domingo, 8 de julho de 2007

A César o que é de César



Rebentaram-me as águas à uma da manhã de uma segunda-feira. E embora soubesse que a minha barriga estava condenada a desaparecer, não deixava de temer esse mesmo momento por puro horror ao desconhecido.
Assim, depois dos ditos pastéis de Belém e de uma excursão por uma feira de antiguidades – na qual ainda hesitei perante um magnífico óleo do pintor das meninas gordas de cabelos encaracolados, réplicas eternas da sua própria mulher – foi já em casa, dez minutos depois de nos termos deitado, que o meu grito o fez saltar da cama: “Estou a sangrar!”, gritava em pânico, pois só sentia um líquido quente descer-me pernas abaixo com uma intensidade forte, estilo quando abrimos demais a torneira e a água sai disparada com força. Eu não controlava aquele jorro e não me atrevia a olhá-lo. Assustei-me porque ainda não estava no tempo. Faltava um mês e uma semana. Pensei que estava a abortar.
Ele olhou para mim, nervoso: “Não vejo sangue nenhum! Não vejo sangue nenhum!”, quando nos enervamos temos a estranha mania de bisar. Já nas nossas discussões é o mesmo… Enfim… Cada casal tem as suas bizarrias.
E eu depois lá me forcei a olhar e vi que estava limpa. Sem uma gota de sangue mas a minha roupa torcia-se e escorria água. Ainda tentei meter um penso que logo se encharcava e balbuciei: “E agora?”. Entre cigarros dele e lágrimas minhas telefonei para o meu obstetra: “Tenha calma. Vá para o hospital que lá as enfermeiras tomam conta de si”, tranquilizou-me.
Por azar, até os preparativos falharam... A célebre mala para a minha roupa e a da bebé, presente materno, não estava comigo. Para a semana que se iniciava tinha marcada a terceira ecografia, por isso pensava que podia arranjar tudo, inclusive apanhar a mala destinada à maternidade. Mas uma partida súbita obrigava-me a atirar com camisas, chinelos, cuecas descartáveis, faixa pós-parto e meia dúzia de produtos de higiene pessoal para um saco, o primeiro que me veio à mão. Quanto às mudas da bebé, ele levaria depois, uma vez que a maior parte da roupinha dela também já não estava connosco.
Chegámos ao hospital e eu fiquei numa sala, monitorizada. Ele teve de voltar atrás. Na pressa, esquecera-se do livro de cheques. Conduzia em excesso de velocidade, nervoso e, claro, foi mandado parar por um polícia. Multado? Nem por isso. Explicada a situação, o bom homem ainda o levou a uma florista que era de um familiar e, às tantas da manhã, em pleno trabalho de parto, aparece-me com um ramo de flores… Fez-me rir e às enfermeiras: “Ainda a bebé não nasceu e a mãe já tem flores”, comentavam sorridentes. Ele e as suas inacreditáveis histórias…
Quando se concluiu que a posição da bebé não permitia o parto normal porque estava de pés suspirei de alívio. Eu, que tanto me batera pela cesariana – apesar do meu médico ter dito que era melhor esperarmos e ver como o bebé descia e tal – via assim satisfeita a minha pretensão. Obrigada, bebé. Também não tive leite e, como me horrorizava a ideia de amamentar, fiquei radiante. Assim, ninguém me podia acusar de nada. São as leis da Natureza. Umas têm, outras não. E as minhas maminhas lá se safaram…
Foram três dias complicados. Com as enfermeiras a ensinar como alimentar e banhar e essas coisas todas. A partir desse dia e nos dois meses seguintes nunca mais tive privacidade no quarto. Pais, sogros, irmãos, cunhados, primos, tias, por aí. Claro que o motivo das visitas não era eu mas a minha pequena bebé, uma resistente linda, que nascera com 2260 quilos e 43 centímetros. Logo no segundo dia abateu 300 gramas mas disseram-me que todos os bebés perdiam peso e que era normal.
Quando a bebé nasceu deu-se a trapalhice do parto de três em um, isto é, contei três asneiras crassas: primeiro, estive horas a sofrer trabalho de parto desnecessário porque este acabou por não ser natural; segundo, só avancei para a cirurgia com a dilatação já toda feita, correndo o risco de ver-se o pé da bebé cá fora a qualquer instante e, terceiro, a epidural não fez efeito e lá seguiram para a anestesia geral com o médico muito nervoso e as enfermeiras a elogiarem-me a coragem.
Porém, quando tudo acabou, senti-me muito orgulhosa. Ver a minha bebé ao meu lado, embrulhada numa manta, com a fealdade própria dos recém-nascidos mas um milagre meu, vida que brotara de mim e que eu amaria incondicionalmente até morrer. O dia em que fui mãe foi o mais doloroso e belo de sempre. Guardo-o como único e irrepetível.

Sem comentários: