quarta-feira, 11 de julho de 2007

Mimos para mim



Depois do parto, segui para casa da minha mãe. A ideia era ficar lá dois ou três meses, rodeada de miminhos e de ajuda, claro está. Para mim, um bebé era um extraterrestre. Apesar dos livros que possuía sobre o tema nunca consegui ler nenhum de forma ordenada. E a minha mãe tinha tido três filhos.
Curiosamente, ele quis vir também. Disse-me que não o podia privar da filha e lá fomos os três para junto da minha família que ele classificaria de “disfuncional”…
Na realidade, nenhuma família é perfeita mas o momento não era para críticas antes para entendimentos globais. Eu mal me podia mexer, a bebé recém-nascida e prematura era a fragilidade por excelência e ambas precisávamos de apoio.
Porém, as coisas correram de forma desastrosa. Muito ocupada com o seu trabalho, a avó da minha filha – a que me devia auxiliar – nem sequer férias tirou… Primeira neta, nos primeiros dois meses, crescia sob os meus cuidados e os da empregada dela, uma rapariga brasileira, amorosa e dedicada, também ela mãe de outra menina de três anos.
Durante esse tempo, usei uma faixa horrível que me marcava a barriga, mudei o penso à cicatriz e sangrei alguma coisa. Nunca me ocorrera que as mães precisassem de tantos produtos à volta delas. Entre os meus e os da bebé, enchíamos uma cómoda fraldário, excelente compra que me poupou as costas até hoje.
O que devia ter sido um alívio foi também em parte um pesadelo. É certo que não cozinhei nem lavei nada durante esse período. A Áurea nem um body me deixava lavar, abençoada seja! Assim, as tarefas de casa reduziram-se ao leite e às fraldas da bebé. Acordava muitas vezes à noite, de duas em duas horas para alimentá-la e confortá-la. Às vezes, ele revezava comigo. Mas como trabalhava e eu não, a maior parte do tempo deixava-o dormir em paz. Hábito esse, entretanto e, volvidos cincos meses, profundamente enraizado…
A pior parte foi o meu antigo quarto transformar-se numa espécie de acampamento de ciganos. O meu lado de miúda arrumadinha alucinava por completo. Só de olhar para a pilha de coisas que eu acumulava escondidas por trás dos cortinados dava-me vontade de chorar. Dentro dos armários, lá hibernava a tal roupa que ainda não me servia nem serviria tão cedo, a não ser que perdesse os vinte quilos por milagre. A sensação era de sufoco. O meu antigo espaço já não era meu. As visitas não ficavam na sala e entravam sem cerimónia. Não me deixavam abrir a janela para arejar com medo de perderem o pimpolho numa gripe fatal e o resultado foi tão mau que os cortinados ganharam bolor e os cogumelos começaram a espreitar por entre as minhas caixas de sapatos…
Aproveitámos para tratar de uma série de tretas burocráticas: o registo da bebé, claro, inscrição dela no centro de saúde, cujo cartão ainda espero, inscrição no seguro de saúde dele através da empresa, inscrição nas finanças e… inscrição no Benfica, com uma promoção qualquer que só os fanáticos da Luz devem perceber. Tão pequena, a bebé já tem um belo naipe de cartões.
Mas não só. Antes mesmo de nascer, já tinha uma série de presentes: roupas, mantas, brinquedos, acessórios e tal. Os mais preciosos foram a supracitada cómoda para mudar as fraldas e dar banho da Chicco, o berço – lindo de morrer que o meu pai ofereceu – e o carrinho Loola da Bebé Confort, com direito a tudo, ovo, alcofa, cadeirinha, etc., oferta dos pais dele e verdadeiramente preciosa. Em cor-de-rosa, ou um ameixa próximo. E last but not least, o esterilizador de biberões, dado pela cunhada de apurado sexto sentido.
Foi dentro do ovo que ela saiu da maternidade e é sempre lá dentro que viaja no carro, no lugar da frente, obrigatório até aos seis meses. O que pode chocar quem não tem filhos e pensa que as crianças vão sempre atrás. Ah! E vai virada contra a estrada, ou seja, na posição contrária à de quem conduz. O que devo confessar que é terrível porque só me apetece ajeitá-la e namorá-la e quando dou por mim já abriu o sinal e um tarado qualquer apita-me para seguir. Enfim, terei de encontrar um autocolante mais garrido e maior de “Bebé a Bordo”.
Os dois meses passaram-se, tratou-se da papelada da bebé, foi às consultas e vacinada e tudo correu bem. Entretanto, a nossa nova casa estava pronta – o eterno atraso das obras – e foi com redobrada alegria que me mudei para os arredores, satisfeita por deixar o mofo do quarto e respirar o ar puro da brisa marítima. Novo lar, uma família linda, tudo a estrear… Sentia-me a Kate Winslet na proa do Titanic.

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