quinta-feira, 26 de julho de 2007

Romance no Parque


Levar a bebé às vacinas é algo que tem sido relativamente rápido e engraçado. Parece que às quartas-feiras é o melhor dia para esta pequena tortura. Claro que no momento em que é picada, a bebé chora e grita desalmadamente, enquanto lhe seguro as pernocas e as enfermeiras cumprem o boletim. Porém, antes do suplício, a bebé adora ver outros bebés que constituem novidade para ela. Sim, porque há aqueles que vão para as amas ou têm primos próximos, irmãos, sei lá. A minha é um caso isolado. Vive com dois adultos e, até agora – apesar de já ter travado conhecimento – tem escapado ao Gaspar, o nosso gato, temporariamente – há séculos… – a viver com os meus sogros.
Desta vez, enquanto aguardávamos que nos chamassem, uma senhora brasileira mais a bebé dela sentaram-se perto de nós. Entre as duas fizeram logo uma grande festa de guinchos, olhares curiosos trocados e babas simultâneas. Ambas com cinco meses pareciam maravilhadas uma com a outra. A Gabriela – assim se chamava a outra bebé – tinha o cabelo num repuxo e era maior. Também a mãe dela me superava em excesso de peso. Confesso que até fiquei com pena dela. Passo a vida a lamentar-me mas há mães que devem sofrer muito mais do que eu quando se vêem ao espelho. Quando me levantei para entrar com a bebé ela lançou-me aquele olhar triste que eu lanço às magrinhas… Como eu a percebo.
Nesse campo, tenho razões para estar mais feliz. Medida e pesada pelo Bloco de Leste obteve-se um resultado satisfatório: menos 27 centímetros – distribuídos por várias partes do corpo – e cerca de 3,5 quilos. Acho que podia ter perdido mais peso mas elas dizem que é melhor emagrecer gradualmente. Mesmo assim, num mês, é uma miséria… Já os centímetros, fizeram-me sentir bem. Sinto que, de facto, estou menos volumosa e determinadíssima a perder mais peso no próximo mês.
Hoje, inspirada pelas boas notícias, resolvi dar uma longa passeata com a bebé. Enfio-a no canguru e, lá vamos nós, a pé pelas ruas mais calminhas. Sempre que um carro passa, a bebé assusta-se e encolhe-se um bocado. Daí, que evite as mais movimentadas. Tranquilas, passeamos junto a moradias lindíssimas, nas quais os jardineiros aparam a relva ou os cães dormem ou fingem dormir. Muitos portões abertos, outros fechados, dão para espreitar para o interior e nos encantarmos com a magnificência da casa ou nos entristecermos com o abandono e ruína de outras.
Não demoramos muito tempo a chegar ao Parque Marechal Carmona. Apesar de mínima, a bebé já adora ver patos e outras crianças brincarem. Sempre que alguém passa por ela e lhe faz elogios, toda ela se derrete em sorrisinhos… Depois de algum tempo junto ao lago, prosseguimos e sento-me num banco à sombra com vista para um relvado onde alguns miúdos jogam à bola. Aqui, suspiro de alívio, enquanto a tiro do canguru e a cubro de beijocas. Não pelo peso porque ela ainda não tem sete quilos mas por ela ser uma menina e as meninas não jogarem à bola.
Estava eu nestas delícias de a beijar, levantar, sentar nos joelhos, pernas e, essas acrobacias todas, quando se aproxima um menino giríssimo, cabelo loiro palha e um par de olhos azuis de fazer parar o trânsito. Dois anos, calculei, se tanto. Parou encantado a olhar para a bebé que lhe sorriu de imediato. A mãe dele, uma inglesa muito simpática apareceu logo atrás: “She’s so cute, isn’t she?”, diz-lhe, enquanto ele se aproxima cada vez mais, verdadeiramente seduzido. Lá partem com um bye-bye e um adeuz.
Quando decidimos sair do parque – a fome do biberão das cinco e meia – voltámos a passar pela dupla britânica. Mas o miúdo já só me viu de costas e eu ouvi a mãe dele dizer: “Look, the pretty baby is going too.” E ele: “Where?” E a mãe: “She’s behind her mother.” Então, ele tenta alcançar-me para a ver uma last time. E, como sou uma romântica tonta, paro o passo e viro-a para ele. Mais uns olhares e uns sorrisos e deixámos o David completamente knokcout. Ai, esta bebé… Vai destroçar corações…

segunda-feira, 23 de julho de 2007

Fogo de artifício


O andar ao lado do nosso está em obras há séculos. Antes de as ditas começarem vivíamos tranquilos, em grande serenidade, num piso quase despovoado. Mas estes fulanos do A resolveram estragar tudo. Literalmente tudo: paredes deitadas abaixo, chão de mármore substituído, etc. O barulho ensurdecedor das marteladas e das máquinas é de ensandecer qualquer um… quanto mais uma pequena bebé. Ainda em camisa de noite, toda desgrenhada e de nariz empinado, deu-me uma daquelas raivas que me cegam momentaneamente e dirigi-me à maldita porta: “Os senhores não sabem que eu tenho uma bebé de meses e que não podem estar a fazer esta barulheira?”. E o chefe de obras com aquele descaramento típico deles, a simular um ar de cordeirinho inocente quando há segundos atrás martelava que nem um possesso: “Pois… Tem razão.” “Eu sei que tenho razão”, ripostei sem piedade: “Mas o que tencionam fazer?”. “Olhe, ainda bem que apareceu porque nós estávamos mesmo para lhe ir bater à porta.” “Claro… sim… e os elefantes têm asas, o Pai Natal existe e as galinhas têm dentes sem placa bacteriana”, pensei, furiosa. E ele continuou: “Diga-nos quando pudermos avançar. Assim, se soubermos que a bebé está a dormir… esperamos.”
Cocei a cabeça danada. Aquilo não era solução. A bebé dorme várias vezes ao dia e em momentos imprevisíveis. Decidi avançar com a única opção viável: “Fazemos assim: vou pôr a bebé em casa dos meus sogros e, vocês, até ao final desta semana partem o que têm a partir e tal mas para a próxima já estão mais calminhos.” “Isso era óptimo! Nós esperamos que a bebé saia e depois impulsionamos isto tudo e para a semana é como se já nem tivéssemos cá!”.
Voltei para casa, lavei a bebé e massajei-a com os cremes especiais – é o momento SPA da bebé – e depois da sopa e do frango triturado e da papa de fruta, lá seguimos para casa do meu sogro. Como seria de esperar, os avós paternos ficaram radiantes de ver a princesa e, com a história das obras, até pernoitou lá duas ou três noites. Eu ia visitá-la, claro, mais o pai dela. Mas, curiosamente, sentia-me isso mesmo: uma visita da minha própria bebé e não a mãe dela. Isto porque os meus sogros são super possessivos com a neta. Mesmo entre eles disputam a atenção da garota. Porém, existem campos bem delineados: é a minha sogra que lhe faz a comida, a alimenta, troca as fraldas e põe o creme. Por seu lado, o meu sogro pavoneia-a ao colo o tempo inteiro, brinca com ela, leva-a a passear e mostra-lhe tudo e mais alguma coisa, fazendo-lhe todas as vontades reais e imaginárias: “O que queres bebé? Estás farta de estar aqui? Então, vamos dar o nosso passeio. Olha, já viste o fato que o avô te comprou? Pareces uma atleta. Agora é que vamos dar uma volta e só aparecemos quando tivermos fome, não é?”. E desaparece do nosso ângulo de visão…
“Venham ver a bebé a pôr o creme nas pernas”, anuncia a minha sogra como se fosse um espectáculo inédito em nossa casa. Ela gosta assim, ela gosta assado, ela não gosta disto e adora aquilo, etc. Somos informados pelos avós do que devemos e não devemos fazer à nossa cria… Confesso que, uma vez que tenho todo o tempo do mundo com a bebé em casa, até gosto de a ver nas mãos de outros familiares que tão bem cuidam dela mas os meus sogros exageram… Só vejo a bebé de relance a passar de colo em colo. Até o pai dela quando a tinha há segundos nos braços sofreu um voo a pique do pai dele que, peremptório, lhe arrancou a bebé com um “não a estás a segurar bem, ela gosta é de estar assim” e, deu meia volta, sumindo-se com a neta pelo corredor decorado com mil e uma fotos da bebé.
Sem a bebé em casa, as obras avançaram. Eu pisgava-me para o ginásio e a desgraçada da Nice – saudosa da sua bebé – esforçava-se por limpar a casa, maldizendo os trolhas que não só a importunavam como lhe tinham afastado a doçura dos braços. Desconfio que passa mais tempo a mimar a bebé do que a limpar a casa mas… o que hei-de fazer? Pelo menos sempre tenho o meu tempo para ir tratar do corpo e isso vale tudo.
A bebé regressou e, quando a nova semana arranca, o barulho atenua-se mas … persiste. “Ah… Temos de fazer umas modificações. As paredes da cozinha ficaram tortas.” E vai de martelar de mansinho de manhã e meio selvagem à tarde. Como não posso executar os homens das obras contenho-me e espaireço, saindo de casa e passeando a bebé no canguru. Mas, mentalmente, parece que transporto aquele martelar na cabeça.
Uma destas noites – algo que acontece imenso por esta terra – rebenta-me um aparatoso fogo de artifício. “Olha que giro! Anda ver”, exclama o pai da bebé, que logo se posiciona na varanda, acendendo um cigarro. Mas eu, saturada de marteladas ensurdecedoras durante o dia, chego à loucura com estes foguetes pirotécnicos que abomino desde sempre. “Quero lá saber da ascensão dessas trampas explosivas! Odeio essas cenas populares! Bimbos!”, grito fora de mim. O pai da bebé olha-me desnorteado e, claro, aproveita logo para fazer campanha: “ Ai, se as pessoas soubessem o que eu sofro nas tuas mãos… ”. Homens… têm de ser sempre o centro do universo.

sexta-feira, 20 de julho de 2007

Chuchar no polegar

Admira-me que aos cinco meses, a bebé tenha escolhido justamente o seu pequeno polegar para o chuchar alegremente. Na verdade, começou por pôr a mão toda dentro da boca, ou dois e três dedos de cada vez. A dada altura, até provocou vómitos a ela própria, segundo o meu sogro, sempre atento a estas pequenas evoluções. Mas depois do que imagino ter sido um casting natural, a bebé acabou por optar pelo polegarzinho. Talvez por isso o nome da personagem e da história que tanto encanta as crianças. É curioso mas nunca tinha feito essa associação… Enfim, a verdade é que a bebé ama o polegar e eu passo a vida a tirar-lho da boca e a seduzi-la com a chucha, não vá o dedo ficar atrofiado.
O chuchar em si parece uma função vital na bebé tão importante como o respirar. Lembro-me que já no útero – como visionei nas ecografias – chuchava no polegar. Nascerão os bebés já programados para isto? Acredito que o principal culpado seja o biberão (no meu caso) e o peito da mãe, uma vez que ao beberem o leite fazem-no por sucção. Logo, os bebés, nas suas cabecinhas, associam o acto aos prazeres da vida. Afinal, é desse modo que enchem as barriguitas. Bem alimentados, associam o chuchar ao bem-estar e ao conforto. Também nós, quando nos deixam pendurados, costumamos dizer: “Pois é! E eu fiquei para aqui a chuchar no dedo”, quase como uma espécie de auto consolo. Um destes dias, andava eu com a chucha da bebé e o pai dela disparou: “Já não tens idade para andares com isso na boca!” e, depois, com um olhar e sorriso concupiscentes “a tua chucha agora é outra”. Homens… e o meu é realmente um doce aficionado por doces. Quando vamos a alguma feirinha ou festa popular enche-se de algodão-doce, chupa-chupas em forma de chupeta, maçãs caramelizadas, pipocas, frutos secos, gelados e tudo o mais que tiver muito açúcar. Se fosse eu pesava duzentos quilos mas a ele não faz grande mossa.
Nesta fase, a bebé não só chucha o polegar como mete tudo o que apanha na boca. A nossa mão, por exemplo, é capaz de direccioná-la certinha para aquela boquita aberta sempre babosa. Lá está, continuo a não ver dentes alguns mas o pediatra diz-me que a baba dela é sinal de que eles vêm aí. Os bonecos ficam ensopados, assim como todas as roupas que ela mastiga. Parece um caracol baboso. Fui obrigada a colocar-lhe um guardanapo perene. Só espero que não faça alergia. É verdade. Uma vez, numa loja de roupa para bebés – a minha perdição do último ano – uma mãe queixava-se de que uns guardanapos que tinha comprado para o bebé dela haviam-lhe feito alergia no pescoço, já não me lembro se os de atar com fitas ou os outros de feltro. Eu uso os dois e, embora a bebé seja atreita a alergias com a sua pele atópica, a verdade é que não registei sinais devastadores à conta dos babettes.
Apesar de molhar tudo à sua volta, a bebé recusa-se a beber água. Raríssimas vezes consegui que ela bebesse um gole ou outro. E com esta canícula era de esperar que saboreasse a sensação fresca da água. Alguém me disse também que os bebés devem beber muita água para fecharem mais depressa a moleirinha. Mas não sei se isso é verdade ou mito. Tenho de confirmar com o pediatra. Contudo, gostava que ela bebesse água. Eu própria, confesso, não bebo muita e sei perfeitamente que me ajudaria a emagrecer. Sou capaz de beber litros de leite magro e sumos sem açúcar mas nunca fui muito fã de água. Até a minha ginecologista topou isso e mandou-me beber mais. Agora com o ginásio, pelo menos, bebo sempre uma garrafita por treino.
Muitas vezes, eu própria lambuzo a bebé com beijos e controlo-me para não a morder porque ela está tão doce e apetitosa que é irresistível. Também o pai dela se queixa das minhas dentadinhas de amor. Acusou-me de o trincar, aquela flor de estufa. Ora, está visto que, desde bebés é pela boca que desfrutamos o máximo prazer possível: chuchando, trincando, lambendo, lambuzando, etc. E pela boca morre o peixe, o que significa que devemos acautelar os nossos ímpetos gulosos. Lembrei-me agora que, quando pedimos boleia também esticamos o polegar… Poderá isto despertar alguma memória afectiva no condutor que pára e se dispõe a transportar um desconhecido? Não… parece-me freudiano demais.
Mas voltando ao polegarzinho – não ao de Perrault, Grimm e Andersen mas ao da minha bebé – tenho de admitir que não deixa de ser enternecedor vê-la tão mínima e já tão decidida quanto ao dedinho a chuchar. E agora quem se está a babar sou eu. A mãe babada de um bebé baboso.


quarta-feira, 18 de julho de 2007

Uma espia na casa do amor

A bebé tem o estranho hábito de me fixar durante longos momentos a fio. Estou a dar-lhe o biberão e ela não desvia os olhos, afasto-me para ir buscar algo e, os seus olhinhos escuros como duas azeitonas seguem-me. Estão sempre cravados em mim. Dir-se-ia que me espia. Se me ausento muito mais do que dois minutos, logo reclama atenção. Também já sorri muito e puxa-me o cabelo. Tenho de o prender, caso contrário sou mais um brinquedo naquelas pequenas mãos, sacudido com violência.
Quando dorme – ainda no seu berço – a bebé posiciona-se toda contorcida como um ponto de interrogação. Saberá que a coluna dela não é flexível ou os bebés são iguais aos gatos nos ruídos e gestos? Igual mesmo é ao pai dela. Quando nasceu, ainda tinha horas, e já todos comentavam essa parecença. A carinha é uma miniatura versão feminina do pai. As orelhas idênticas. Transpira como ele e já tem algumas manhas paternas… Espevitada, só gosta de ver e mexer em tudo. Uma pequena cusca. E agora adoptou o sofá dele, onde neste preciso momento dorme deleitada. Devido à inclinação das almofadas não está na sua posição de arco, valha-nos isso!
Outra coisa que os une é comerem o doce e o salgado misturados. O pai da bebé come sempre doces antes e durante a refeição. Uma vez, uma fotógrafa minha amiga referiu esse pequeno prazer proibido pela nossa educação. Isto é, os nossos pais ensinam-nos que os doces comem-se no fim das refeições e, também ela, quando se apanhou a viver sozinha extraía vivo prazer na transgressão dessa norma. A bebé é seguidora da mesma filosofia: sopa e fruta sabem melhor juntas. O que fazer?
A minha mãe acha que a neta vai ser hiperactiva. Às vezes, surpreende-se com as birras e, embora as tente apaziguar ao jeito dela, embalando-a e tal, diz sempre: “Nenhum de vocês era assim.” Pois… Uma coisa interessante é que a bebé não reage muito bem ao timbre de voz da minha mãe. Ela sempre falou muito alto e é um pouco ríspida, o que incomoda a princesa habituada à voz doce da mãe e à vozinha protectora da outra avó, sempre solícita com o seu “pronto, pronto” ao mínimo choro. Por isso, muitas vezes, só de ouvir a minha mãe a bebé franze o sobrolho para deleite do pai dela… “A bebé não gosta da tua mãe” diz, todo ufano mas, não é verdade. Ela incomoda-se com a estridência do tom. Também já a vi sorrir e palrar para a avó materna, toda contente. Infelizmente, os meus pais não dispõem do tempo e da capacidade física para estarem com a neta como gostariam. E aí, os meus sogros ganham aos pontos.
É engraçado que, quando casamos, não ganhamos só um parceiro. A nossa família cresce com os sogros e cunhados. E claro, as discussões e as antipatias saltam logo. Quem é que nunca ouviu frases do género: "O melhor dos teus pais foi terem-te feito?" ou "Só podes ter sido criada por outras pessoas é a única explicação racional?".
Porém, no meu caso, não tenho razões de queixa. Gostava que a minha família e o pai da bebé fossem mais comunicativos – e, às vezes, até são – porque eu gosto imenso dos meus sogros, sempre gentis e disponíveis, desde o primeiro momento. A minha cunhada é uma pessoa muito reservada mas, quando trocamos impressões, acho-a sensata, directa e com um excelente sentido de humor. E o ideal é mesmo as famílias darem-se bem porque… temos sempre natais pela frente, não é? E não há nada pior do que passar uma época festiva com os nervos e outras indisposições à flor da pele. É também importante para a bebé sentir que as pessoas que gostam dela são todas amigas. A minha mãe sempre me contou lindas histórias dos meus avós paternos e manteve com o sogro dela uma relação quase de pai e filha até à morte deste. Acho bonito. São casas onde reina o amor que merece ser observado – espiado – e absorvido. Quem é amado sabe amar. E a bebé vai dar cartas.



terça-feira, 17 de julho de 2007

Bloco de Leste

Com a casa já totalmente organizada e decorada e a faltarem duas semanas para a bebé fazer os cinco meses ganhei ânimo e decidi liquidar o peso a mais. Farta de dietas improdutivas e de ginástica caseira inscrevi-me num ginásio a dois passos do prédio. Primeiro, investiguei as condições. Não era nada como o meu anterior mas… algo me sorriu e conquistou de imediato: o espaço dedicado à estética. Uma série de programas com vários tratamentos que aliados à ginástica e à dieta poderiam ajudar-me a emagrecer. Fiquei fascinada. Elaborei logo um plano semanal, uma vez que só me posso ausentar quando a Nice está operacional. O que seria de mim sem essa brasileira fabulosa que concilia o trabalho de limpeza com babysitting e que deve ser a culpada de já, por duas vezes, me terem atribuído um estranho sotaque brasileiro?
Assim, tranquila com a bebé entregue em boas mãos, lá sigo para a queima de calorias três vezes por semana. Descobri tratamentos incríveis: a pressoterapia, por exemplo, é uma espécie de terapia por pressão, ou seja, estamos deitadas numa marquesa e elas ligam a engenhoca de maneira a sermos mais apertadas do que alguma vez o fomos por braços de homem algum… Sabe bem e equivale a drenagem linfática. A crioterapia é um horror mas a seguir a grandes sudações é óptima. Trata-se de um gel que nos arrefece o corpo e, segundo o mito, ninguém até hoje o aguentou sem massagem. Depois, a electroestimulação – pequenos choques bem distribuídos pelo corpo – até pode ser interessante, uma vez que equivale a fazermos ginástica sem nos levantarmos da marquesa mas irrita-me que me digam que tenho os músculos da barriga atrofiados e que as agulhas estão paradas em vez de darem alegres saltos… Pudera! Ainda há pouco tinha a bebé lá dentro. Abdominais definidos depois da gravidez é difícil…
Exfoliações, massagens, chás drenantes, comprimidos para emagrecer e muito exercício é uma espécie de ou vai ou racha! Na verdade, sinto-me melhor, mais rija, com o ventre menos saliente e alguma roupa já me serve, embora ainda esteja justíssima. Mas pelo menos entra, o que é muito compensador. Ando mais animada e tudo, graças ao Bloco de Leste. É assim que designo a minha equipa de esteticistas. São todas loiras – Tatiana, Helena, Natália, Olga – vindas do frio (não admira que amem a crioterapia a seguir à sauna à falta de um lago de águas geladas…), altas e robustas, massagistas de mãos sábias e doces que asseguram uma diminuição de volume, medindo antes para impressionar depois. Sim, fui medida e pesada e, no fim destas sessões, espero não ser a primeira cliente excepção… Enfim, não posso pensar negativo e, como não há milagres, toca a reduzir doces, massas, pães, batatas, arroz, ou seja, tudo aquilo que nos dá prazer ingerir. Mas para perder peso, eu faço tudo, a sério. Já passei duas semanas a batidos e emagreci mas não voltei ao que era. No fundo, o que me parte a cabecinha é isso mesmo: não aceito o meu corpo tal como está; quero o meu físico de antes do parto e, enquanto não o tiver, enlouqueço e dou com todos em doidos.
O pai da bebé, por exemplo, torceu o nariz à iniciativa. Primeiro porque é muito ciumento e não quer que eu faça amizades no ginásio… Depois, porque é muito ciumento e acha que quem precisa de massagens é ele que, coitado, passa o dia todo à frente de um computador lá na empresa a trabalhar e a flirtar… Comovida com tanta angústia acumulada e para provar como sou uma jóia de mulher resolvi oferecer-lhe um programa especial de duas horas e meia no meu SPA. Os homens fingem sempre que não gostam destas coisas, sobretudo se forem sérias. Aposto que se tivesse descompressões manuais ficava com um sorriso extasiado. Porém, a minha bondade não chega a tanto. Tivesse aproveitado as massagens sensuais antes de constituir família.
Também a bebé gosta de ser massajada quando lhe passo os cremes de manhã e à noite. Podia dizer que ela dorme melhor mas para minha grande sorte ela sempre nos deu boas noites. O que é uma questão típica, já que quando somos pais todos nos perguntam: “E a bebé? Deixa-vos dormir?”. Sim, a nossa é um perfeito anjo. Tirando aquela hora de alarme accionado… Talvez ainda contrate uma babysitter russa. Lá que têm mão firme, têm!

domingo, 15 de julho de 2007

O martírio das sopas



Tudo na bebé é uma evolução extraordinária de ver. Mesmo o simples banho. No princípio, a banheira parecia enorme e ela, com as suas pernas e braços minúsculos e barriga maior, um pequeno sapinho num charco. Agora é o contrário: já parece pequena demais para a bebé. Sentada na sua cadeira de banho ajustável, em cujas bordas já agarra as mãos, a bebé diverte-se a chapinhar com as perninhas e braços, olhando os inumeráveis brinquedos aquáticos com alguma atenção. Ainda não os agarra, é certo, mas também não os ignora. Sapos, patos, coelhos e macacos flutuam sobre as ondas das suas sacudidelas. Não chora quando entra ou sai – raríssimas vezes o fez – e adora ver-se ao espelho, tanto ou mais que o pai dela…
Também as suas refeições têm evoluído com muita graça. Passar do leite para a sopa foi uma prova difícil para a bebé que é super comilona por excelência. Bebia vários biberões e, enquanto não os tivesse, não dava tréguas a ninguém… Assim, o meu irmão do meio que é médico – cirurgião ortopédico – e adora bebés resolveu apiedar-se do meu esforço culinário e ofereceu-me um livro fantástico “1,2,3 Uma Colher de Cada Vez – um guia para crianças dos 4 meses aos 3 anos”. Em bom tempo me salvou porque perante estas mais de 150 receitas todas certinhas e apetitosas nasceu-me uma nova alma.
Não é que eu fizesse mal a sopa. Segui as instruções do mega pediatra da bebé e tal mas… quem nunca fez sopas para bebés passa sempre por mil incertezas e eu até adoro cozinhar. Não me estou a tentar desculpar mas fiz algumas asneiras. Por exemplo, a base era sempre batata e cenoura mas eu exagerava na água e ficava líquida demais. Depois, aprendi – com o tal livro – que a água deve apenas cobrir os vegetais. Deste modo, quando triturava os legumes cozidos já obtinha uma consistência mais de papa. Até aqui, tudo bem. Experimentei cebola e azeite e a bebé mandou-me pastar e, não comeu. No livro, também não referem uma coisa nem outra e eu, pura e simplesmente, cortei com ambas.
A primeira sopa que ela apreciou mesmo em termos de sabor foi uma de cenoura à qual juntei a polpa de uma batata-doce que assara no forno. A bebé amou. Depois fiz-lhe purés de abóbora, cenoura, maçã e pêra. Isto, aos quatro meses, que foi quando ela começou a dar o salto alimentar. E como não consegui que ela comesse com a colher de silicone resolvi dar-lhe a sopa no biberão. Na consulta dos cinco meses, o médico dela censurar-me-ia: “Não pode ser. É muito perigoso. Se ela se engasgar vão a batata e a cenoura directas para o pulmão.” Bolas! Aquilo assustou-me e lancei-me em novas tentativas à colherada e já com novas receitas.
Ora bem, acontece que aos cinco meses, o doutor introduziu carne de frango ou peru nos primeiros quinze dias e, depois, carninha de vaca louca. Tudo triturado num 1,2,3 – estes números perseguem-me… – de modo a ficar uma porção do tamanho de uma almôndega. A carne antes é temperada com alho e ervas – nada de sal – e frita ou grelhada num pouco de azeite. Só na altura da refeição a devo juntar à sopa. E a seguir dou a fruta. “Parece fácil”, pensei e corri para um talho onde pedi que me cortassem bifes de 90 gramas, ou seja três porções de carne em cada bife que deveria usar no cocktail almoço e também ao jantar, embora pudesse optar por leite na mesma. Para não ser muito duro para a bebé resolvi só desmamá-la ao almoço. Afinal, duro mesmo, só se for para mim. É um verdadeiro massacre texano…
A rejeição inicial e as birras manhosas combati à bruta: “Se não comes a sopa, não comes mais nada” e, depois de alguma persistência, ela lá vai comendo e sujando à grande e à francesa. A cara quase que desaparece por entre a pasta laranja que se espalha e escorre também pelo babette e mãos que tentam agarrar a colher. Não a consigo segurar ao colo e é muito cedo para a instalar numa cadeira, daí que a coloque na espreguiçadeira, protegida por uma fralda, e me sente de pernas cruzadas à frente dela: “Vamos, bebé, abre lá a boquinha. Sê gentil para a mamã e tal”, rogo-lhe desesperada. Mas aqueles bracinhos frenéticos movimentam-se quando menos espero e zás! Sopa para o olho, chão, sofá, cortinado, salpica-me também, claro, não há nada a fazer. “Tenha paciência”, diz a minha sogra que adora alimentar a prole dela e tem o vício simpático de nos estar sempre a oferecer bolos e iogurtes. Mas também ela, uma enfardadora clássica, teme o momento sacro da sopa e já me pede para lhe deixar a bebé depois de almoço.
Enquanto invento novas técnicas – estilo, na mesma colher, dou-lhe um pouco de fruta e sopa – interrogo-me quanto tempo demorará ela a saber comer sem este festim de sujidade à nossa volta e já sinto saudades do processo limpo do biberão…

















sábado, 14 de julho de 2007

Alergias, cólicas e birras


“Que linda bebé!”, elogiam as senhoras idosas quando me vêem passeá-la na rua dentro do canguru. Aproximam-se e, depois dos elogios, segue-se o espanto: “Mas não faz mal levá-la assim?”. Explico-lhes que não, que o canguru é mesmo feito para transportar bebés: primeiro, virados para nós e, depois dos cinco meses, de costas para a mãe. Elas admiram-se, tal como a maioria das pessoas, ainda não habituadas a um transporte que já se pratica há séculos na Ásia, América Latina e África. Se repararem, quase todos os pais estrangeiros – homens também – passeiam os seus rebentos alegremente em panos cangurus que nem fechos têm. E foi um homem – o meu sogro – quem me ofereceu este e, quando passeia a neta, também a leva assim. E o meu sogro é um homem do norte, carago! Claro, que a bebé apanha estes elogios todos e devolve sorrisos, derretendo corações. “É um amor!”, dizem. “Como é sossegadinha.” Pois… Se a vissem à noite, antes de adormecer, assistiriam a uma verdadeira metamorfose. A bebé vira um alarme e não há nada que a acalme.
Primeiro, teve o azar comum a muitos bebés de fazer um eczema, o qual se manifestou por manchas vermelhas que escamaram, ao ponto da roupa branca interior ficar cinzenta… Foi um horror. Mudei-lhe de creme cem vezes e… de pediatra. Por fim, um deles acertou na cura. É ele hoje o médico dela e, curiosamente, também foi o pediatra do pai da bebé. Consta que começou a exercer muito novo, pois velho é que ele não é. Acho-o o máximo! Exprime-se muito bem, tem um magnífico sentido de humor, super gentil e profissional. Depois de um péssimo obstetra ganhámos um excelente pediatra. Menos mal.
A dermatite atópica irritava profundamente a bebé que chorava incomodada. Para combatê-la, o médico disse-me que evitasse o contacto directo da lã na pele e a vestisse apenas com roupas que fossem 100 por cento de algodão. O banho passou a ser de dois em dois dias, a gama de cremes de novo alterada – investi no Leti AT4 – e a bebé fez antibiótico, Floxapen. Também levou corticóides: Advantan cortado a meias com um creme hidratante, no caso, Decubal. O leite – o grande suspeito – foi substituído por Aptamil Pepti, indicado para lactentes com alergia às proteínas do leite de vaca. Obtivémos um resultado milagroso: de um dia para o outro a recuperação tornou-se óbvia. A bebé voltou a ter a pele macia, lisinha e sem marcas, um dos seus muitos encantos. Infelizmente, o Pepti não se vende em todas as farmácias e, depois de maratonas improdutivas calcorreando meia urbe, passei a encomendá-lo.
Debelada a alergia, também o mesmo médico acertou na questão das cólicas. Até aos três meses dava-lhe Infacol, um medicamento que o pai da bebé descobriu ser usado com sucesso pelos colegas da sua empresa junto dos bebés deles. Um mandava vir uns tantos de Inglaterra e dividiam os frascos. Mas, o que ela toma agora é bem melhor: Biogaia. E eu pensei: “Genial! Foram-se as cólicas, o ardor da alergia e agora, vamos ter sossego cá em casa!”. Mas para meu horror, a baba e o chorinho que depressa fica buzina derivam… dos dentes! Fiquei em estado de choque: “Mas doutor… a bebé só fez quatro meses. Não é nova demais para os dentes já estarem a querer nascer?”. Com um sorriso sem contemplações lá me passou um bálsamo primeiros dentes, um pó de matricária em saquetas e ben-u-ron supositórios para lactentes de três meses a um ano…
Os dentes, não os vejo e não os sinto, no entanto, que a bebé berra que se mata, ah isso berra! Torna-se insuportável. O pai dela não ouve do ouvido esquerdo e, uma noite destas, enquanto a embalava, escutei-o protestar, exasperado: “Isso, berra à vontade! O pai já não tem um ouvido e agora queres-lhe acabar com o outro!”. Repreendi-o pela dureza do comentário e falta de paciência… mas sempre é melhor desabafar, do que me plantar a bebé à frente do plasma – literalmente frente – sincronizando o BabyTV…
Com as birras da bebé e as iniciativas de relaxamento do pai dela… prevejo dias ainda mais dificéis.

sexta-feira, 13 de julho de 2007

A bênção de a ver crescer


Não gosto quando as crianças são baptizadas e já fazem e dizem montanhas de gracinhas sem graça nenhuma para a importância de um sacramento como o baptismo. Eu fui baptizada aos três meses e a bebé também. Só a ideia de lhe acontecer alguma fatalidade e ela me ficar no limbo deixava-me numa pilha de nervos. O pai da bebé disse-me que o Papa abolira o limbo. Olhei-o incrédula. Também João Paulo II se pronunciara contra a inexistência do inferno mas nós sentimo-lo bem perto e quase todos os dias… Por isso, com limbo ou sem limbo, eu queria-a baptizada e depressa. Há realidades invisíveis que ou se crêem ou não mas, apesar de eu ser católica não praticante, sei bem a lição e, a bebé também seria iluminada pela luz do espírito santo e unida a Jesus, participando assim no seu mistério pascal. Para muitos isto é chinês mas para se morrer e ressuscitar, passando da morte do pecado para a vida eterna, tem de se ser baptizado, tem de se ser filho de Deus. Se a bebé seguir ou não a vida cristã, logo se vê mas, pelo menos, tem a graça, a força e o amor. Os dons do baptismo são maravilhosos.
Escolhemos o meu irmão mais novo e a irmã dele para padrinhos e optámos por fazer uma festa muito íntima, apenas para as nossas famílias nucleares. Porém, uma tia minha e uma prima casada e de cuja filha eu sou madrinha também foram convidadas. Sempre se alargou o número de convidados com estas excepções de última hora…
A madrinha ofereceu o vestido lindíssimo, a vela e os sapatinhos, o primeiro par do meu anjo que se sair à mãe rivalizará com a célebre filipina…
Falei com um sacerdote amigo da família e escolhemos a igreja. Comprámos as estampas de recordação e mandámo-las gravar: “Hoje nasci para Deus”, uma frase linda que, de uma forma tão simples enuncia o que é o baptismo. A bebé nasceria para uma vida nova vivendo a felicidade de ter Deus como pai. E que bem que sabe quando rezamos na esperança de que algures Ele nos oiça. Não sou praticante como disse, não vou à missa, não comungo, fiquei-me pela profissão de fé e não cheguei a fazer o crisma mas, quando estou muito feliz ou miserável é no Pai do céu que encontro amor e conforto. Por exemplo, não me canso de Lhe agradecer todas as coisas boas que me acontecem e o facto de ainda ter os meus pais vivos, comigo, ao meu lado, sobreviventes de edema da glote, ele e, atropelamento, ela, entre tantas outras peripécias que lhes podiam ter já ceifado a vida… E, muito obviamente, agradeço-Lhe o facto de ter tido uma filha linda e saudável, o maior milagre da minha vida de fumadora inveterada e criatura dada a inconstâncias.
A cerimónia correu bem, com a bebé a contorcer-se toda na altura em que sentiu a água na cabeça. Não pude deixar de rir mas fi-lo educadamente. A água e as palavras do sacerdote é o que todos vemos e ouvimos mas o significado para lá do visível comoveu-me: a bebé seria amada e salva, como filha de Deus. E quando o celebrante disse: “Que Deus lhes conceda – aos pais – a bênção de a ver crescer”, apercebi-me de que não sou eterna e que posso morrer antes de a ver uma mulher feita e, tal imagem de privação fez-me chorar. Uma lágrima e outra que rapidamente disfarcei, pois todos os olhos estão postos na mãe e eu sempre defendi a célebre fleuma britânica, ou não tivesse estudado em Sherborne.
Depois de concluída a papelada, bateram-se sempre fotos e fotos e lá seguimos para o jantar. A bebé na sua linda veste branca e, claro que apesar de gorda, também trajei umas calças brancas porque me enerva ver pessoas vestidas de preto em casamentos e baptizados já que contrariam o princípio da luz e da felicidade. Assim, numa sala linda de tons vermelhos e brancos jantámos pratos muito refinados e todos os convidados apreciaram o repasto. Mesmo o pai da bebé que, ao princípio, tanto protestara com a hora, a data, a frase das estampas, a igreja, etc. Ele é que escolheu o fotógrafo e, o álbum, que acabei de ver – demorou séculos a chegar – está um encanto. Mais tarde, a minha bebé vai vê-lo e partilhá-lo com quem ela amar. E sentirá, em cada página, o amor e a vaidade dos pais dela, dos avós e tios. Foi há dois meses, no 13 de Maio e já parece que foi há uma eternidade, dado o pulo que ela deu. Já agarra o biberão com as duas mãos e está bem mais comprida e saltitona. No outro dia, escorregou-me da espreguiçadeira – não a tinha amarrado – e aterrou-me no tapete… Prevejo dias difíceis.

quinta-feira, 12 de julho de 2007

Quarto vitoriano



Só quem já mudou de casa pode valorizar o tremendo esforço a que tal empreendimento obriga. Foi um autêntico massacre. Caixas e caixas que tive de abrir e guardar peça a peça, montanhas de livros, mil bibelots – investigados criteriosamente por ele que me apontaria um gosto duvidoso em meia dúzia deles – roupas nossas, da casa, etc., loiças, quadros, espelhos, tapetes, tudo o que possam imaginar que faça falta a uma mulher possessiva e a um homem vaidoso e com exigências técnicas a nível de máquinas e equipamentos. Graças a isso, temos um excelente plasma, um frigorífico americano que produz gelo em cubos, em cubinhos e água geladíssima. Ainda bem que os homens adoram essas tecnologias. No entanto, só em arrumações lá se passaram outros dois meses.
A bebé dormia a maior parte do tempo. Quando acordava bebia o seu biberão, mudava-lhe a fralda e regressava ao meu martírio de desencaixotar mais e mais acessórios. No fim, a casa ficou linda. O pai da bebé ofereceu-me uma divisão inesquecível: um closet, como dizem no Brasil, ou um quarto de roupa à portuguesa. Fui às lágrimas. Ter a minha roupa toda arrumada naquele espaço é um enorme prazer para quem sempre cultivara essa fantasia e agora a via tornada realidade. O meu sogro, que tantas vezes me diz – no que eu acho que é uma lavagem cerebral ainda que inconsciente da parte dele – que as virtudes do rapaz superam os defeitos é capaz até de ter razão. Pelo menos, no capítulo da casa, o pai da bebé foi incansável e exigiu sempre o melhor.
Com a minha atenção virada para o lar não tive tempo ou capacidade mental para gerir a questão dos quilos a mais, ou seja, continuei uma baleia e, só de me ver nas fotos do baptizado, vêm-me calafrios ao corpo todo. Como desejei, então, ser igual àquelas mães de ventre liso dos anúncios… Nunca se vê uma mãe anafada banhar o seu bebé ou mudar-lhe a fralda. Ou sequer esboçar a mínima dificuldade na tarefa. São sempre lindas, sorridentes e de uma magreza invejável. Porém, a realidade é bem diferente como denunciavam aquelas fotos perenes. Um dia, também a bebé vai ver como a mãe pertenceu à espécie dos mamíferos marinhos: um cetáceo raro ou uma foca deslumbrante. Enfim, tenho de puxar a brasa à minha sardinha…
Graças e desgraças, só sei que quando não conseguimos emagrecer dá-nos uma depressão fatal. Ninguém nos pode ouvir falar mais de dietas e, discretamente, mudam de assunto, ou consolam-nos com o “estás sempre bonita” mas, só nós é que sabemos como odiamos os espelhos. Uma vez, uma lojista minha amiga confidenciou-me que uma cliente sua estava super abatida, pois já tivera o filho há dois meses e todas as pessoas ainda lhe perguntavam para quando era o parto… Maldita história que não me saía da cabeça… Estaria eu também naquelas condições? Na verdade, parecia mesmo estar grávida, mas aquela barriga de princípio, três, quatro meses. Se alguém me fizesse uma pergunta do género eu acho que me suicidava na hora.
Com a questão do físico adiada até à conclusão das arrumações e decorações, dediquei-me de corpo e alma ao nosso espaço. A bebé também tem o seu quarto, embora confesse que ainda não a mudei para lá. Fez agora cinco meses e gosto de a ter a dormir no berço ao meu lado. O restolhar da borboleta – pendurada no interior da cama – sempre que ela se vira em ângulos verdadeiramente acrobáticos é um som que muito aprecio. Ajeito-a, acaricio-a, canto-lhe, alimento-a, beijo-a à distância de um braço. Para mim é reconfortante.
Mas o quarto dela é engraçado. A cama acabou de chegar. É de ferro, foi toda pintada de branco e pertenceu ao meu pai – senhor já na casa dos 90 – quando ele era bebé. Comovem-me estas antiguidades com valor sentimental. Também no quarto dela dispõe de uma cómoda dos meus bisavós e de uma cadeira de criança da mesma época. É a única divisão cor-de-rosa da casa. Possui cortinados floridos e um candeeiro de pé verde alface que me custou os olhos da cara e que eu teria feito igual ou melhor quando me debrucei sobre ele com mais atenção. Para compensar essa minha falta de visão comprei-lhe uma casa de bonecas em pinho no Vassoureiro e pintei-a e decorei-a ao meu gosto. Comprei-lhe bonecas à medida – lil’Bratz – e adoro que ma elogiem. A minha mãe, que tem um feitio muito especial e pouco contemplativo com minudências, diz sempre que eu fiz a casa mas foi para mim…
Estes elementos novos e coloridos cortaram aquele ar vitoriano que o quarto tinha. Graças a Deus, que não havia perdido, lá pelo sótão dos meus pais, um cavalo de baloiço de madeira, ou bonecas de porcelana, ou carrinhos de bebés antigos, todos eles me arrepiam e fazem lembrar filmes de terror! Daqueles em que as rodas deslizam sem que sejam empurradas e os olhos de vidro da bonecada parecem encerrar almas do outro mundo… Quando mudar a bebé vou usar os intercomunicadores que o pai, o senhor da tecnologia, comprou há muito. Só espero que ela seja super feliz nesta casa. E nós também.

quarta-feira, 11 de julho de 2007

Mimos para mim



Depois do parto, segui para casa da minha mãe. A ideia era ficar lá dois ou três meses, rodeada de miminhos e de ajuda, claro está. Para mim, um bebé era um extraterrestre. Apesar dos livros que possuía sobre o tema nunca consegui ler nenhum de forma ordenada. E a minha mãe tinha tido três filhos.
Curiosamente, ele quis vir também. Disse-me que não o podia privar da filha e lá fomos os três para junto da minha família que ele classificaria de “disfuncional”…
Na realidade, nenhuma família é perfeita mas o momento não era para críticas antes para entendimentos globais. Eu mal me podia mexer, a bebé recém-nascida e prematura era a fragilidade por excelência e ambas precisávamos de apoio.
Porém, as coisas correram de forma desastrosa. Muito ocupada com o seu trabalho, a avó da minha filha – a que me devia auxiliar – nem sequer férias tirou… Primeira neta, nos primeiros dois meses, crescia sob os meus cuidados e os da empregada dela, uma rapariga brasileira, amorosa e dedicada, também ela mãe de outra menina de três anos.
Durante esse tempo, usei uma faixa horrível que me marcava a barriga, mudei o penso à cicatriz e sangrei alguma coisa. Nunca me ocorrera que as mães precisassem de tantos produtos à volta delas. Entre os meus e os da bebé, enchíamos uma cómoda fraldário, excelente compra que me poupou as costas até hoje.
O que devia ter sido um alívio foi também em parte um pesadelo. É certo que não cozinhei nem lavei nada durante esse período. A Áurea nem um body me deixava lavar, abençoada seja! Assim, as tarefas de casa reduziram-se ao leite e às fraldas da bebé. Acordava muitas vezes à noite, de duas em duas horas para alimentá-la e confortá-la. Às vezes, ele revezava comigo. Mas como trabalhava e eu não, a maior parte do tempo deixava-o dormir em paz. Hábito esse, entretanto e, volvidos cincos meses, profundamente enraizado…
A pior parte foi o meu antigo quarto transformar-se numa espécie de acampamento de ciganos. O meu lado de miúda arrumadinha alucinava por completo. Só de olhar para a pilha de coisas que eu acumulava escondidas por trás dos cortinados dava-me vontade de chorar. Dentro dos armários, lá hibernava a tal roupa que ainda não me servia nem serviria tão cedo, a não ser que perdesse os vinte quilos por milagre. A sensação era de sufoco. O meu antigo espaço já não era meu. As visitas não ficavam na sala e entravam sem cerimónia. Não me deixavam abrir a janela para arejar com medo de perderem o pimpolho numa gripe fatal e o resultado foi tão mau que os cortinados ganharam bolor e os cogumelos começaram a espreitar por entre as minhas caixas de sapatos…
Aproveitámos para tratar de uma série de tretas burocráticas: o registo da bebé, claro, inscrição dela no centro de saúde, cujo cartão ainda espero, inscrição no seguro de saúde dele através da empresa, inscrição nas finanças e… inscrição no Benfica, com uma promoção qualquer que só os fanáticos da Luz devem perceber. Tão pequena, a bebé já tem um belo naipe de cartões.
Mas não só. Antes mesmo de nascer, já tinha uma série de presentes: roupas, mantas, brinquedos, acessórios e tal. Os mais preciosos foram a supracitada cómoda para mudar as fraldas e dar banho da Chicco, o berço – lindo de morrer que o meu pai ofereceu – e o carrinho Loola da Bebé Confort, com direito a tudo, ovo, alcofa, cadeirinha, etc., oferta dos pais dele e verdadeiramente preciosa. Em cor-de-rosa, ou um ameixa próximo. E last but not least, o esterilizador de biberões, dado pela cunhada de apurado sexto sentido.
Foi dentro do ovo que ela saiu da maternidade e é sempre lá dentro que viaja no carro, no lugar da frente, obrigatório até aos seis meses. O que pode chocar quem não tem filhos e pensa que as crianças vão sempre atrás. Ah! E vai virada contra a estrada, ou seja, na posição contrária à de quem conduz. O que devo confessar que é terrível porque só me apetece ajeitá-la e namorá-la e quando dou por mim já abriu o sinal e um tarado qualquer apita-me para seguir. Enfim, terei de encontrar um autocolante mais garrido e maior de “Bebé a Bordo”.
Os dois meses passaram-se, tratou-se da papelada da bebé, foi às consultas e vacinada e tudo correu bem. Entretanto, a nossa nova casa estava pronta – o eterno atraso das obras – e foi com redobrada alegria que me mudei para os arredores, satisfeita por deixar o mofo do quarto e respirar o ar puro da brisa marítima. Novo lar, uma família linda, tudo a estrear… Sentia-me a Kate Winslet na proa do Titanic.

domingo, 8 de julho de 2007

A César o que é de César



Rebentaram-me as águas à uma da manhã de uma segunda-feira. E embora soubesse que a minha barriga estava condenada a desaparecer, não deixava de temer esse mesmo momento por puro horror ao desconhecido.
Assim, depois dos ditos pastéis de Belém e de uma excursão por uma feira de antiguidades – na qual ainda hesitei perante um magnífico óleo do pintor das meninas gordas de cabelos encaracolados, réplicas eternas da sua própria mulher – foi já em casa, dez minutos depois de nos termos deitado, que o meu grito o fez saltar da cama: “Estou a sangrar!”, gritava em pânico, pois só sentia um líquido quente descer-me pernas abaixo com uma intensidade forte, estilo quando abrimos demais a torneira e a água sai disparada com força. Eu não controlava aquele jorro e não me atrevia a olhá-lo. Assustei-me porque ainda não estava no tempo. Faltava um mês e uma semana. Pensei que estava a abortar.
Ele olhou para mim, nervoso: “Não vejo sangue nenhum! Não vejo sangue nenhum!”, quando nos enervamos temos a estranha mania de bisar. Já nas nossas discussões é o mesmo… Enfim… Cada casal tem as suas bizarrias.
E eu depois lá me forcei a olhar e vi que estava limpa. Sem uma gota de sangue mas a minha roupa torcia-se e escorria água. Ainda tentei meter um penso que logo se encharcava e balbuciei: “E agora?”. Entre cigarros dele e lágrimas minhas telefonei para o meu obstetra: “Tenha calma. Vá para o hospital que lá as enfermeiras tomam conta de si”, tranquilizou-me.
Por azar, até os preparativos falharam... A célebre mala para a minha roupa e a da bebé, presente materno, não estava comigo. Para a semana que se iniciava tinha marcada a terceira ecografia, por isso pensava que podia arranjar tudo, inclusive apanhar a mala destinada à maternidade. Mas uma partida súbita obrigava-me a atirar com camisas, chinelos, cuecas descartáveis, faixa pós-parto e meia dúzia de produtos de higiene pessoal para um saco, o primeiro que me veio à mão. Quanto às mudas da bebé, ele levaria depois, uma vez que a maior parte da roupinha dela também já não estava connosco.
Chegámos ao hospital e eu fiquei numa sala, monitorizada. Ele teve de voltar atrás. Na pressa, esquecera-se do livro de cheques. Conduzia em excesso de velocidade, nervoso e, claro, foi mandado parar por um polícia. Multado? Nem por isso. Explicada a situação, o bom homem ainda o levou a uma florista que era de um familiar e, às tantas da manhã, em pleno trabalho de parto, aparece-me com um ramo de flores… Fez-me rir e às enfermeiras: “Ainda a bebé não nasceu e a mãe já tem flores”, comentavam sorridentes. Ele e as suas inacreditáveis histórias…
Quando se concluiu que a posição da bebé não permitia o parto normal porque estava de pés suspirei de alívio. Eu, que tanto me batera pela cesariana – apesar do meu médico ter dito que era melhor esperarmos e ver como o bebé descia e tal – via assim satisfeita a minha pretensão. Obrigada, bebé. Também não tive leite e, como me horrorizava a ideia de amamentar, fiquei radiante. Assim, ninguém me podia acusar de nada. São as leis da Natureza. Umas têm, outras não. E as minhas maminhas lá se safaram…
Foram três dias complicados. Com as enfermeiras a ensinar como alimentar e banhar e essas coisas todas. A partir desse dia e nos dois meses seguintes nunca mais tive privacidade no quarto. Pais, sogros, irmãos, cunhados, primos, tias, por aí. Claro que o motivo das visitas não era eu mas a minha pequena bebé, uma resistente linda, que nascera com 2260 quilos e 43 centímetros. Logo no segundo dia abateu 300 gramas mas disseram-me que todos os bebés perdiam peso e que era normal.
Quando a bebé nasceu deu-se a trapalhice do parto de três em um, isto é, contei três asneiras crassas: primeiro, estive horas a sofrer trabalho de parto desnecessário porque este acabou por não ser natural; segundo, só avancei para a cirurgia com a dilatação já toda feita, correndo o risco de ver-se o pé da bebé cá fora a qualquer instante e, terceiro, a epidural não fez efeito e lá seguiram para a anestesia geral com o médico muito nervoso e as enfermeiras a elogiarem-me a coragem.
Porém, quando tudo acabou, senti-me muito orgulhosa. Ver a minha bebé ao meu lado, embrulhada numa manta, com a fealdade própria dos recém-nascidos mas um milagre meu, vida que brotara de mim e que eu amaria incondicionalmente até morrer. O dia em que fui mãe foi o mais doloroso e belo de sempre. Guardo-o como único e irrepetível.

quarta-feira, 4 de julho de 2007

Mãe pela primeira vez



Tudo começa com a gravidez. Confesso que não gostei nada. De estar grávida, não da ideia de ser mãe e de ter um bebé. Mas aquela barriga imensa, os enjoos, as gengivas a sangrar, os pés e as mãos inchados como balões, os mamilos escuros e os meus pequenos seios a quadruplicarem no soutien, tudo isso me arrasou. Não era eu. Comecei a evitar os espelhos e deixei de ter prazer algum nas roupas ou calçado que usava. Adeus saltos e peças delicadas e finas a esvoaçarem no meu corpo. Adeus jeans justos e olá jeans hediondos de cintura elástica… E apesar de tudo, a roupa das mulheres grávidas tem feito progressos. Adorei a Formes no Saldanha. Foi essa loja que minimizou o problema da roupa. Sugiro vivamente. Mesmo assim nada nos impede de chorarmos um inteiro guarda-roupa que irá ficar parado no tempo. Nove meses ou mais. Temos de ter em conta a recuperação pós-parto. O que para algumas de nós é muito complicado. Mas isso fica para outro dia.
Por agora, a gravidez. Todos os meses o corpo se deforma. O ventre pesa-nos e obriga-nos a inúmeras idas à casa de banho. Não andamos mas arrastamo-nos. As pessoas são mais simpáticas. Atendem-nos com um sorriso, temos prioridade nas filas dos supermercados e nas repartições públicas, direito a lugares de estacionamento. Só não podemos ver balanças à nossa frente ou miúdas magras. Ambas nos deprimem. Na gravidez devem-se evitar as colegas mais giras com as quais privávamos outrora. Não lhes dar a satisfação de nos verem transformadas em sapos. A mim, só me apetecia andar tapada e escondida, passar 24 horas por dia fechada em casa.
E o sono? No primeiro trimestre hibernamos como verdadeiras ursas, o que é um sinal inequívoco da medonha transformação que se aproxima. Mal passa a fase do sono vêm os enjoos que batem qualquer mal-estar marítimo. E a gula. Caramelos de fruta. Comia-os à pazada. Nunca mais os pude ver. Mas não os comia sozinha. Ele comia tanto ou mais do que eu. E incentivava-me. “Vá lá, um doce não te faz mal. Vou trazer um Molotov para casa, boa?”. Foi assim durante oito meses. Sim, até a bebé se deve ter cansado, pontapeando para sair mais cedo do que devia, após uma overdose de pastéis de nata de Belém…
E o sexo? Quase chorei ao ver o filme “Munique”. Não pelo drama dos atletas israelitas massacrados em 1972, mas sim por ver o Eric Bana – aquele actor lindíssimo – a fazer amor com a mulher gravidíssima. Ele a perguntar-lhe: “Quando devemos deixar de fazer?” e a resposta dela: “Nunca.” Pois comigo foi o contrário. Fizemos duas ou três vezes e a pedido. Ele temia pelo bebé. Francamente… Eu receava por mim. Julguei enlouquecer. Custou-me horrores. Nunca pensei que fosse o tipo de homem que parasse numa altura dessas, que me privasse do que eu tanto gosto. Ou seja, para além de todas as privações, até essa tive de penar. Custou-me mais do que todas as outras. Psicologicamente quebrou-me. Eu até podia aguentar a ausência de exercício físico do meu saudoso ginásio imposta pelo médico com a argumentação da gravidez de risco, ou tolerar que a roupa acumulasse pó no meu quarto de solteira a quilómetros de distância, ou aguentar-me sem as massagens de adelgaçamento que tanto bem me faziam no passado mas … sem sexo? Devia existir um sindicato onde as mulheres grávidas se pudessem queixar. Apontar o dedo ao marido e dizer: “Esse aí, não me assiste mais.” Talvez a coima fosse afrodisíaca.
Gorda, carente, destituída do meu velho eu, restava-me passear pelos quarteirões circundantes, enterrada num velho chapéu e com a cara tapada por um cachecol dos bons velhos tempos, até a bexiga se queixar. O que logo acontecia. E foi assim no princípio, antes do bebé. Tive sorte com o cabelo que continuou fabuloso – toda a dor se concentrou nos dentes e gengivas – e nunca vesti uma malha nesse penoso Inverno porque andei sempre encalorada. Cabelo? Quando ele me veio com a teoria de que tinha de o deixar de pintar, aí sim, impus-me a valer. É que o tango exige dois dançarinos mas nas minhas madeixas mando eu!!!