quinta-feira, 12 de julho de 2007

Quarto vitoriano



Só quem já mudou de casa pode valorizar o tremendo esforço a que tal empreendimento obriga. Foi um autêntico massacre. Caixas e caixas que tive de abrir e guardar peça a peça, montanhas de livros, mil bibelots – investigados criteriosamente por ele que me apontaria um gosto duvidoso em meia dúzia deles – roupas nossas, da casa, etc., loiças, quadros, espelhos, tapetes, tudo o que possam imaginar que faça falta a uma mulher possessiva e a um homem vaidoso e com exigências técnicas a nível de máquinas e equipamentos. Graças a isso, temos um excelente plasma, um frigorífico americano que produz gelo em cubos, em cubinhos e água geladíssima. Ainda bem que os homens adoram essas tecnologias. No entanto, só em arrumações lá se passaram outros dois meses.
A bebé dormia a maior parte do tempo. Quando acordava bebia o seu biberão, mudava-lhe a fralda e regressava ao meu martírio de desencaixotar mais e mais acessórios. No fim, a casa ficou linda. O pai da bebé ofereceu-me uma divisão inesquecível: um closet, como dizem no Brasil, ou um quarto de roupa à portuguesa. Fui às lágrimas. Ter a minha roupa toda arrumada naquele espaço é um enorme prazer para quem sempre cultivara essa fantasia e agora a via tornada realidade. O meu sogro, que tantas vezes me diz – no que eu acho que é uma lavagem cerebral ainda que inconsciente da parte dele – que as virtudes do rapaz superam os defeitos é capaz até de ter razão. Pelo menos, no capítulo da casa, o pai da bebé foi incansável e exigiu sempre o melhor.
Com a minha atenção virada para o lar não tive tempo ou capacidade mental para gerir a questão dos quilos a mais, ou seja, continuei uma baleia e, só de me ver nas fotos do baptizado, vêm-me calafrios ao corpo todo. Como desejei, então, ser igual àquelas mães de ventre liso dos anúncios… Nunca se vê uma mãe anafada banhar o seu bebé ou mudar-lhe a fralda. Ou sequer esboçar a mínima dificuldade na tarefa. São sempre lindas, sorridentes e de uma magreza invejável. Porém, a realidade é bem diferente como denunciavam aquelas fotos perenes. Um dia, também a bebé vai ver como a mãe pertenceu à espécie dos mamíferos marinhos: um cetáceo raro ou uma foca deslumbrante. Enfim, tenho de puxar a brasa à minha sardinha…
Graças e desgraças, só sei que quando não conseguimos emagrecer dá-nos uma depressão fatal. Ninguém nos pode ouvir falar mais de dietas e, discretamente, mudam de assunto, ou consolam-nos com o “estás sempre bonita” mas, só nós é que sabemos como odiamos os espelhos. Uma vez, uma lojista minha amiga confidenciou-me que uma cliente sua estava super abatida, pois já tivera o filho há dois meses e todas as pessoas ainda lhe perguntavam para quando era o parto… Maldita história que não me saía da cabeça… Estaria eu também naquelas condições? Na verdade, parecia mesmo estar grávida, mas aquela barriga de princípio, três, quatro meses. Se alguém me fizesse uma pergunta do género eu acho que me suicidava na hora.
Com a questão do físico adiada até à conclusão das arrumações e decorações, dediquei-me de corpo e alma ao nosso espaço. A bebé também tem o seu quarto, embora confesse que ainda não a mudei para lá. Fez agora cinco meses e gosto de a ter a dormir no berço ao meu lado. O restolhar da borboleta – pendurada no interior da cama – sempre que ela se vira em ângulos verdadeiramente acrobáticos é um som que muito aprecio. Ajeito-a, acaricio-a, canto-lhe, alimento-a, beijo-a à distância de um braço. Para mim é reconfortante.
Mas o quarto dela é engraçado. A cama acabou de chegar. É de ferro, foi toda pintada de branco e pertenceu ao meu pai – senhor já na casa dos 90 – quando ele era bebé. Comovem-me estas antiguidades com valor sentimental. Também no quarto dela dispõe de uma cómoda dos meus bisavós e de uma cadeira de criança da mesma época. É a única divisão cor-de-rosa da casa. Possui cortinados floridos e um candeeiro de pé verde alface que me custou os olhos da cara e que eu teria feito igual ou melhor quando me debrucei sobre ele com mais atenção. Para compensar essa minha falta de visão comprei-lhe uma casa de bonecas em pinho no Vassoureiro e pintei-a e decorei-a ao meu gosto. Comprei-lhe bonecas à medida – lil’Bratz – e adoro que ma elogiem. A minha mãe, que tem um feitio muito especial e pouco contemplativo com minudências, diz sempre que eu fiz a casa mas foi para mim…
Estes elementos novos e coloridos cortaram aquele ar vitoriano que o quarto tinha. Graças a Deus, que não havia perdido, lá pelo sótão dos meus pais, um cavalo de baloiço de madeira, ou bonecas de porcelana, ou carrinhos de bebés antigos, todos eles me arrepiam e fazem lembrar filmes de terror! Daqueles em que as rodas deslizam sem que sejam empurradas e os olhos de vidro da bonecada parecem encerrar almas do outro mundo… Quando mudar a bebé vou usar os intercomunicadores que o pai, o senhor da tecnologia, comprou há muito. Só espero que ela seja super feliz nesta casa. E nós também.

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