quarta-feira, 18 de julho de 2007

Uma espia na casa do amor

A bebé tem o estranho hábito de me fixar durante longos momentos a fio. Estou a dar-lhe o biberão e ela não desvia os olhos, afasto-me para ir buscar algo e, os seus olhinhos escuros como duas azeitonas seguem-me. Estão sempre cravados em mim. Dir-se-ia que me espia. Se me ausento muito mais do que dois minutos, logo reclama atenção. Também já sorri muito e puxa-me o cabelo. Tenho de o prender, caso contrário sou mais um brinquedo naquelas pequenas mãos, sacudido com violência.
Quando dorme – ainda no seu berço – a bebé posiciona-se toda contorcida como um ponto de interrogação. Saberá que a coluna dela não é flexível ou os bebés são iguais aos gatos nos ruídos e gestos? Igual mesmo é ao pai dela. Quando nasceu, ainda tinha horas, e já todos comentavam essa parecença. A carinha é uma miniatura versão feminina do pai. As orelhas idênticas. Transpira como ele e já tem algumas manhas paternas… Espevitada, só gosta de ver e mexer em tudo. Uma pequena cusca. E agora adoptou o sofá dele, onde neste preciso momento dorme deleitada. Devido à inclinação das almofadas não está na sua posição de arco, valha-nos isso!
Outra coisa que os une é comerem o doce e o salgado misturados. O pai da bebé come sempre doces antes e durante a refeição. Uma vez, uma fotógrafa minha amiga referiu esse pequeno prazer proibido pela nossa educação. Isto é, os nossos pais ensinam-nos que os doces comem-se no fim das refeições e, também ela, quando se apanhou a viver sozinha extraía vivo prazer na transgressão dessa norma. A bebé é seguidora da mesma filosofia: sopa e fruta sabem melhor juntas. O que fazer?
A minha mãe acha que a neta vai ser hiperactiva. Às vezes, surpreende-se com as birras e, embora as tente apaziguar ao jeito dela, embalando-a e tal, diz sempre: “Nenhum de vocês era assim.” Pois… Uma coisa interessante é que a bebé não reage muito bem ao timbre de voz da minha mãe. Ela sempre falou muito alto e é um pouco ríspida, o que incomoda a princesa habituada à voz doce da mãe e à vozinha protectora da outra avó, sempre solícita com o seu “pronto, pronto” ao mínimo choro. Por isso, muitas vezes, só de ouvir a minha mãe a bebé franze o sobrolho para deleite do pai dela… “A bebé não gosta da tua mãe” diz, todo ufano mas, não é verdade. Ela incomoda-se com a estridência do tom. Também já a vi sorrir e palrar para a avó materna, toda contente. Infelizmente, os meus pais não dispõem do tempo e da capacidade física para estarem com a neta como gostariam. E aí, os meus sogros ganham aos pontos.
É engraçado que, quando casamos, não ganhamos só um parceiro. A nossa família cresce com os sogros e cunhados. E claro, as discussões e as antipatias saltam logo. Quem é que nunca ouviu frases do género: "O melhor dos teus pais foi terem-te feito?" ou "Só podes ter sido criada por outras pessoas é a única explicação racional?".
Porém, no meu caso, não tenho razões de queixa. Gostava que a minha família e o pai da bebé fossem mais comunicativos – e, às vezes, até são – porque eu gosto imenso dos meus sogros, sempre gentis e disponíveis, desde o primeiro momento. A minha cunhada é uma pessoa muito reservada mas, quando trocamos impressões, acho-a sensata, directa e com um excelente sentido de humor. E o ideal é mesmo as famílias darem-se bem porque… temos sempre natais pela frente, não é? E não há nada pior do que passar uma época festiva com os nervos e outras indisposições à flor da pele. É também importante para a bebé sentir que as pessoas que gostam dela são todas amigas. A minha mãe sempre me contou lindas histórias dos meus avós paternos e manteve com o sogro dela uma relação quase de pai e filha até à morte deste. Acho bonito. São casas onde reina o amor que merece ser observado – espiado – e absorvido. Quem é amado sabe amar. E a bebé vai dar cartas.



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