Tudo começa com a gravidez. Confesso que não gostei nada. De estar grávida, não da ideia de ser mãe e de ter um bebé. Mas aquela barriga imensa, os enjoos, as gengivas a sangrar, os pés e as mãos inchados como balões, os mamilos escuros e os meus pequenos seios a quadruplicarem no soutien, tudo isso me arrasou. Não era eu. Comecei a evitar os espelhos e deixei de ter prazer algum nas roupas ou calçado que usava. Adeus saltos e peças delicadas e finas a esvoaçarem no meu corpo. Adeus jeans justos e olá jeans hediondos de cintura elástica… E apesar de tudo, a roupa das mulheres grávidas tem feito progressos. Adorei a Formes no Saldanha. Foi essa loja que minimizou o problema da roupa. Sugiro vivamente. Mesmo assim nada nos impede de chorarmos um inteiro guarda-roupa que irá ficar parado no tempo. Nove meses ou mais. Temos de ter em conta a recuperação pós-parto. O que para algumas de nós é muito complicado. Mas isso fica para outro dia.
Por agora, a gravidez. Todos os meses o corpo se deforma. O ventre pesa-nos e obriga-nos a inúmeras idas à casa de banho. Não andamos mas arrastamo-nos. As pessoas são mais simpáticas. Atendem-nos com um sorriso, temos prioridade nas filas dos supermercados e nas repartições públicas, direito a lugares de estacionamento. Só não podemos ver balanças à nossa frente ou miúdas magras. Ambas nos deprimem. Na gravidez devem-se evitar as colegas mais giras com as quais privávamos outrora. Não lhes dar a satisfação de nos verem transformadas em sapos. A mim, só me apetecia andar tapada e escondida, passar 24 horas por dia fechada em casa.
E o sono? No primeiro trimestre hibernamos como verdadeiras ursas, o que é um sinal inequívoco da medonha transformação que se aproxima. Mal passa a fase do sono vêm os enjoos que batem qualquer mal-estar marítimo. E a gula. Caramelos de fruta. Comia-os à pazada. Nunca mais os pude ver. Mas não os comia sozinha. Ele comia tanto ou mais do que eu. E incentivava-me. “Vá lá, um doce não te faz mal. Vou trazer um Molotov para casa, boa?”. Foi assim durante oito meses. Sim, até a bebé se deve ter cansado, pontapeando para sair mais cedo do que devia, após uma overdose de pastéis de nata de Belém…
E o sexo? Quase chorei ao ver o filme “Munique”. Não pelo drama dos atletas israelitas massacrados em 1972, mas sim por ver o Eric Bana – aquele actor lindíssimo – a fazer amor com a mulher gravidíssima. Ele a perguntar-lhe: “Quando devemos deixar de fazer?” e a resposta dela: “Nunca.” Pois comigo foi o contrário. Fizemos duas ou três vezes e a pedido. Ele temia pelo bebé. Francamente… Eu receava por mim. Julguei enlouquecer. Custou-me horrores. Nunca pensei que fosse o tipo de homem que parasse numa altura dessas, que me privasse do que eu tanto gosto. Ou seja, para além de todas as privações, até essa tive de penar. Custou-me mais do que todas as outras. Psicologicamente quebrou-me. Eu até podia aguentar a ausência de exercício físico do meu saudoso ginásio imposta pelo médico com a argumentação da gravidez de risco, ou tolerar que a roupa acumulasse pó no meu quarto de solteira a quilómetros de distância, ou aguentar-me sem as massagens de adelgaçamento que tanto bem me faziam no passado mas … sem sexo? Devia existir um sindicato onde as mulheres grávidas se pudessem queixar. Apontar o dedo ao marido e dizer: “Esse aí, não me assiste mais.” Talvez a coima fosse afrodisíaca.
Gorda, carente, destituída do meu velho eu, restava-me passear pelos quarteirões circundantes, enterrada num velho chapéu e com a cara tapada por um cachecol dos bons velhos tempos, até a bexiga se queixar. O que logo acontecia. E foi assim no princípio, antes do bebé. Tive sorte com o cabelo que continuou fabuloso – toda a dor se concentrou nos dentes e gengivas – e nunca vesti uma malha nesse penoso Inverno porque andei sempre encalorada. Cabelo? Quando ele me veio com a teoria de que tinha de o deixar de pintar, aí sim, impus-me a valer. É que o tango exige dois dançarinos mas nas minhas madeixas mando eu!!!

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