!
terça-feira, 16 de novembro de 2010
Há sempre um canalha de um John Smith...
De todas as princesas Disney, aquela que sempre menos me inspirou foi a Pochaontas. Por nada em particular… Achava o desenho dela demasiado estilizado. Depois, no Grande Livro das Princesas – uma obra espectacular com ilustrações lindas de morrer de uma Sara Ruano – li para a Constança a estória desta princesa índia. E aí, sim, a minha opinião mudou por completo e rendi-me aos encantos da verdadeira índia norte-americana, filha de um chefe tribal.
E para completar a minha formação no assunto de forma decisiva vi “The New World” (2005) com o Colin Farrell a fazer de John Smith e a Q’orianka Kilcher a interpretar a Pochaontas.
O que mais me comoveu foi a paixão e o deslumbramento da princesa índia pelo mundo colonial britânico. E a transformação dela para o integrar. A aprendizagem da língua e dos costumes. Dos gestos: desde os da beleza diária aos de pura diplomacia. A Pochaontas no final seria aprovadíssima pela Bobone em toda a sua etiqueta. Viajou até Londres e foi recebida pela rainha. O máximo. Mas depois morreu porque terá apanhado um vírus qualquer e os índios não eram vacinados. Suspeito que qualquer pessoa saudável morreria na Londres de outrora, basta ver os filmes de época, estilo Oliver Twist, para ficarmos cheios de tosse e comichão. E esta jovem até era bem anterior, séc. XVI, para sermos exactos.
Temos, então, uma princesa índia que era, obviamente, muito bela e vivia em comunhão com a Mãe Natureza, falando com os espíritos e dotada de uma inteligência e sensibilidade invulgares. Um dia, impede o pai de decapitar o capitão John Smith, pelo qual, se irá apaixonar. Salvar-lhe-á a vida uma segunda vez, avisando-o de uma cilada. Em troca, o belo capitão dá-lhe todo o seu amor. Tornam-se amantes. No filme, onde abundam frases belas e inesquecíveis, a Princesa dir-lhe-á: “Estás em mim. Corres nas minhas veias. Como um rio.”
A princesa abraça um mundo novo e diferente porque é o mundo do homem que ama. Ela quer ser linda aos olhos dele, de acordo com os padrões de beleza aí cultivados. São as cedências dos amantes, o limar de arestas para que tudo corra na perfeição. Mas… John Smith quer desbravar o mundo e descobrir Índias e afins, consagrar-se na cartografia. Como tal, um belo dia desaparece e pede a um amigo para, volvidos dois meses, comunicar a morte dele à princesa.
A dor. O desgosto da perda. A loucura. Século XVI ou século XXI é tudo igual… O mesmo desatino perante o fim do amor, acrescido do sofrimento por o julgar morto. No filme, a aia britânica da princesa incita-a com uma frase maravilhosa: “Tu és uma árvore. Às vezes, há ramos que se quebram mas mesmo danificadas, vê como elas não morrem. Continuam a crescer em direcção à luz, ao sol. Não deixes que um desgosto te roube a alegria da vida.”
E a princesa de mártir louca passa a ser uma sombra silenciosa mas… bela. Um dia, o dono de uma plantação de tabaco apaixona-se por ela e pede-a em casamento. Pochaontas passa a ser Rebecca Rolfe, já fala inglês fluentemente e dá à luz – ela que quase sucumbira nas trevas – um lindo rapaz, Tomás Rolfe.
O testemunho político de Pochaontas na altura foi aproveitado para demonstrar como os índios não eram assim tão selvagens. Ela era a prova viva. Fora “civilizada”. Por isso, ficou famosa. Mais importante do que isso: ficou um mito.
No filme, o marido que a adorava proporciona-lhe um encontro em Londres com Smith. É um jogo perigoso e arriscado. Mas ele decide combater a ilusão da cabeça dela e expulsar o rival de uma vez por todas. Podia ter falhado. A chama podia ter-se reacendido que isto do amor é muito complicado. Mas a princesa fala com o homem que lhe despedaçara o coração e percebe que o verdadeiro amor é aquele que está à espera dela – sem saber se ela regressará ou não – e que cuida do filho de ambos. Rebecca, ex-Pochaontas, desprezada como carga excessiva pelo capitão Smith, pergunta-lhe com um sorriso deslumbrante: “Encontraste as Índias, John?”. Perante a negativa, encoraja-o: “Mas hás-de encontrar.” E não se deixa enternecer com frases do género “Julgava que o que tínhamos vivido nos bosques era um sonho mas agora sei que é a minha única realidade”. Azar, Smith… A vida continua.
terça-feira, 2 de novembro de 2010
I can be your hero baby...
I can be you hero baby
I can kiss away the pain
I will stand by you forever
You can take my breath away
sexta-feira, 29 de outubro de 2010
If I were a boy Beyonce
If I were a boy even just for a day
I'd roll out of bed in the morning
And throw on what I wanted
And go drink beer with the guys
And chase after girls
I'd kick it with who I wanted
And I'd never get confronted for it
'Cause they stick up for me
If I were a boy
I think I could understand
How it feels to love a girl
I swear I'd be a better man
I'd listen to her
'Cause I know how it hurts
When you lose the one you wanted
'Cause he's taking you for granted
And everything you had got destroyed
If I were a boy
I would turn off my phone
Tell everyone it's broken
So they'd think that I was sleeping alone
I'd put myself first
And make the rules as I go
'Cause I know that she'd be faithful
Waiting for me to come home, to come home
If I were a boy
I think I could understand
How it feels to love a girl
I swear I'd be a better man
I'd listen to her
'Cause I know how it hurts
When you lose the one you wanted
'Cause he's taking you for granted
And everything you had got destroyed
It's a little too late for you to come back
Say it's just a mistake
Think I'd forgive you like that
If you thought I would wait for you
You thought wrong
But you're just a boy
You don't understand
And you don't understand, oh
How it feels to love a girl
Someday you wish you were a better man
You don't listen to her
You don't care how it hurts
Until you lose the one you wanted
'Cause you're taking her for granted
And everything you had got destroyed
But you're just a boy
I'd roll out of bed in the morning
And throw on what I wanted
And go drink beer with the guys
And chase after girls
I'd kick it with who I wanted
And I'd never get confronted for it
'Cause they stick up for me
If I were a boy
I think I could understand
How it feels to love a girl
I swear I'd be a better man
I'd listen to her
'Cause I know how it hurts
When you lose the one you wanted
'Cause he's taking you for granted
And everything you had got destroyed
If I were a boy
I would turn off my phone
Tell everyone it's broken
So they'd think that I was sleeping alone
I'd put myself first
And make the rules as I go
'Cause I know that she'd be faithful
Waiting for me to come home, to come home
If I were a boy
I think I could understand
How it feels to love a girl
I swear I'd be a better man
I'd listen to her
'Cause I know how it hurts
When you lose the one you wanted
'Cause he's taking you for granted
And everything you had got destroyed
It's a little too late for you to come back
Say it's just a mistake
Think I'd forgive you like that
If you thought I would wait for you
You thought wrong
But you're just a boy
You don't understand
And you don't understand, oh
How it feels to love a girl
Someday you wish you were a better man
You don't listen to her
You don't care how it hurts
Until you lose the one you wanted
'Cause you're taking her for granted
And everything you had got destroyed
But you're just a boy
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
42 minutos
Há pessoas para as quais estacionamos não umas horas, mas, dias, semanas, meses, ou até mesmo, anos. Estacionamos, isto é, paramos com a nossa vida e reformulamo-la em função de uma simpática coexistência. Ou de uma coexistência que desejamos simpática. A nossa personalidade lima aqui e acolá, cedemos um ponto e outro, toleramos, aceitamos e exigimos porque também damos. A vida a dois é feita de cedências, sabemos. Assistimos à partida de alguns amigos que provocam ciúme e torcemos o nariz às amigas que suspeitamos terem sido algo mais do que isso. Tudo se modifica na fusão a dois. Habituamo-nos. Aprendemos novos horários, rotinas e afazeres. Surgem novas obrigações e deveres a par com algumas compensações. Sentimos saudades da liberdade perdida. Nauseamos com a vida controlada, as justificações para os pequenos atrasos ou as demoras daquilo que de nós é esperado. Sofremos. Em silêncio, recolhemos lágrimas amargas por nada correr como sonhámos ou planeámos um dia. Culpamo-nos. A nós e ao outro. Acusamos, discutimos, guerreamos. Tudo é intenso e os dias passam a ser escarlates. Esses dias que passam a semanas e a meses e a anos. Tornamo-nos a dor e o cansaço. A exaustão. Perdemos a paciência, o desejo, a quimera. Somos um anjo partido. Fragmentado. Deixamos de acreditar. Vemo-nos no espelho da insegurança do outro. Alimentamo-nos de mentiras, traições e insultos. A capacidade de limite do ser humano é tão extraordinária quanto única. Os mais racionais encontrarão sempre uma justificação mesmo quando ela não existe, mesmo quando nos dizem ah estás a tapar o sol com uma peneira. Tudo se tapa, encobre, esconde. Principalmente, a desilusão. Porque ao assumirmos algo tão dramático e intenso estamos a um passo do falhanço. E isso é algo que desde pequeninos somos educados a evitar. Temos de vencer sempre, ficar por cima, dos fracos não reza a História…
A nossa imobilidade torna-se invisível. Mais do que um espírito que paira numa casa é a casa que paira em nós, que nos absorve, que exige o nosso sangue. Tudo tem de estar impecável. Mesmo que nós já não habitemos ali. O que se deita na nossa cama é o medo e o cansaço. Do que nos dizem… do que nos fazem… da tortura de vivermos uma farsa. Somos uma second life quando devíamos ser a única life and… wife. E, um dia, salta-nos a tampa e exigimos a verdade. Mesmo que essa verdade seja o fim de algo e o princípio de outra coisa qualquer. É preciso coragem para viver. Para todos os dias nos levantarmos e cuidarmos do que é nosso afinal. Os filhos.
Tropeço em pais e mães divorciados todos os dias. Hoje é coisa banal. Não é algo que encoraje ou apoie. Acredito que quando se ama tudo é possível. Até mesmo o perdão. Sobretudo o perdão. As mulheres tendem a perdoar e os homens – alguns – a repetirem os erros. Os homens também perdoam e as mulheres – algumas – voltam a decepcionar. Anda meio mundo desencantado com outro meio mundo. E desencontrado. Mas para todos os que acreditam neles próprios e no valor deles enquanto seres humanos há sempre uma luz ao fundo do túnel.
Acredito que a pior dor é sobrevivermos aos nossos filhos. Nunca vi desespero maior do que o daqueles pais que assistem impotentes à morte de um filho menor, seja por acidente ou doença. Os amores? Vão e vêm. O trabalho? Pode ser melhor ou pior. A doença fatal não tem volta a dar.
E pode ser que um dia, no meio de uma rotina de doidos, se encontre um ser humano que nos olhe de uma forma absolutamente singular. Alguém que nos oiça, para o qual mais do que visíveis sejamos vistosas, alguém que nos atropele as palavras e nos suspenda os gestos e que nos sussurre numa doce impaciência: “Já estás aqui há quarenta e dois minutos.” Alguém que nos apresse a viver, a amar, a não desperdiçar os preciosos minutos, dias, semanas, meses, ou até mesmo, anos, da nossa existência.
sábado, 23 de outubro de 2010
Cenas...
Há cenas muito complicadas. Como o facto de haver apenas uma chave para uma fechadura... Eu sei qual é a minha chave... Nunca abriu um mundo fantástico e maravilhoso mas... é a minha chave... e eu sei...
quinta-feira, 7 de outubro de 2010
Carta de um PAI a um professor
"Caro professor, ele terá de aprender que nem todos os homens são justos, nem todos são verdadeiros, mas por favor diga-lhe que, por cada vilão há um herói, que por cada egoísta, há também um líder dedicado, ensine-lhe por favor que por cada inimigo haverá também um amigo, ensine-lhe que mais vale uma moeda ganha que uma moeda encontrada, ensine-o a perder mas também a saber gozar da vitória, afaste-o da inveja e dê-lhe a conhecer a alegria profunda do sorriso silencioso, faça-o maravilhar-se com os livros, mas deixe-o também perder-se com os pássaros do céu, as flores do campo, os montes e os vales.
Nas brincadeiras com os amigos, explique-lhe que a derrota honrosa vale mais que a vitória vergonhosa, ensine-o a acreditar em si, mesmo se sozinho contra todos. Ensine-o a ser gentil com os gentis e duro com os duros, ensine-o a nunca entrar no comboio simplesmente porque os outros também entraram.
Ensine-o a ouvir a todos, mas, na hora da verdade, a decidir sozinho, ensine-o a rir quando esta triste e explique-lhe que por vezes os homens também choram. Ensine-o a ignorar as multidões que reclamam sangue e a lutar só contra todos, se ele achar que tem razão.
Trate-o bem, mas não o mime, pois só o teste do fogo faz o verdadeiro aço, deixe-o ter a coragem de ser impaciente e a paciência de ser corajoso.
Transmita-lhe uma fé sublime no Criador e fé também em si, pois só assim poderá ter fé nos homens.
Eu sei que estou a pedir muito, mas veja que pode fazer, caro professor."
Nas brincadeiras com os amigos, explique-lhe que a derrota honrosa vale mais que a vitória vergonhosa, ensine-o a acreditar em si, mesmo se sozinho contra todos. Ensine-o a ser gentil com os gentis e duro com os duros, ensine-o a nunca entrar no comboio simplesmente porque os outros também entraram.
Ensine-o a ouvir a todos, mas, na hora da verdade, a decidir sozinho, ensine-o a rir quando esta triste e explique-lhe que por vezes os homens também choram. Ensine-o a ignorar as multidões que reclamam sangue e a lutar só contra todos, se ele achar que tem razão.
Trate-o bem, mas não o mime, pois só o teste do fogo faz o verdadeiro aço, deixe-o ter a coragem de ser impaciente e a paciência de ser corajoso.
Transmita-lhe uma fé sublime no Criador e fé também em si, pois só assim poderá ter fé nos homens.
Eu sei que estou a pedir muito, mas veja que pode fazer, caro professor."
segunda-feira, 6 de setembro de 2010
O teu olhar azul
Quando ela entrou na sala, ele interrompeu a brincadeira com os amigos e ergueu-se de um jeito automático, numa veneração muda. Esse momento - do olhar dele para ela - pareceu-me uma eternidade... Ela não estava nem aí. Agarrada à minha mão, tímida mas entusiasmada, não olhava para ninguém em particular mas revia-os a todos. E ele permanecia preso à visão dela, em pé como um cavalheiro perante a sua dama, incapaz de retomar a brincadeira com os outros dois, os quais prosseguiam os jogos sentados no chão. Cumprimentei-o mas ele ignorou-me. Só ela existia e aquele olhar azul inspecionava-a, absorto e encantado. Depois, fomos guardar a mochila e eu deixei-a com o coração apertado mas deveras impressionada com a reacção espectacular do amiguinho especial. E pensei na sinceridade de um olhar derretido de um miúdo de três anos... Porque será que, ao longo da vida, se estragam os corações verdadeiros? E foi assim, o primeiro dia da Constança de regresso ao Colégio.
domingo, 5 de setembro de 2010
Para príncipes
- Que castelo é aquele, amor? Já imaginaste alguém a viver ali? É lindo e, olha, tem a bandeira da ordem dos Templários...
- É para príncipes que não existem a não ser nas histórias que conto à minha filha.
quinta-feira, 12 de agosto de 2010
FIAT 500
É lindo este carro! Fácil de conduzir. O leitor de CD lê também mp3. O painel é espectáculo. Arruma-se bem e apita. Adorava tê-lo na versão cabriolet. Mas só o consegui comprar numa versão miniatura e com uma Barbie ao lado lolol
domingo, 8 de agosto de 2010
And death shall have no dominion
And death shall have no dominion
Dead men naked they shall be one
With the man in the wind and the west moon;
When their bones are picked clean and the clean bones gone,
They shall have stars at elbow and foot;
Though they go mad they shall be sane,
Though they sink through the sea they shall rise again
Though lovers be lost love shall not;
And death shall have no dominion.
Mais um poema absolutamente soberbo de Dylan Thomas
Do not go gentle into that good night
Do not go gentle into that good night,
Old age should burn and rave at close of day;
Rage, rage against the dying of the light.
Though wise men at their end know dark is right,
Because their words had forked no lightning they
Do not go gentle into that good night.
Good men, the last wave by, crying how bright
Their frail deeds might have danced in a green bay,
Rage, rage against the dying of the light.
Wild men who caught and sang the sun in flight,
And learn, too late, they grieved it on its way,
Do not go gentle into that good night.
Grave men, near death, who see with blinding sight
Blind eyes could blaze like meteors and be gay,
Rage, rage against the dying of the light.
And you, my father, there on the sad height,
Curse, bless, me now with your fierce tears, I pray.
Do not go gentle into that good night.
Rage, rage against the dying of the light.
Poema de Dylan Thomas, dedicado ao pai moribundo e considerado um dos seus melhores trabalhos.
Old age should burn and rave at close of day;
Rage, rage against the dying of the light.
Though wise men at their end know dark is right,
Because their words had forked no lightning they
Do not go gentle into that good night.
Good men, the last wave by, crying how bright
Their frail deeds might have danced in a green bay,
Rage, rage against the dying of the light.
Wild men who caught and sang the sun in flight,
And learn, too late, they grieved it on its way,
Do not go gentle into that good night.
Grave men, near death, who see with blinding sight
Blind eyes could blaze like meteors and be gay,
Rage, rage against the dying of the light.
And you, my father, there on the sad height,
Curse, bless, me now with your fierce tears, I pray.
Do not go gentle into that good night.
Rage, rage against the dying of the light.
Poema de Dylan Thomas, dedicado ao pai moribundo e considerado um dos seus melhores trabalhos.
domingo, 18 de julho de 2010
sexta-feira, 16 de julho de 2010
Uma janela de luz
- Mas dra. porque é que tenho de abrir mão dessa janela de luz na minha vida?
- Você brinca com o fogo...
- Ah... brinco mesmo.
- Você brinca com o fogo...
- Ah... brinco mesmo.
quinta-feira, 15 de julho de 2010
Eu e o meu pai na praia
Querido pai,
A saudade é grande mas obrigada por me visitares nos sonhos e viveres neste coração que ainda bate. Adoro-te.
sábado, 19 de junho de 2010
José Saramago 1922-2010
Quando ele terminou, as mãos dela já não estavam frias, as suas ardiam, por isso foi que as mãos se deram às mãos e não se estranharam. Passava muito da uma hora da madrugada quando o violoncelista perguntou, Quer que chame um táxi para a levar ao hotel, e a mulher respondeu, Não, ficarei contigo, e ofereceu-lhe a boca. Entraram no quarto, despiram-se e o que estava escrito que aconteceria, aconteceu enfim, e outra vez, e outra ainda. Ele adormeceu, ela não. Então ela, a morte, levantou-se, abriu a bolsa que tinha deixado na sala e retirou a carta de cor violeta. Olhou em redor como se estivesse à procura de um lugar onde a pudesse deixar, sobre o piano, metida entre as cordas do violoncelo, ou então no próprio quarto, debaixo da almofada em que a cabeça do homem descansava. Não o fez. Saiu para a cozinha, acendeu um fósforo, um fósforo humilde, ela que poderia desfazer o papel com um olhar, reduzi-lo a uma impalpável poeira, ela que poderia pegar-lhe fogo só com o contacto dos dedos, e era um simples fósforo, um fósforo comum, o fósforo de todos os dias, que fazia arder a carta da morte, essa que só a morte podia destruir. Não ficaram cinzas. A morte voltou para a cama, abraçou-se ao homem e, sem compreender o que lhe estava a suceder, ela que nunca dormia, sentiu que o sono lhe fazia descair suavemente as pálpebras. No dia seguinte ninguém morreu.
In As Intermitências da Morte de José Saramago
Por uma hora ficaram os dois sentados, sem falar. Apenas uma vez Baltazar se levantou para pôr alguma lenha na fogueira que esmorecia, e Blimunda espevitou o morrão da candeia que estava comendo a luz e então, sendo tanta a claridade, pôde Sete-Sóis dizer, Por que foi que perguntaste o meu nome, e Blimunda respondeu, Porque minha mãe o quis saber e queria que eu o soubesse, Como sabes, se com ela não pudeste falar, Sei que sei, não sei como sei, não faças perguntas a que não posso responder, faze como fizeste, vieste e não perguntaste porquê, E agora, se não tens onde viver melhor, fica aqui, Hei-de ir a Mafra, tenho lá família, Mulher, Pais e uma irmã, Fica, enquanto não fores, será sempre tempo de partires, Porque queres tu que eu fique, Porque é preciso, Não é razão que me convença, Se não quiseres ficar, vai-te embora, não te posso obrigar, Não tenho forças que me levem daqui, deitaste-me um encanto, Não deitei tal, não disse uma palavra, não te toquei, Olhaste-me por dentro, Juro que nunca te olharei por dentro, Juras que não o farás e já o fizeste, Não sabes do que estás a falar, não te olharei por dentro, Se eu ficar, onde durmo, Comigo.
Deitaram-se. Blimunda era virgem. Que idade tens, perguntou Baltasar, e Blimunda respondeu, Dezanove anos, mas já então se tornara muito mais velha. Correu algum sangue sobre a esteira. Com as pontas dos dedos médio e indicador humedecidos nele, Blimunda persignou-se e fez uma cruz no peito de Baltasar, sobre o coração. Estavam ambos nus. Numa rua perto, ouviram vozes de desafio, bater de espadas, correrias. Depois o silêncio. Não correu mais sangue.
Quando, de manhã, Baltasar acordou, viu Blimunda deitada ao seu lado, a comer pão de olhos fechados. Só os abriu, cinzentos aquela hora, depois de ter acabado de comer e disse, Nunca te olharei por dentro.
In Memorial do Convento de José Saramago
Estavam nos braços um do outro, mas ainda não se beijavam, olhavam-se e sorriam muito, o rosto alegre, e depois o sorriso recolheu-se lentamente, como água que a terra estivesse sorvendo e saboreando, até que ficaram sérios os dois, fitando-se, uma rápida sombra subtil adejou pelo quarto, veio e fugiu logo, e então umas asas imensas e poderosas envolveram Maria Sara e Raimundo Silva, apertando-os como a um único corpo, e o beijo começou, tão diferente daquele que aqui se tinham dado ontem, eram as mesmas pessoas, eram outras, mas dizer isto é ter dito nada, porque ninguém sabe o que o beijo é verdadeiramente, talvez a devoração impossível, talvez uma comunhão demoníaca, talvez o princípio da morte. Não foi Raimundo Silva quem conduziu Maria Sara à cama, nem ela para ali o impeliu suavemente como distraída, ali se acharam, sentados primeiro na borda do colchão, amarrotando a colcha branca, depois ele deitou-a para trás e continuaram beijar-se, ela rodeava-lhe a nuca com os braços, o braço direito dele servia de apoio à cabeça dela, mas o esquerdo parecia hesitar, sem saber o que fazer, ou sabendo-o e não ousando, como se um final e invisível muro se houvesse interposto no último segundo, guiou-o finalmente a sábia mão, tocou a cintura de Maria Sara, desceu até à anca e foi pousar, quase sem pressão, no arredondado da coxa, para subir depois, devagar, pelo corpo acima, até ao peito, agora a memória dos dedos pôde reconhecer a macieza do tecido da blusa em que tocava pela primeira vez, a sensação foi rapidíssima e no mesmo instante diluída pela consciência tumultuosa de que sob a mão banal do homem estava o prodígio de um seio.
In História do Cerco de Lisboa de José Saramago
quinta-feira, 17 de junho de 2010
terça-feira, 25 de maio de 2010
Mother and child at the beach
Na Ficção Científica existe muito a tendência do diário, talvez porque ficcionamos no futuro, estando nós no presente e, de alguma forma, condicionados pelas memórias que são passado. Assim, muitos autores fazem as suas personagens escrever os citados diários. Dias de um calendário, tão abstractos como os números, ferramentas que a nossa mente criou na ânsia de conseguirmos ter alguma espécie de domínio sobre a natureza, em particular, a nossa.
É Março de 2006 e eu estou apaixonada. Algures nesse Verão estou deitada numa espreguiçadeira e à minha frente existe uma piscina redonda que transborda de água tépida. O homem que amo está sentado, com as pernas mergulhadas na água e fuma um cigarro. Sento-me ao lado dele. Estamos ambos queimados do sol. Pouco depois, sinto que me acaricia a barriga, desejoso de a ver cheia de vida. Em parte é por pirraça dado que existe um grupo do outro lado da piscina que o incomoda e, em outra parte, é por desejo antigo de ter um filho.
Sorrio com estas carícias mais quentes que o próprio sol. Tudo nele é luz. Os olhos parecem salpicados com o próprio pó das estrelas de tão brilhantes que são. Penso que o meu amor é um herói cósmico e envaideço-me com a beleza dele que me arrebata.
À noite dormimos a custo, sem nenhum dos dois querer fechar os olhos. Ficamos tão próximos a acariciarmo-nos, de olhos fixos e brilhantes um para o outro, com um sorriso de deslumbramento mútuo.
A paixão em estado puro é mais forte que dinamite. Tudo dentro de nós explode. Somos um rio desgovernado, lava vulcânica esparramada sobre a montanha, manteiga derretida na tosta quente. Somos fogo e água e é nessa vaga de delírio que a nossa espécie acasala e tem filhos. Não é nas quecas por pena controladas ou nas rapidinhas de alívio que os filhos nascem. Muito menos nas violações. Já não é assim. A vida só se gera quando um dos dois diz: “Hoje não vamos foder. Hoje vou fazer-te um filho” e o outro concorda.
É Setembro de 2006 e eu vou casar. O meu vestido de cetim branco veste-me a mim e a ela, à filha que se forma na minha barriga. Estou absolutamente radiante. Não caminho nas nuvens mas sou uma nuvem. Muito em baixo da minha felicidade redonda, as pessoas desejam-me votos e comentam a minha nova gordura. Estou acima de todos os comentários. Sou princesa por um dia, de tiara e vestido longo, sapatinhos maravilhosos forrados e plenos de pedraria.
É Maio de 2014 e eu sou uma mulher divorciada. A minha filha de sete anos corre desalmada à beira-mar. O seu corpo esguio e fino parece um raio de sol. Toda ela brilha e é luz e cor, manhã e vida. Meu firmamento. Olho-a envaidecida e a beleza dela arrebata-me. Tem o olhar dos sábios e o dom da palavra. Em meia dúzia de frases deixa-me estarrecida. Foi sempre assim. Lentamente, aproxima-se de mim e abraça-me. Estreito-a também e agradeço em silêncio o maravilhoso presente que ela foi, é e será.
domingo, 23 de maio de 2010
Terrível bebé...
Terrível Bebé: gosto das suas cartas, que são meiguinhas, e também gosto de si, que é meiguinha também. E é bombom, e é vespa, e é mel, que é das abelhas e não das vespas, e t...udo está certo e o Bebé deve escrever-me sempre, mesmo que eu não escreva, que é sempre, e eu estou triste, e sou maluco, e ninguém gosta de mim, e também porque é que havia de gostar, e isso mesmo, e tudo torna ao princípio, e parece-me que ainda lhe telefono hoje, e gostava de lhe dar um beijo na boca, com exactidão e gulodice e comer-lhe na boca os beijinhos que tivesse lá escondidos e encostar-me ao seu ombro e escorregar para a ternura dos pombinhos, e pedir-lhe desculpa ser a fingir, e tornar muitas vezes, e ponto final até recomeçar, e porque é que a Ofelinha gosta de um meliante e de um cevado e de um javardo e de um indivíduo com ventas de contador de gás e expressão geral de não estar ali mas na pia da casa ao lado, e exactamente, e enfim, e vou acabar porque estou doido, e estive sempre, e é de nascença, que é como quem diz desde que nasci, e eu gostava que a Bebé fosse uma boneca minha, e eu fazia como uma criança, despia-a, e o papel acaba aqui mesmo, e isto parece impossível ser escrito por um ser numano, mas é escrito por mim.
Carta de Fernando Pessoa (1888 - 1935) a Ofélia Queiróz
segunda-feira, 17 de maio de 2010
Gosto da malta do Surf
Uma vez disseram-me que era uma criatura feita de sal e espuma. E eu com uma bisnaga de cola escrevi “Adoro-te” num postal, despejei-lhe areia da praia em cima, virei o dito ao contrário e lá ficaram os devidos grãos colados à declaração afectiva em jeito de resposta. A mim pessoalmente colou-se-me a praia, que é o que mais gosto nesta vida.
Não há nada melhor do que passar o dia ao sol, entre banhos, a conversar com amigos divertidos. Ou a ler. Sempre amei ler na praia. Ou beijar e adormecer com os corpos quentes entrelaçados. Ou comer bolas de Berlim que só sabem bem quando o açúcar delas se mistura com o nosso sal. Ou fazer longas caminhadas pela areia molhada. Ou tirar fotos sempre soberbas em termos de luz. Ou apreciar o próprio som da praia, o som de fundo, aquele que um dia vi ser gravado por um japonês excêntrico, de “vassoura” na mão a recolher conversas e restolhar de ondas como se fossem conchas raras.
E depois há a malta do Surf. Gente bronzeada e atlética. Miúdos giros que vestem roupas coloridas, daquelas marcas que acham o máximo e às quais fazem culto em todas as estações. Gosto da aparência quase hippy de alguns, com os cabelos descolorados e em desalinho. Embora também aprecie os morenos mais sérios, de cabelo curto. Todos com o seu fato escuro de borracha justíssimo, que vestem e despem junto de carrinhas decrépitas com matrículas estrangeiras. Dependendo das praias, a própria paleta de surfistas é bastante variável. Mas são todos giros e jovens e querem montar ondas, cavalgar a prancha e fundir-se no mar.
Se são mesmo praticantes ou apenas curtem a onda, tanto faz. A aparência deles é o máximo. E os puristas são algo loucos. Tal como no Windsurf. Casam e baptizam os rebentos no meio das pranchas e depois perdem-se em trajectos cujas correntes julgam dominar…
É gente aventureira e destemida, sabem mais do mar do que da terra. Vão a campeonatos, fazem grandes amizades, vivem paixões efémeras e, por vezes, sofrem terríveis fatalidades…
O seu apelo é também esse, o da transgressão. Seja ao fato do escritório ou às formalidades do betão. Na praia, deixamos de ser citadinos e passamos a ser todos uma espécie de criaturas feitas de sal e espuma.
E agora que o Verão está a chegar vou rever pela enésima vez o meu Point Break e curtir este espírito indomável dos meus meninos preferidos.
sábado, 15 de maio de 2010
Por favor... morde-me o pescoço
Um dia destes apanhei um táxi com a minha mãe. Trata-se de uma senhora que para indicar uma rua nomeia todas as outras até lá chegar, à medida que indica o percurso pretendido. Vê-se que tem orgulho em conhecer bem a sua cidade. E eu disse-lhe:
- Oh, mãe não baralhe o senhor. Ele vai lá ter. A mãe gosta é de mostrar que sabe o nome das avenidas todas.
- E sei! Moro aqui há muitos anos e conheço tudo isto.
- E a menina não mora? – pergunta o curioso.
- Ah, a minha filha – começa ela, que como todas as mães gostam de responder por nós como se fossemos eternas crianças – morou aqui até aos 36 anos.
Um par de olhos atónitos fixa-me através do espelho retrovisor, enquanto uma paragem algo brusca nos faz estremecer. Era um sinal luminoso mas coincidiu com a surpresa sentida pelo condutor. Tal cena fez-me rir e disse:
- Agora a mãe pôs este senhor a pensar na minha idade.
- Mas é que é isso mesmo! Como é que a menina adivinhou?
- É que eu aparento ser muito mais nova do que sou – expliquei para o tranquilizar. – Na realidade já tenho uns aninhos em cima.
E depois pensei como era aborrecido ter de dizer sempre o mesmo às pessoas: não possuía cremes mágicos, não era dada ao desporto ao ar livre, fumava como se não houvesse um amanhã, vivia sem temer a decrepidez. E a pele lá estava radiosa como um alperce, embora pálida, os olhos inquietos da juventude, o cabelo louro e sedoso, o corpo esbelto e firme sem uma amostra da temível celulite.
A mulher-a-dias, então, espiava-me os produtos todos, na ânsia de encontrar fórmula igual. E eu a esforçar-me todos os dias para parecer normal, humana e quente, com uma mãe e uma criança minha, façanha altamente elogiada dentro da minha comunidade, pois era o mesmo que ter um leitãozinho à mão mas sem o poder nunca trincar.
Telepaticamente, repreendi a minha mãe:
- Agradeço-lhe que não se estique na conversa, caso contrário, terei de o hipnotizar para ele esquecer o que viu e ouviu. E, como sabe, isso exige um grande esforço e eu durmo mal há alguns dias.
Mas a mãe queria sangue. Muito mais ávida do que eu, partia sempre numa atitude de predadora. E antes que a pudesse impedir, escravizou-o num único olhar, daqueles com os quais brinda todos os que a desafiam, ou pura e simplesmente detesta.
O desgraçado encostou o carro num beco escuro e saiu abrindo-nos a porta do meu lado e esticando-se todo para a frente com a jugular a saltar num samba de vida:
- Por favor… morda-me o pescoço – pediu, estendendo-me a mão para me ajudar a sair do carro.
Antes que pudesse exercer algum controle no meu próprio espírito, aquela visão apanhou-me em cheio e os caninos dispararam como navalhas de ponta e mola.
- Vá, banqueteia-te primeiro mas deixa algum para a mamã – ouvi, entre risinhos trocistas.
E depois do snack lá fomos às compras como combinado.
quarta-feira, 12 de maio de 2010
sexta-feira, 7 de maio de 2010
terça-feira, 4 de maio de 2010
Estou com borbulhas...
No Dia da Mãe recebi um presente apreensivo: “Ah… apareceram-lhe estas borbulhas e, desta vez, deve ser mesmo varicela”, anunciou-me o avô da minha filha ao entregar-me a criança. O meu botão de pânico interior accionou-se de imediato. Passo seguinte, telefono à minha mãe: “Mais vale agora que mais tarde. Quando vocês eram miúdos não havia remédio nenhum. Dá-lhe paracetamol se tiver temperatura.”
Dou-lhe o quê? Às vezes, quase que me arrependo de ligar a esta senhora. Porque não me disse logo ben-u-ron? Envio uma mensagem a marcar uma consulta de urgência com o médico guru da Constança que já a salvou de toda a espécie de maleita. Nunca me hei-de esquecer do brilharete dele frente ao diabólico eczema quando ela tinha apenas dois meses e meio. Para mim, ele é uma espécie de divindade e eu sigo à letra todos aqueles gatafunhos que me dá, depois de os pespegar no meu frigorífico.
No dia seguinte, lá vamos nós à consulta. Confirmada a varicela, receita-me Zovirax, um gel de banho e uma loção para aplicar após o banho em cada borbulha que encontrar… “E já agora, doutor, uma amiga sugeriu-me banhos com farinha Maizena.” “Também lhe ia falar disso, em caso de grandes coceiras.” E com aquela lanterna dele, aponta-me o céu-da-boca da criança: “Já tem dentro da boca, está a ver?”. E eu vi, embora estivesse ainda a meditar na aplicação individual da loção em cada ponto vermelho quando toda ela estava pior do que uma tela de Seurat.
Uma semana de clausura foi o prognóstico final. Saímos abaladas mas confiantes. Para a Constança é sempre uma vitória desde que ele não lhe ponha o pau na boca. E eu expliquei-lhe pelo caminho que a guerra às borbulhas ia começar e tínhamos fortes hipóteses de as vencer com as nossas novas armas.
É claro que torceu o nariz quando percebeu que os banhos dela iam deixar de ser coloridos. Literalmente. Habituada a banhos azuis ou cor-de-rosa – umas pastilhas efervescentes giríssimas que descobri à venda no LIDL – refilou com a água pardacenta da Maizena. Mas perante uma cana de pesca e os respectivos polvos, peixes e estrelas-do-mar voltou a sorrir e a mergulhar alegremente.
No momento da loção… espalhei-a pelo corpo todo. Acho que não tenho a pachorra da gata borralheira a apanhar as lentilhas do chão. Há tarefas que nem a melhor das mães pode executar com um sorriso benévolo.
De lá para cá, temos pintado, brincado com plasticina e argila, empilhado cubos de madeira, praticamos na bateria novos sons, vestimos e despimos os 300 bebés que ela tem, revemos os clássicos Disney e partilhamos a loção, uma vez que ela acha que eu também devo ter borbulhas e ficar com aquele aspecto menos airoso de pão enfarinhado.
A única cena mais dramática foi quando deparou com uma fotografia minha ao lado do Ricky Martin. Fez uma cena de ciúmes e desatou num pranto inconsolável: “A mamã está com um senhor e eu não gosto!”. Nem sei bem como é que ela me identificou, dado que estava na minha versão ruiva. Mas para o bem da minha sanidade mental, a moldura recolheu a uma gaveta próxima. Aos três anos, a pequena leoa, já mostra a sua garra…
quarta-feira, 28 de abril de 2010
My sweet yellow rose...
Look at the stars,
Look how they shine for you,
And everything you do,
Yeah they were all yellow,
I came along
I wrote a song for you
And all the things you do
And it was called yellow
So then I took my turn
Oh all the things I've done
And it was all yellow
Your skin
Oh yeah your skin and bones
Turn into something beautiful
D'you know you know I love you so
You know I love you so
I swam across
I jumped across for you
Oh all the things you do
Cause you were all yellow
I drew a line
I drew a line for you
Oh what a thing to do
And it was all yellow
Your skin
Oh yeah your skin and bones
Turn into something beautiful
D'you know for you i bleed myself dry
For you i bleed myself dry
Its true look how they shine for you
look how they shine for you
look how they shine for you
look how they shine for you
look how they shine for you
look how they shine
look at the stars look how they shine for you
terça-feira, 27 de abril de 2010
Oração
Obrigada Senhor por ser fisicamente bela e saudável, obrigada Senhor por ser intelectualmente dotada, obrigada Senhor por ser profissionalmente livre, obrigada Senhor, muito obrigada :-))))
A piada da !HOLA!
Há muitos anos que a !HOLA! – não consigo inverter o primeiro ponto de exclamação – é uma das minhas publicações preferidas. O meu pai comprava-a regularmente e, mesmo que eu não a compre todas as semanas, actualizo-me cada vez que vou ao cabeleireiro. Lembro-me que um dos meus professores universitários dizia que a tia dele era fã da publicação espanhola e que o maior entretenimento dela era recortar os vestidos das senhoras… Em termos de corte e costura, sou sincera, prefiro mil vezes a VOGUE que nuestros hermanos editam com o mais apurado sentido estético.
Mas voltando à !HOLA! e, mais precisamente, ao número 3.430 de 28 de Abril 2010: temos na capa a bela dançarina de Flamenco, Cecilia Gomez, que numa entrevista exclusiva declara o motivo pelo qual acabou o seu noivado com Francisco Rivera. Para quem não sabe, Fran Rivera – como ele é mais conhecido – pertence a uma família de toureiros e é um dos melhores da sua geração. Para os espanhóis, os toureiros são como os actores de Hollywood: no sentido em que são tão famosos e acarinhados quanto estes. Mas também são uma espécie de realeza, dado que o bichinho da tauromaquia passa de geração em geração, quase como se fossem ungidos por Deus para tourearem assim que nascem. O jovem de 36 anos em questão é de uma beleza arrebatadora, herdada dos genes da mãe Carmina Ordóñéz.
Na mesma capa, a !HOLA! orgulha-se da sua reportagem, de facto, excepcional em termos de conteúdo e imagem, com Eugenia Martinez de Irujo, a qual declara estar sem compromisso, só e feliz. Ora bem, para quem não sabe, Eugenia é a filha mais nova e favorita da fabulosa Duquesa de Alba e é, por sua vez, duquesa de Montoro. Mas o mais interessante e menos inocente é que Eugenia é também a ex-mulher de Fran Rivera. O casamento de ambos realizou-se em Sevilha, a 23 de Outubro de 1998. Tal evento fez História porque foi a primeira vez que um toureiro se casou com um membro da mais pura aristocracia – lembram-se de Goya e da Duquesa de Alba? A família Alba tem toda uma saga espectacular e as duquesas sempre deram muito que falar por serem ousadas, livres, tradicionalistas e irreverentes, ou seja, cocktails explosivos de duas pernas lindas e bem torneadas.
Volvido um ano nasce a única filha do casal, Cayetana e, em Março de 2002, divorciam-se por mútuo acordo.
Durante a entrevista, tanto a Cecilia como a Eugenia, a !HOLA! questiona-as do que acham do facto de a Duquesa de Alba – mãe de Eugenia – ter a certeza de que a filha e o toureiro, mais cedo ou mais tarde, irão voltar para os braços um do outro. Independentemente das respostas das senhoras, o que está em causa é a piada como a !HOLA! faz a coisa. No mesmo número e, despreocupadamente, em títulos de capa: “Não há reconciliação. Francisco é um capítulo encerrado na minha vida”, declara a bailarina e, com um ar de gata ronronante, vem a duquesa de Montoro confessar a sua feliz solidão… Mas há mais. Porque a !HOLA! não dá ponto sem nó. Na página 52, temos o próprio Fran Rivera, armado em Homem-Aranha, a trepar um tubo da arena porque viera treinar mas esquecera-se das chaves. Tudo muito bem fotografado e a provar a excelente forma física do rapaz e alguma loucura, digo eu.
E temos ainda uma entrevista curta à própria duquesa de Alba para saber o que pensa a mesma sobre a série que a televisão espanhola exibe sobre a sua vida. E aqui percebemos porque a amamos de coração! Diz a duquesa de 84 anos: “Casei-me em Sevilha e não em Liria e não fui em nenhum Rolls mas numa carruagem puxada por mulas!”. Também não gostou de algum do vestuário e acessórios de roupa de época e frisou: “Isso era do século XIX e eu não sou assim tão antiga!”. Claro que quando a quiseram massacrar com o namorado muito mais novo, cortou-lhes as voltas: “Essa questão é minha. Não têm que saber da minha vida pessoal.” “Mas está tudo bem com o Afonso?”, insistiram. “No digo nada!”. Fabuloso. E, porque só a !HOLA! pode dar-se ao luxo de oferecer cães a duquesas, quando questionada sobre o presente, Cayetana respondeu: “El perrito me encanta.”
E a mim também me encanta que haja uma revista dita de coração mas com a classe e as entrelinhas da !HOLA! , um autêntico prazer de leitura colorida.
segunda-feira, 26 de abril de 2010
Há dois anos...
I watched you suffer a dull aching pain ...
Mas sabes, papá...
Wild horses couldn't drag me away
Wild, wild horses, couldn't drag me away
I know I dreamed a sin and a lie
I have my freedom, but I don't have much time
Faith has been broken, tears must be cried
Let's do some living after love dies
Wild horses couldn't drag me away
Wild, wild horses, we'll ride them some day
Mas sabes, papá...
Wild horses couldn't drag me away
Wild, wild horses, couldn't drag me away
I know I dreamed a sin and a lie
I have my freedom, but I don't have much time
Faith has been broken, tears must be cried
Let's do some living after love dies
Wild horses couldn't drag me away
Wild, wild horses, we'll ride them some day
domingo, 18 de abril de 2010
quarta-feira, 24 de março de 2010
A arte de regatear
Uma das minhas melhores amigas tem a casa recheada de obras de arte. As pessoas pasmam perante os óleos e as esculturas, os tapetes e as cerâmicas. Ela deixa-nos suspirar, esmagados pela beleza das peças e, se alguém a questiona sobre preços, arrepende-se logo de seguida, tal é a soma exorbitante que recebe em resposta. Mas eu sei que ela não nada em dinheiro e não assalta bancos nas horas vagas. Por isso, um dia, instigada pelo seu ar de caçadora embevecida junto aos troféus, decidi arrancar-lhe o segredo do sucesso:
- Esta deusa é um espanto! – disse, aproximando-me da imagem doirada. – É a tal grega, não é?
- Oh, sim! Comprei-a há séculos. Ainda em dólares…
- Hum… Tens um talento natural para te rodeares de objectos bonitos. E todos eles devem ter uma história.
- Se têm – admitiu, com um sorrisinho.
- Não me queres contar? Aposto que são recordações divertidíssimas.
- Eu conto-te, mas numa condição: ficas de bico calado e não dizes a ninguém.
- De acordo! – anui, radiante.
- A verdade é que tudo isto – declara, apontando em seu redor – foi muito negociado. Eu adoro regatear. Para começar, quando me pedem um preço desço logo para a metade. Comecei a praticar nos mercados árabes e ganhei-lhe o jeito.
- Interessante. Mas recordo-me de teres dito que a deusa veio de uma galeria de arte em Atenas…
- É um facto. Ia com o Eduardo e com cem dólares na carteira. Estávamos quase de saída da Grécia quando a vi, a chamar por mim, belíssima, numa montra. Entrámos e falei com a mulher, em inglês, claro, elogiando a peça e pedindo o valor. Já nem me lembro quanto é que ela disse que era. Mas fiz-me explicar: ofereço cem dólares, que é tudo o que possuo e sem mais delongas porque tenho um avião para apanhar.
- Assim tão simples?
- Qual quê?! A mulher desatou numa berraria, a dizer que se sentia ofendidíssima, que aquilo era uma loja séria e que os preços estavam marcados. Quando começou a disparatar em grego, o Eduardo começou a dar-me discretos puxões e a falar por entre os dentes: “Vamos embora daqui, deixa lá isso!” Enfim, sabes como são os maridos…
- Pois – concordei, com ar entediado. – Mas tu o que fizeste?
- Simples: sem pestanejar perguntei-lhe se ela era a dona da loja. Disse que não. Então pedi-lhe que ligasse para o patrão e que dissesse que estava ali uma senhora a oferecer 100 dólares pela estátua da deusa doirada. E, ouvi-a a falar em grego e a gritar na mesma, toda corada do esforço e da indignação. Desligado o telefone, diz-me que o patrão ficou em estado de choque mas sugere uma venda mínima de 120 dólares.
- Só mais vinte! Boa! Claro que compraste…
Mas a minha amiga ri e conclui:
- Não desarmei dos 100 dólares. Voltei à carga e, desta vez, mostrei-lhe o dinheiro. É muito importante o efeito das notas sobre o balcão. Quem vê o papel já não o larga e este é o truque. Claro que, se ela tivesse dado mais luta, ter-me-ia virado para o Eduardo e pedido os 20 que faltavam. Mas, na realidade, só tinha os 100 comigo e acabei por trazer a escultura por esse preço.
- Genial! – admiti. – Foste implacável.
- Aprendi com uma amiga minha – confidenciou. – Bem mais terrível do que eu: ela desce logo para um terço do valor exigido. E consegue! Mas, penso que a metade é mais razoável. E, agora, passas a fazer o mesmo mas não dizes a ninguém que fui eu que te ensinei. E nunca revelas o verdadeiro valor pelo qual adquiriste as peças: atiras sempre um valor mais alto. As pessoas são assim: só apreciam o caro e desdenham o barato. Se é barato não presta. Já se sabe.
- Aquele óleo que trouxeste de Cuba deve ter sido uma pechincha, então…
- Sim, ofereci metade do que o pintor queria e, depois de saber o salário mínimo nacional, até acho que lhe dei demais, se queres saber.
- E já tentaste fazer o mesmo cá? Em galerias?
- Penso que, no nosso país, existe uma certa roubalheira institucionalizada. Os preços dos artistas são elevadíssimos. Apaixonei-me, em tempos, por uma menina em mármore. Claro que choquei o galerista mas ofereci-lhe metade do valor pela peça. Não ma vendeu. No entanto, volvidos dois anos, a escultura ainda lá está, a acenar-me da montra. Eu é que lhe perdi o interesse.
- Obrigada por teres confiado em mim. Irei seguir o teu exemplo.
E saí de casa da Alice directinha a uma loja de molduras que conhecia e que também vendia umas telas que me tinham ficado debaixo de olho. Durante um mês insisti com o fulano e deixei o meu contacto. Um dia, telefonou-me. O pintor brasileiro concordara com o meu preço e, hoje, a Praia da Conceição ilumina a minha sala.
Sacrificar a vida por uma noite de amor
Mónica entrou em casa e tentou disfarçar a ansiedade. Fê-lo enquanto cortava os legumes, confeccionava a mais fresca das sopas e grelhava bifes de peito de frango. Depois, continuou a fazê-lo na preparação do banho de espuma das crianças. Com infinita paciência e doçura leu-lhes um par de histórias e meteu-os na cama. Quando os sentiu a dormir disse para o marido:
- Se não te importas, a Joana não anda nada bem. Está a atravessar um momento difícil, com a doença e tal. Gostaria de passar o serão em casa dela. E, se calhar, até durmo lá. O que achas? Ficavas aborrecido? Já tens o jantar feito – acrescentou, como a dona de casa cumpridora que a mãe dela a educara a ser.
- Mas vais sair a estas horas? São dez da noite…
- Eu nunca saio. E estás sempre a dizer que não convivo com os meus amigos. Aliás, já chegaste a dizer que não tinha amigos, para além do porteiro e da mulher do café. Por isso, se faz favor, sê razoável e deixa-me sair.
- Está bem. Não me importo. Vai lá.
- Muito obrigada – respondeu com alguma ironia, enquanto apanhava a mala e as chaves do carro.
- Se precisares de alguma coisa diz. Vou ter o telemóvel sempre ligado.
- Não te preocupes – disse ainda, antes de bater a porta.
A viagem seria longa. Teria muito tempo para pensar no que dizer quando se vissem pela primeira vez. Já lhe conhecia o rosto belo e sedutor das fotografias, a voz dos inúmeros telefonemas trocados mas era o primeiro encontro físico e a excitação fazia-lhe tremer as pernas.
Conduzia a grande velocidade, como se os quilómetros fossem inimigos a abater. Afinal, entrepunham-se, e de que maneira, entre ela e aquela paixão nortenha. À medida que a capital ia ficando para trás, também os temores de Mónica se desmoronavam. Ia tudo correr bem, o telemóvel guardava um silêncio de ouro e, se por acaso, o marido lhe telefonasse iria ignorá-lo sem remorsos.
Existe quase uma espécie de loucura nos amantes, como se nada mais no mundo importasse para além deles próprios. Uma vertigem perigosa, que rouba o sono e o apetite e convida a que se cometam excessos. Como aquela viagem secreta, debaixo do escuro da noite. Tanta estrada para engolir só para ver o amor. E ter de voltar no dia seguinte, tão serena como a água de um lago, como se nada de excitante tivesse acontecido, como se não tivesse vivido a mais fogosa noite de amor.
Recordava-se da primeira troca de mensagens e da timidez. Aos poucos, as confidências foram alicerçando uma ponte: havia montanhas de coisas em comum. Julgara mesmo ter encontrado a famosa alma gémea, aquela que procuramos uma vida inteira sem, muitas vezes, encontrarmos sequer a sombra dela. Começou a sentir-se invulgarmente forte e decidida, preparada para enfrentar o tédio, abanar a rotina e partir para outra. Queria explorar e ter certezas. A distância não é favorável ao romance. Quando se ama exige-se o toque físico. A união das almas é amor de outros séculos, fascinante, porém, insuficiente.
Ao pensar assim, agarrava o volante com mais força. O pé continuava a pesar no acelerador. Queria chegar. Essencialmente, só queria chegar. Há dias que planeava a viagem. Congeminara vários pretextos, até que lhe ocorreu a ideia de visitar a Joana, uma amiga dos tempos de solteira com a qual o marido antipatizava. Pareceu-lhe um álibi perfeito. Não que o marido fosse má pessoa. Mas talvez não fosse a certa para ela. Sentia-se cada vez mais distante dele. Tantos anos casada e sem filhos. E, depois, logo dois de enfiada. Mais por pressão familiar que, de ambos os lados, exigiam netos. Vieram os miúdos. Missão cumprida. Agora era mulher e mãe mas continuava a sentir-se incompleta. Talvez tudo mudasse nessa noite.
Quando, por fim, chegou cedeu à emoção. Mentalmente pensou: “É igual à fotografia.” E respirou, aliviada. Viveu um êxtase incrível e deu por ganha a sua tremenda façanha. Abençoou cada minuto e despediu-se muito a custo. Estava apaixonada. Mais do que isso: enlouqueceria se alguém se intrometesse entre ela e o amor recém-descoberto.
Dias mais tarde, o marido interpelou-a, com um ar furioso e uma multa de trânsito na mão:
- Queres me explicar como é que neste dia o nosso carro foi multado por excesso de velocidade numa portagem, a não sei quantos quilómetros daqui? Não devias ter estado em casa da Joana?
O romance morrera. Não tivera mais continuidade. Terminara nessa mesma noite. Como se o sexo consumado tivesse apagado a chama. E, agora, o marido exigia-lhe a verdade da mentira. Os filhos suspenderam a brincadeira, chocados pela agressividade que azedava o ar e alterava o tom da voz do pai.
Recorda-me como uma rosa
Já te tive tarde, minha filha. Tive-te quando menos esperava. Não que não quisesse que não acontecesse, muito antes pelo contrário. Sempre te desejei mas já tinha perdido a esperança de ser mãe. É claro que houve uma série de candidatos a pai, contudo nenhum me pareceu o ideal. A vida também se me atropelava com as suas exigências profissionais e sociais. Por fim, tudo se conjugou: o tempo certo, a maturidade interior, a paixão necessária para a grande aventura. Conheço de cor a tarde em que te fiz: fiquei de pernas para o ar, imenso tempo, numa ingenuidade risonha a pensar que tinha de te segurar. Semente fica em mim, roguei aos céus. Assemelhando-me à mãe da Branca de Neve pedia o mesmo: “Quero ter uma filha com a pele tão branca como a neve, com os lábios tão vermelhos como o meu sangue e o cabelo tão preto como a madeira de ébano.” E quando o teste de gravidez imprimiu o desfile das riscas corri para o teu pai que ainda dormia e anunciei-lhe eufórica: “Amor, estou grávida!” Ele abraçou-me e declarou com o seu sentido de humor deveras peculiar: “Este momento seria perfeito senão fosse o teu mau hálito.” Fiz um sorriso amarelo que logo se desvaneceu com muitos beijos e carinhos.
Enquanto ficaste na minha barriga lembrava-me bem que estava grávida. Os enjoos, a simpatia das pessoas em geral, a prioridade nas caixas do supermercado. Confesso que odiei toda a indumentária de grávida e a penosa transformação do meu corpo. Estava sempre cheia de calor e a desejar que nascesses depressa antes de me transformar irremediavelmente num balão. Devo ter feito chegar a mensagem a ti, uma vez que vieste prematura mas de boa saúde. Eras o bebé mais pequenino de todos e eu comecei a despedir-me de ti com muito custo, pois sabia que em dias, semanas, parecerias outro bebé e daquela miniatura rosada ficaria apenas uma ténue memória.
Para invocar esses primeiros dias guardo as tuas roupinhas de prematura, tão mínimas que me custa imaginar que foram vestidas por ti e te ficaram largas… E quando tas mostro e corres com elas nas mãos para as vestires às tuas bonecas penso na felicidade suprema que é ter-te, tão linda e feliz, um milagre com duas pernas, o meu milagre de vida.
Tem sido uma experiência maravilhosa ver-te crescer. Ao princípio, demorou algum tempo a mentalizar-me de que era mãe. Quando me começaste a chamar mamã ficava algo incrédula. De facto, era-o, a prova viva berrava essa evidência a plenos pulmões mas em mim, a noção de o ser, ainda não estava interiorizada. Um bebé é uma grande ocupação. Um trabalho acrescentado que não pode ter falhas. Havia muita exigência à tua volta: de banhos, fraldas, biberões esterilizados, SOS colo 24 horas por dia ao seu dispor… E no meio daquele frenesim eu era a mãe e a responsabilidade não me deixava dormir.
Não sei quando é que tudo amainou. Um dia, passaste a dormir mais e a chorar menos. A querer subir e andar. Já querias segurar na colher e falar. E esse foi, justamente, o dom que todos te elogiaram quando entraste aos dois anos no colégio: o da fala. Perto das outras crianças, que pouco ou nada diziam, tu tagarelavas incansável, exibindo os teus conhecimentos com a mesma fanfarronice herdada do teu pai.
E como floresceste no colégio! As primeiras idas ao teatro, as visitas de estudo pedagógicas aos museus, jardins e quintas, as tardes giríssimas da Summer School passadas entre a piscina e o barro modelado em mil formas divertidas, o ballet, as aulas de música, as sucessivas festas de aniversário de chapeuzinhos, apitos e sacos de surpresas. E tu a fazeres os teus primeiros amigos, a contares-me do teu herói com quem querias dançar, sempre romântica e doce como uma princesa da Disney.
A memória de uma mãe é a melhor base de dados do mundo. Nunca esquecemos as vossas primeiras palavras, graças, medos, sustos, gostos, aptidões, birras, fugas, etc. Tudo devidamente catalogado e arquivado no nosso cérebro. Quando falamos dos nossos filhos entre amigas, independentemente de eles ainda serem crianças, adolescentes ou adultos fazemos uma regressão detalhada que nos surpreende e diverte. No fundo, sejamos nós o que formos em termos profissionais, somos mães, e nada orgulha mais uma mãe do que narrar episódios da prole, ainda que esta se esconda envergonhada por ser o centro das atenções e nos recrimine, mais tarde, por termos sido tão indiscretas.
Como ainda estás a crescer sinto que não te posso faltar. Às vezes, quando conduzo receio uma fatalidade que me prive de ti. Faço os possíveis para não adoecer nem participar em acções arriscadas. Não perco nada por ser mais cuidadosa, seja ao atravessar a rua, seja ao trancar a porta de casa a sete chaves. Mas faço-o por ti. Graças à tua existência tornei-me uma protectora feroz. Sei bem que a vida é um mistério e nada se domina perante o acaso dos dias. Mas estou alerta. E gostava, como te tive tão tarde, que um dia quando fosses adulta não visses apenas o meu rosto envelhecido. Se for possível, meu amor pequenino, se puderes recuar no tempo e ouvir-me a embalar-te ou a contar-te as mais belas histórias para adormeceres, se conseguires visualizar o meu rosto de então, rogo-te, por tudo o que passei para que fosses feliz, recorda-me como uma rosa…
domingo, 28 de fevereiro de 2010
A posse, a disfuncionalidade e o azar
Maria tinha uma filha de quatro anos que amava apaixonadamente. Estava separada do pai da filha, um homem disfuncional a toda a prova. É muito triste conhecer um ser disfuncional. A palavra é deveras técnica. As pessoas normais apelidam-nos de loucos e falam da loucura mas os técnicos de saúde não aprovam a expressão e, daí, o termo disfuncional: uma pessoa que não funciona como as outras, que tem algo no seu mecanismo interior com falhas graves. Pode aparentar uma certa normalidade e, até, orgulhar-se dessa dissimulação mas quando o clique se dá destrambelha de todo. O que provoca o processo é um mistério da mente. Por isso, essas pessoas são confinadas a um espaço e estudadas para não agredirem as demais. Mas a grande maioria anda à solta e todos nós podemos ter o azar de as encontrarmos ou, pior, de nos apaixonarmos por elas.
Maria nunca conhecera outro homem para além do pai da filha. A violência e a instabilidade levaram-nos à separação. Maria arranjou um novo companheiro que a seduziu como continuaria a seduzir outras. E um dia, Maria perdeu a filha. Procurou-a debaixo de cada pedra e regato, enlouqueceu numa busca frenética e inútil. O corpo da criança apareceria sem vida, os pequenos pulmões cheios de água.
Todos os anos, dezenas de crianças morrem afogadas. É uma das principais causas de morte infantil. As crianças gostam de brincar e não têm, ao contrário dos adultos, noção de perigo.
O mundo de Maria desabou com a morte da filha. Enquanto a procurara sentira-se só. Telefonara para aqueles que a poderiam ter ajudado mas ninguém a atendera. No preciso momento, em que Maria corria e chamava pela filha, o companheiro dela partilhava droga e sexo com uma outra qualquer mulher que seduzira, tendo por isso ignorado a chamada no seu telemóvel.
Quando lhe disseram que já não tinha filha e Maria somou a ausência do namorado confrontou-o e expulsou-o de casa. Disse-lhe que estava farta de tratar dos outros e que, de ora em diante, passaria apenas a cuidar dela própria. Os homens são muito egoístas. Só pensam neles. E neles.
O pai da miúda estava proibido pelos tribunais de se aproximar de Maria. Mesmo assim fê-lo. Da primeira vez, para a culpar do acidente que vitimara a filha de ambos. Da segunda vez, para a assassinar com uma caçadeira e matar-se a ele próprio de seguida. E as últimas frases proferidas entre ambos foram: “Eu pari a nossa criança, seu monstro” e “Não, tu mataste-a. Ela morreu por tua causa.”
O azar de Maria não tem princípio nem fim: desde a escolha dos homens, à morte acidental da filha e ao seu próprio assassinato às mãos do ex-marido. A Maria teve mesmo muito azar. E quantos Marias não há por aí?...
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