O andar ao lado do nosso está em obras há séculos. Antes de as ditas começarem vivíamos tranquilos, em grande serenidade, num piso quase despovoado. Mas estes fulanos do A resolveram estragar tudo. Literalmente tudo: paredes deitadas abaixo, chão de mármore substituído, etc. O barulho ensurdecedor das marteladas e das máquinas é de ensandecer qualquer um… quanto mais uma pequena bebé. Ainda em camisa de noite, toda desgrenhada e de nariz empinado, deu-me uma daquelas raivas que me cegam momentaneamente e dirigi-me à maldita porta: “Os senhores não sabem que eu tenho uma bebé de meses e que não podem estar a fazer esta barulheira?”. E o chefe de obras com aquele descaramento típico deles, a simular um ar de cordeirinho inocente quando há segundos atrás martelava que nem um possesso: “Pois… Tem razão.” “Eu sei que tenho razão”, ripostei sem piedade: “Mas o que tencionam fazer?”. “Olhe, ainda bem que apareceu porque nós estávamos mesmo para lhe ir bater à porta.” “Claro… sim… e os elefantes têm asas, o Pai Natal existe e as galinhas têm dentes sem placa bacteriana”, pensei, furiosa. E ele continuou: “Diga-nos quando pudermos avançar. Assim, se soubermos que a bebé está a dormir… esperamos.”
Cocei a cabeça danada. Aquilo não era solução. A bebé dorme várias vezes ao dia e em momentos imprevisíveis. Decidi avançar com a única opção viável: “Fazemos assim: vou pôr a bebé em casa dos meus sogros e, vocês, até ao final desta semana partem o que têm a partir e tal mas para a próxima já estão mais calminhos.” “Isso era óptimo! Nós esperamos que a bebé saia e depois impulsionamos isto tudo e para a semana é como se já nem tivéssemos cá!”.
Voltei para casa, lavei a bebé e massajei-a com os cremes especiais – é o momento SPA da bebé – e depois da sopa e do frango triturado e da papa de fruta, lá seguimos para casa do meu sogro. Como seria de esperar, os avós paternos ficaram radiantes de ver a princesa e, com a história das obras, até pernoitou lá duas ou três noites. Eu ia visitá-la, claro, mais o pai dela. Mas, curiosamente, sentia-me isso mesmo: uma visita da minha própria bebé e não a mãe dela. Isto porque os meus sogros são super possessivos com a neta. Mesmo entre eles disputam a atenção da garota. Porém, existem campos bem delineados: é a minha sogra que lhe faz a comida, a alimenta, troca as fraldas e põe o creme. Por seu lado, o meu sogro pavoneia-a ao colo o tempo inteiro, brinca com ela, leva-a a passear e mostra-lhe tudo e mais alguma coisa, fazendo-lhe todas as vontades reais e imaginárias: “O que queres bebé? Estás farta de estar aqui? Então, vamos dar o nosso passeio. Olha, já viste o fato que o avô te comprou? Pareces uma atleta. Agora é que vamos dar uma volta e só aparecemos quando tivermos fome, não é?”. E desaparece do nosso ângulo de visão…
“Venham ver a bebé a pôr o creme nas pernas”, anuncia a minha sogra como se fosse um espectáculo inédito em nossa casa. Ela gosta assim, ela gosta assado, ela não gosta disto e adora aquilo, etc. Somos informados pelos avós do que devemos e não devemos fazer à nossa cria… Confesso que, uma vez que tenho todo o tempo do mundo com a bebé em casa, até gosto de a ver nas mãos de outros familiares que tão bem cuidam dela mas os meus sogros exageram… Só vejo a bebé de relance a passar de colo em colo. Até o pai dela quando a tinha há segundos nos braços sofreu um voo a pique do pai dele que, peremptório, lhe arrancou a bebé com um “não a estás a segurar bem, ela gosta é de estar assim” e, deu meia volta, sumindo-se com a neta pelo corredor decorado com mil e uma fotos da bebé.
Sem a bebé em casa, as obras avançaram. Eu pisgava-me para o ginásio e a desgraçada da Nice – saudosa da sua bebé – esforçava-se por limpar a casa, maldizendo os trolhas que não só a importunavam como lhe tinham afastado a doçura dos braços. Desconfio que passa mais tempo a mimar a bebé do que a limpar a casa mas… o que hei-de fazer? Pelo menos sempre tenho o meu tempo para ir tratar do corpo e isso vale tudo.
A bebé regressou e, quando a nova semana arranca, o barulho atenua-se mas … persiste. “Ah… Temos de fazer umas modificações. As paredes da cozinha ficaram tortas.” E vai de martelar de mansinho de manhã e meio selvagem à tarde. Como não posso executar os homens das obras contenho-me e espaireço, saindo de casa e passeando a bebé no canguru. Mas, mentalmente, parece que transporto aquele martelar na cabeça.
Uma destas noites – algo que acontece imenso por esta terra – rebenta-me um aparatoso fogo de artifício. “Olha que giro! Anda ver”, exclama o pai da bebé, que logo se posiciona na varanda, acendendo um cigarro. Mas eu, saturada de marteladas ensurdecedoras durante o dia, chego à loucura com estes foguetes pirotécnicos que abomino desde sempre. “Quero lá saber da ascensão dessas trampas explosivas! Odeio essas cenas populares! Bimbos!”, grito fora de mim. O pai da bebé olha-me desnorteado e, claro, aproveita logo para fazer campanha: “ Ai, se as pessoas soubessem o que eu sofro nas tuas mãos… ”. Homens… têm de ser sempre o centro do universo.

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