Não gosto quando as crianças são baptizadas e já fazem e dizem montanhas de gracinhas sem graça nenhuma para a importância de um sacramento como o baptismo. Eu fui baptizada aos três meses e a bebé também. Só a ideia de lhe acontecer alguma fatalidade e ela me ficar no limbo deixava-me numa pilha de nervos. O pai da bebé disse-me que o Papa abolira o limbo. Olhei-o incrédula. Também João Paulo II se pronunciara contra a inexistência do inferno mas nós sentimo-lo bem perto e quase todos os dias… Por isso, com limbo ou sem limbo, eu queria-a baptizada e depressa. Há realidades invisíveis que ou se crêem ou não mas, apesar de eu ser católica não praticante, sei bem a lição e, a bebé também seria iluminada pela luz do espírito santo e unida a Jesus, participando assim no seu mistério pascal. Para muitos isto é chinês mas para se morrer e ressuscitar, passando da morte do pecado para a vida eterna, tem de se ser baptizado, tem de se ser filho de Deus. Se a bebé seguir ou não a vida cristã, logo se vê mas, pelo menos, tem a graça, a força e o amor. Os dons do baptismo são maravilhosos.
Escolhemos o meu irmão mais novo e a irmã dele para padrinhos e optámos por fazer uma festa muito íntima, apenas para as nossas famílias nucleares. Porém, uma tia minha e uma prima casada e de cuja filha eu sou madrinha também foram convidadas. Sempre se alargou o número de convidados com estas excepções de última hora…
A madrinha ofereceu o vestido lindíssimo, a vela e os sapatinhos, o primeiro par do meu anjo que se sair à mãe rivalizará com a célebre filipina…
Falei com um sacerdote amigo da família e escolhemos a igreja. Comprámos as estampas de recordação e mandámo-las gravar: “Hoje nasci para Deus”, uma frase linda que, de uma forma tão simples enuncia o que é o baptismo. A bebé nasceria para uma vida nova vivendo a felicidade de ter Deus como pai. E que bem que sabe quando rezamos na esperança de que algures Ele nos oiça. Não sou praticante como disse, não vou à missa, não comungo, fiquei-me pela profissão de fé e não cheguei a fazer o crisma mas, quando estou muito feliz ou miserável é no Pai do céu que encontro amor e conforto. Por exemplo, não me canso de Lhe agradecer todas as coisas boas que me acontecem e o facto de ainda ter os meus pais vivos, comigo, ao meu lado, sobreviventes de edema da glote, ele e, atropelamento, ela, entre tantas outras peripécias que lhes podiam ter já ceifado a vida… E, muito obviamente, agradeço-Lhe o facto de ter tido uma filha linda e saudável, o maior milagre da minha vida de fumadora inveterada e criatura dada a inconstâncias.
A cerimónia correu bem, com a bebé a contorcer-se toda na altura em que sentiu a água na cabeça. Não pude deixar de rir mas fi-lo educadamente. A água e as palavras do sacerdote é o que todos vemos e ouvimos mas o significado para lá do visível comoveu-me: a bebé seria amada e salva, como filha de Deus. E quando o celebrante disse: “Que Deus lhes conceda – aos pais – a bênção de a ver crescer”, apercebi-me de que não sou eterna e que posso morrer antes de a ver uma mulher feita e, tal imagem de privação fez-me chorar. Uma lágrima e outra que rapidamente disfarcei, pois todos os olhos estão postos na mãe e eu sempre defendi a célebre fleuma britânica, ou não tivesse estudado em Sherborne.
Depois de concluída a papelada, bateram-se sempre fotos e fotos e lá seguimos para o jantar. A bebé na sua linda veste branca e, claro que apesar de gorda, também trajei umas calças brancas porque me enerva ver pessoas vestidas de preto em casamentos e baptizados já que contrariam o princípio da luz e da felicidade. Assim, numa sala linda de tons vermelhos e brancos jantámos pratos muito refinados e todos os convidados apreciaram o repasto. Mesmo o pai da bebé que, ao princípio, tanto protestara com a hora, a data, a frase das estampas, a igreja, etc. Ele é que escolheu o fotógrafo e, o álbum, que acabei de ver – demorou séculos a chegar – está um encanto. Mais tarde, a minha bebé vai vê-lo e partilhá-lo com quem ela amar. E sentirá, em cada página, o amor e a vaidade dos pais dela, dos avós e tios. Foi há dois meses, no 13 de Maio e já parece que foi há uma eternidade, dado o pulo que ela deu. Já agarra o biberão com as duas mãos e está bem mais comprida e saltitona. No outro dia, escorregou-me da espreguiçadeira – não a tinha amarrado – e aterrou-me no tapete… Prevejo dias difíceis.

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