segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Falar com ela


A bebé fez dez meses. A grande mudança que registo é o gatinhar aperfeiçoado, ou seja, já não arrasta a barriga no chão mas, apoiada nos joelhos faz as suas diabruras na pista dela, o tapete. Aliás, comprámos um de propósito para estas primeiras tentativas de evasão. E, claro, colocámos cantos de silicone nas esquinas, tapámos as tomadas eléctricas e forrámos as arestas da lareira com barras macias. Deliciada, a bebé percorre a nova área – muito mais enérgica e animada do que quando se encontra “enjaulada” no parque. Porém, abençoado parque que é de uma enorme segurança sempre que quero fazer qualquer coisa estilo um batido, um texto ou uma arrumação, desde que não muito demorados.
A mãozinha que acena é outra gracinha que se tem aprimorado. Este gesto tem tido interpretações várias, sendo a dos meus sogros a de que “ela quer chamar-nos”…
Também consegue levantar-se ao apoiar-se no sofá, no cesto de revistas ou nas nossas pernas quando nos deitamos com ela no tapete. Ri muito quando está de pé, contente da vida com as suas habilidades. E quando ri exibe quatro dentinhos: dois juntos em baixo – os primeiros a nascerem – e dois juntos em cima, um já bem saído e o outro a romper. E morde, o que é um encanto. Adoro sentir os dentinhos dela morderem o meu dedo que coloco provocadoramente na boquinha dela.
Li numa dessas bíblias de bebés que, aos dez meses, devemos começar a falar mais com eles. Mesmo que não entendam o significado das palavras começam a repeti-las. Até agora são monossílabos mas já ouvi o mã mã mã. E adorei, claro. O que ela diz desde sempre e com grande desenvoltura é “olá”. Às vezes, fica a cantarolar “olá” montanhas de tempo. Mas as cantarolices no estado de deitada perdem para os gritos de descoberta pela casa fora. Imagino quando andar mesmo e correr… Ainda assim, já tropecei num ou noutro brinquedo e vamos só no princípio.
Já tem um telemóvel e um computador para bebés de 12 meses. Adora luzes e sons, à excepção de um coelho de peluche que só de o ver sorri de imediato. Possui imensos brinquedos mas depois de esgotar um até à exaustão parece cansar-se dele para nunca mais. Acho que tem a quem sair mas não me apetece alongar sobre esse assunto.
Desisti de montar árvore de Natal. Ela é tão pequena que o pobre pinheiro só iria provocar mais uma preocupação. E não devem ficar bonitos forrados de silicone. Tenho a pedra da lareira com os ícones natalícios. Estão lá o Presépio, os bonecos de neve, as renas, o pai natal e, até, um boneco de gengibre caixa de música muito original. E chega. Quando for mais crescida terá a sua árvore com bolas e luzes a sério.
Pessoalmente sempre amei a quadra natalícia. Porém, este ano que deveria ser o melhor natal de todos os natais… sinto-me péssima. Perdi o espírito. Há pessoas assim: não descansam enquanto não estragam tudo de bom que nós temos. As ilusões são as primeiras a ir e sem magia não há Natal. Mas ela é tão querida que felizmente não vai saber desta minha tristeza. E eu sei que vou passar mais natais com ela e que, se Deus quiser, serão bem melhores.

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

O ar que se respira

Despedimo-nos de Novembro todos doentes cá em casa. Há duas semanas que andamos a espirrar, tomar mil e um comprimidos, gastar rolos e rolos de papel e a suar na cama que nem doidos. A bebé também ficou muito afectada por contágio nosso. Levei-a ao médico e como os pulmões dela estão cheios de secreções não houve outra alternativa senão fazer aerosolterapia. Como não tenho nenhuma máquina dessas e há três dias atrás não conhecia ninguém que tivesse uma aluguei à Gazin.
Vieram prontamente entregá-la – depois da burocracia de sempre ao telefone – e com os medicamentos já alinhados num tabuleiro preparei-me para a novidade. Sim, tudo é novo quando se é mãe pela primeira vez mas digamos que algumas coisas já as esperamos e estamos somente na expectativa de acontecerem estilo o nascimento dos dentes, enquanto outras apanham-nos totalmente de surpresa.
Assim, lá meti as gotas, ampolas e soro no aparelho e liguei a coisa. Começou a sair o vapor curativo para a bebé respirar. Inicialmente, o pai ainda lhe tentou colocar a máscara mas os gritos dela foram esclarecedores. Mais tarde, ele confirmou que os colegas no trabalho que faziam isto aos filhos também não usavam máscaras e que este processo era uma coisa muito normal e também nós devíamos comprar uma máquina para uso futuro porque os outros as estavam sempre a usar.
Como o meu marido foi asmático em pequeno e ainda hoje é alérgico a uma série de coisas talvez não o incomode tanto este cenário de nevoeiro londrino. Porém, faz-me imensa impressão administrar este tratamento à bebé. Não é que ela sofra. Fica aborrecida e protesta mas não gosto de a gasear com o maldito tubinho azul. E não posso acreditar que ela vá precisar de fazer isto muitas mais vezes. Fico com a terrível sensação de que não tenho uma filha saudável.
O médico disse que no primeiro ano de vida é cada vez mais normal os bebés terem toda a espécie de alergias mas que depois elas passam. A nossa já teve a pele numa autêntica desgraça e nem dois meses e meio tinha… Culpado o leite, lá passou a beber um Pepti danado de se encontrar nas farmácias – só por encomenda – e ainda agora três meses depois de findar o prazo para os bebés o beberem (diz na lata até aos seis meses) ela continua a bebê-lo porque o médico ainda não achou por bem mudar-lhe o leite...
Este Outono/Inverno em menos de dois meses a bebé já sofreu duas valentes maleitas. Também ele é encharcada em medicamentos e eu aspiro-lhe o nariz e trato bem de tudo e mais alguma coisa. Mas não posso acreditar que vá ser sempre assim.
Uma amiga minha contou-me como a filha dela foi sempre doente, teve o tímpano aberto e não pôde ser operada (em Portugal não o faziam antes dos 12 anos), as otites que apanhou no infantário, as operações em Londres, a ligeira surdez de que a miúda padece, embora tenha dado a volta por cima e hoje estude música na Áustria. E como a filha viveu sempre tantos problemas não sobrou tempo para lhe dar irmãos.
Penso como é complicado este processo de ser mãe. O fardo é maior quando os filhos exigem mais atenções e cuidados do que os outros. Sempre admirei as mães que superam todas as barreiras para cuidar dos filhos doentes. Mas o que quero é ter uma filha saudável e sem máquinas barulhentas à volta dela.

sábado, 24 de novembro de 2007

Por fim... MAGRA!!!!!!!!!!!!!



Depois de uma terrível luta contra a balança e os espelhos, eis que entro na minha antiga roupa, gosto de me ver reflectida e maquilhada, amo os meus acessórios e sinto-me ALIVE!!!!!!!!!!
Tudo isto graças a uma série de medidas fantásticas que mudaram mesmo as minhas curvas. Segura e confiante até parece que a vida é mais bela! Eu, pelo menos, voltei a agarrar a beleza e é uma sensação sublime. Regresso às roupas que agora me servem perfeitamente e assentam tão bem na minha nova cinturinha e inovei no penteado. Tirei volume, fiz umas madeixas giríssimas e pareço uma Barbie Hard Rock Café.
Todas as semanas tento andar o mais possível e qualquer dia começo a correr junto ao mar que é para atingir a versão Barbie Top Model. Agora a sério, eu assumo que colecciono estas bonecas e sou viciada nelas. Mas só aquelas mesmo especiais. O meu critério é: não as quero com vestidos de fadas, princesas, sereias e por aí fora.
Para mim, uma boneca Barbie só tem valor quando parecem mulheres reais em miniatura com todos os nossos mais belos apetrechos e roupas de cortar a respiração. Tenho várias lindíssimas e para este Natal já encomendei outras tantas. Fico ansiosa à espera delas. Como uma menina. Para mais, não consigo dissociar o Natal dos brinquedos. E a minha boneca preferida – a bebé, claro – vai dar o seu primeiro mergulho natalício, isto é, imagino-a a submergir no meio de tanto papel de embrulho espalhado pelo chão…
Ela adora mexer em papel. Por vezes, mastiga-o. Ou então, baba para cima dele e rasga-o todo. Já dizimou várias revistas antes de eu dar por isso e lhas tirar logo, claro. Sei bem que não deve brincar com elas mas não sou nenhum polvo com nove braços e agora a malvadinha ensaia os primeiros gatinhanços.
Só nesta temporada já apanhou duas valentes constipações. É muito duro vê-la com os olhinhos lacrimantes e ouvi-la protestar sempre que lhe aspiro o narizito. Não suporto ver a bebé doente… Fico com a sensação de que não estou a ser uma boa guardiã.
Mas sempre que estamos juntas sinto-me mesmo mais feliz. Ficamos bem porque somos as duas bonitas e eu adoro passeá-la sem complexos. E deliro quando encontro alguém que me diz: “Mas você não tem barriga” ou “emagreceu imenso”. Ah, como fico delirante!
Para uma mulher, a maternidade é sempre algo de belo e sagrado, contudo não devia deixar marcas. Eliminá-las é quase impossível. Li algures que quatro em cinco mulheres nunca perdem a gordura acumulada durante a gravidez. E é por causa dessa devastação física que a mulher/mãe se transforma em bicho-do-mato não querendo sair e conviver mais. Até a relação do casal sofre com isso. Porém, solucionado o problema físico renasce toda uma nova disposição e o nosso espírito irradia bem-estar. Daí que compreenda e seja a favor de todas as transformações que nos façam revestir a alma. Só quando nos sentimos bem connosco podemos olhar para os outros. É o chamado processo dor de dentes. Quando alguém tem uma dor de dentes só pensa nisso e em nada mais. Sarada a dor, a pessoa já volta a interessar-se por outros assuntos.
Ser mãe não tira a sensualidade a uma mulher. O que nos afecta é o corpo que demora a “sarar”, a falta de paciência e de tempo, o excesso de trabalho tripartido emprego-casa-bebé, as guerras familiares, as desilusões e a escassez do sexo. Tivéssemos todas uma vida tranquila e mimada – com baby-sitters, manicures, massagistas, motoristas, cabeleireira ao domicílio, depilação a laser, ginásio in-doors, piscina aquecida, acesso a compras ilimitado, festas giríssimas e férias em ilhas de sonho – que ser mãe não nos tiraria um grama de feminilidade.

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Mães famosas e... sem filhos

A ideia de qualquer mãe perder os filhos por ordem do tribunal é assustadora. Em Portugal, a lei defende a mulher e favorece-a na maioria dos casos. Facto ou mito? De qualquer modo, nos puritanos Estados Unidos da América o cerco aperta-se a toda e qualquer mãe que – independentemente da fama – negligencie a sua prole.
Vem tudo isto a propósito de um tribunal ter retirado temporariamente a custódia dos filhos à cantora e bailarina Britney Spears. Para qualquer miúda, aos 25 anos, perder a custódia de dois filhos tão novos – Jayden James tem 1 ano e Sean Preston 2 – o cenário é devastador. Porque seria diferente para a cantora?
Irritam-me até à quinta casa todos aqueles que a condenam por tudo e por nada. Primeiro, o mundo rendeu-se ao corpo tonificado da Princesa da Pop. Agora, todos a marginalizam e razões não lhes faltam: é porque rapa o cabelo, ou porque mostra a lingerie ou mesmo mostra que não a usa, ou porque bebe álcool e consome drogas, ou porque está gorda e decadente, ou porque é uma louca por compras, etc. Antes da maternidade, os mesmos excessos num corpo de sereia não chocavam ninguém. Depois de ter parido dois filhos e de se ter divorciado de Kevin Federline tais comportamentos já não são aceitáveis. Ou seja, a uma miúda famosa e boazona perdoam-se os devaneios e até se fazem programas sobre as excentricidades dela. Mas depois de ser mãe, a censura lembra-se de carimbar-lhe a cara de negro. Não está certo.
Acredito que Britney Spears esteja a aprender a ser mãe. Não é tarefa fácil e ninguém nasce ensinada para a desempenhar. Os bebés dão montanhas de trabalho. Depois, Spears tem ainda de lidar com uma separação. Por acréscimo, o próprio corpo dela – outrora tão desejado – modificou-se. Ela engordou mas acredito que consiga emagrecer, assim como muitas outras celebridades que têm todos os meios para isso. Entretanto, esteve parada. A carreira dela sofreu com a opção família. Vai ser difícil arrancar, encontrar a disposição para o pontapé de saída. Mas enquanto ela luta por se reerguer é preciso desancarem-na a torto e a direito? Não será a inveja universal a funcionar?
“É uma criança a tomar conta de crianças”, disse um dia um dos seus guarda-costas. E que bela frase. Aceito-a como a mais acertada até agora. O que Spears precisa é de estímulo e de apoio, tanto dos seus amigos como dos seus familiares. Casou no auge da fama. Já alguém disse em público, numa cerimónia de entrega de prémios, que os seus dois filhos tinham sido os seus dois erros mais adoráveis… Calculo que seja duro ouvir isto e muito mais. Mas é fácil dar pontapés quando um pobre diabo está no chão…
Muitas outras mães famosas perderam temporariamente a custódia dos seus filhos por excesso de álcool ou drogas, entre elas Kim Delaney, Courtney Love, Paula Pounstone e Tantum O’Neal. Todas elas voltaram a ter a custódia total ou parcial dos filhos.
Não defendo que uma mulher – famosa ou não – que tenha condutas de risco, nomeadamente o conduzir embriagada ou consumir drogas, passeie os seus rebentos alegremente. Tanto ela como as crianças estarão em risco. Porém, não podemos acusar Britney de ter feito algo menos próprio com os filhos ao lado. E ninguém duvida que ela os adora. Tem os seus problemas, como todos nós, e desejo que os saiba ultrapassar.
Não me lembro de nenhuma mãe famosa ter morto os filhos mas lembro-me de mães que saem do anonimato por o fazer… E, às vezes, as coisas acontecem quando menos se espera. Isadora Duncan, por exemplo, essa bailarina doida perdeu os filhos quando a ama deles e o motorista afundaram o carro no Sena… Adorava que Britney calasse as más-línguas e voltasse a surpreender tudo e todos com um regresso magnífico. Mas, sobretudo, espero que consiga encontrar-se a si própria e saiba ser feliz. Por ela e pelos filhos.

domingo, 21 de outubro de 2007

That's what mothers do

Aruba é uma ilha nas Caraíbas, ao largo da costa da Venezuela. É território autónomo da Holanda, separado das Antilhas Holandesas. Como seria de esperar, o holandês é a língua oficial, embora, curiosamente, o dialecto local seja oriundo do português. Mas mais do que um cenário paradisíaco Aruba está marcada – desde o dia 30 de Maio de 2005 – como sendo o local de desaparecimento de Natalee Holloway. Mais de dois anos volvidos sem até à data se encontrar indícios da jovem estudante norte-americana, a mãe dela – Beth Holloway – dá à estampa o livro “Evidence of Faith – Loving Natalee: The True Story of The Aruba Kidnapping and its Aftermath”. Lançado este mês, o livro é o testemunho de esperança e fé de uma mãe que um dia deixou a filha partir numa viagem de finalistas de liceu para nunca mais a ver. Uma mãe que ainda grita a sua esperança não só porque esta é a última a morrer mas também porque como ela própria afirma: “I’m supposed to be Natalee’s ultimate protector. That’s what mothers do.”
Aos 18 anos, Natalee e 124 colegas de Mountain Brook High School, de Alabama, E.U.A., partiram numa viagem de cinco dias. Todos regressaram às suas casas e respectivas famílias menos ela. A última vez que a viram foi a sair de um bar – onde se comentava que era preciso beber com cuidado porque “metiam coisas nas bebidas” – à uma e meia da manhã, na companhia de três rapazes: Joran van der Sloot e os irmãos Deepak e Satish Kalpoe, tendo todos seguido no carro dos Kalpoe.
No quarto de hotel dela ficaram a mala, o passaporte, o telemóvel e a máquina fotográfica. Objectos sem dona, testemunhas esquecidas da jovem que não só perdeu o voo de regresso como, segundo crêem as autoridades da ilha e holandesas em investigações conjuntas que se arrastaram até o passado mês de Setembro, também terá perdido a própria vida.
Os três jovens suspeitos foram interrogados e contaram diferentes versões dos acontecimentos. A 9 de Junho de 2005 chegaram a ser presos por suspeita de rapto e assassínio de Natalee. Segundo a polícia, logo a partir do terceiro dia do desaparecimento da jovem, montaram um cerco apertado aos rapazes, espiando os seus passos, colocando escutas telefónicos e mesmo monitorizando os seus e-mails. Mas por pressão da família de Natalee viram-se obrigados a prendê-los antes que pudessem apanhar qualquer prova incriminatória.
A versão dos dois irmãos Kalpoe remetia a “culpa” para Van der Sloot e vice-versa. Entre três histórias diferentes, a polícia acredita naquela em que os Kalpoe deixaram Natalee e Van der Sloot numa praia. Isto, porque segundo a polícia, “uma jovem de Alabama não ia ficar no carro com dois miúdos pretos”.
Outros suspeitos foram presos, em parte devido aos testemunhos dos rapazes. Porém, tão depressa entravam como saiam. Também os irmãos Kalpoe foram libertados mas presos de novo a 26 de Agosto. Porém, a 3 de Setembro todos os suspeitos foram libertados e onze dias mais tarde foram-lhes retiradas por um juiz todas as acusações.
Joran Van der Sloot vive agora na Holanda, onde se encontra a tirar um curso. Em entrevistas posteriores reclama não ter dito a verdade antes por se ter sentido envergonhado ao ter deixado uma rapariga sozinha na praia, ainda que a pedido dela…
Os irmãos Kalpoe chegaram a ir ao famoso programa do Dr. Phil. Todos à solta e todos livres de qualquer acusação…
Para a mãe de Natalee, os três mentiram. Ela acredita que a filha foi violada e morta. Alguns colegas dela disseram que Natalee bebera o tempo todo e que viram Joran Van der Sloot lamber um shot entornado propositadamente na barriga dela. Dizem que Natalee também teria droga com ela, não se sabendo, contudo, se esta a terá usado. Mas mesmo que Natalee bebesse uns copos e fumasse erva seria esse comportamento tão diferente dos outros jovens americanos e holandeses num contexto de viagem de finalistas?
A mãe de Natalee é acusada de se centrar em demasia nos três jovens, descartando toda e qualquer outra teoria respeitante ao desaparecimento da filha. Para ela, Natalee foi violada pelos três e assassinada às mãos deles. Mesmo sem provas, acusa-os sempre que pode, em qualquer entrevista que lhe façam. Beth, que partiu logo para a ilha à procura da filha recorda: “I don’t have a stone that I didn´t turn over.”
Beth Holloway é fundadora do International Safe Travels Foundation que dá dicas a 15 mil estudantes de 20 estados: é preciso desenvolver um sistema de protecção, activar as chamadas para o estrangeiro no telemóvel – roaming – quando se parte em férias, nunca dizer a estranhos quando a viagem acaba, etc. “É necessário evitar que outra família passe pela mesma experiência”, declara entre a mágoa e a raiva.
Ainda em Abril deste ano, a casa dos pais de Joran van der Sloot em Aruba e a área à sua volta foi toda virada a pente fino pela polícia. Também em Abril, Van der Sloot publicou, com a ajuda de um repórter, o livro “The Case of Natalee Holloway”.
Pessoalmente, custa-me acreditar que se deixe sozinha na praia uma rapariga a quem se lambeu a barriga num bar… E também não creio que uma rapariga pedisse para ficar só numa praia desconhecida. Mas, uma vez mais, não temos cadáver.
Lembro-me das três jovens italianas na ilha do Sal, Cabo Verde. Foi em Fevereiro deste ano. Duas assassinadas e uma terceira – de 17 anos – que consegui fugir. Uma delas foi enterrada ainda com vida, cheia de terra e de areia nos pulmões, como revelou a autópsia. Se a terceira não tem fugido e levado as autoridades ao local do crime contando todo o horror daquela noite de violação e morte, até hoje jazeria ao lado das outras, silenciada pela areia. E os dois cabo-verdianos criminosos seguiriam as suas vidas alheios ao massacre cometido. Aliás, se fossem cultos talvez escrevessem um livro sobre o desaparecimento de turistas na ilha. Porém, perante as provas e testemunho da adolescente confessaram o crime. Giorgia Bussoto, de 28 anos, e Dalia Saiani, de 27 anos, foram agredidas na cabeça com facas e apedrejadas até à morte. A autópsia efectuada às amantes de windsurf detectou sémen na vagina das duas.
Não sei se Natalee Holloway também tinha um buraco escavado na praia à espera dela. Mas sei que a intuição de Beth não deve andar longe da verdade. Pena é que não se consiga provar que as meninas, adolescentes e mulheres não se evaporam à face da Terra…

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Meninas perdidas

Uma das minhas leituras de férias foi “A Estrela de Joana”, da autoria de um ex-inspector da PJ, Paulo Pereira Cristóvão. Como todos os portugueses sentia curiosidade em saber o que de facto teria acontecido à Joana. Por outro lado, o facto de o livro ter sido escrito por um dos polícias envolvidos na investigação tornava aliciante espreitar para a forma como a nossa polícia – tantas vezes criticada como elogiada – trabalhara neste caso. Sendo também eu mãe de uma bebé lindíssima de oito meses recentemente feitos foi mais outro motivo: se tenho uma menina e, se neste país, elas desaparecem deixa-me cá acautelar.
Sobre o funcionamento da PJ fiquei esclarecida. Não são profissionais a trabalhar antes se desenrrascam. Por exemplo, em vez de selarem a tempo e horas uma sala ou uma casa para a equipa forense trabalhar arrancam pernas de sofás e retalham colchões para estes serem analisados em laboratório. Disse equipa? Afinal parece que era só uma mulher munida de uma luz mágica… Têm boa vontade estes senhores. Mas só isso é insuficiente. A falta de coordenação entre uns e outros é total. A intromissão da senhora directora da prisão onde se encontrava detida Leonor Cipriano é disso exemplo. Como gerir interrogatórios e silêncios quando alguém não autorizado pretende descobrir o grande segredo estorvando o trabalho extenuante de outros? E uma pessoa que se tenta suicidar pelo vácuo do corrimão de umas escadas e falha fica com a cabeça cheia de hematomas porquê? Chegou a bater nalgum degrau? São célebres as tareias da PJ. Sobretudo quando os suspeitos são jovens ou pobres. Caem sempre numas escadas quaisquer… Leonor não acusou o autor do livro. Aliás, refere que o homem que vê alinhado com outros mais, a interrogou mas que não lhe bateu. Ninguém sabe se lhe bateram ou não. Mas o sistema acreditou na versão da presa e os polícias foram ouvidos. Hoje já não são polícias… Apesar da vontade insana de querermos sacudir alguém que sabemos nos está a mentir e a ocultar informação temos de usar outros recursos que não a força física. Se somos todos tão inteligentes e eles são pobres e básicos, de certeza que há outros métodos para extrair confissões… Ainda bem que a Kate Mccann não se quis atirar por umas escadas abaixo durante as 11 horas de interrogatório a que foi sujeita. Caso contrário, teríamos mais picardias entre a nossa e a polícia deles.
Sobre o conteúdo do livro acho-o puro, no sentido em que a PJ trabalha mesmo assim e ainda bem que pudemos confirmar aquilo de que há muito suspeitávamos: não são competentes mas fazem o que podem e com os meios que têm. Também com a Maddie as coisas não podiam ter sido diferentes. Ser a própria polícia a descurar os eventuais locais de crime é mau. Ser polícia para mostrar prepotência e andar com um revólver atrás do cu ainda é pior. Fiquei com a impressão de que precisamos de investigadores, de psicólogos, de detectives e inspectores que saibam trabalhar em equipa sem que o ego de uns atrapalhe o de outros. Fornadas de gente nova e pura, bem-intencionada. Não admira que haja tanto desemprego no país. Os cargos estão realmente vagos. A PJ precisa de um pulmão novo, de muito oxigénio para se libertar da gangrena que a corrói.
Não é isso que vai impedir que miúdas deste país sejam esquartejadas por mães e tios incestuosos e enviadas em pedaços colocados debaixo dos assentos de automóveis vermelhos para serem prensados em Espanha. Ou não é isso que vai impedir que uma miúda inglesa desapareça de um quarto onde foi abandonada pelos pais. Mas pode fazer com que se encontrem as provas dos homicídios admitidos sem cadáver. Ou fazer com que os homicídios se admitam E uma evidência é bem diferente de uma especulação.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Plantar uma árvore



Ter um filho, escrever um livro e plantar uma árvore. Por qualquer ordem serve. A mim faltava-me a parte da árvore e, por isso, arregacei mangas e com a ajuda do meu sogro plantei uma Golden Delicious no quintal dele. Gostei imenso. Era uma árvore muito fininha mas com ar de que ia sobreviver. Com a enxada na mão sentia-me radiante pelo meu feito. Até pincelei o tronco de cal e tudo! E reguei-a, claro. Sempre coordenada e auxiliada pelo meu sogro, que de árvores percebe e bem. É proprietário de castanheiros antigos de uma floresta mágica, cujo terreno pode ser feito de erva macia, a qual afunda sob os nossos pés ou emaranhados caminhos de fetos e amoras, silvas que picam e troncos grossos deixados ficar como homenagem a árvores inimagináveis de tão imensas que eram. Existem muros de pedras sobrepostas e muitos declives por onde nos podem espreitar abelhas assassinas. Uma delas veio directa aos meus lábios. Enxotei-a e corri, e ela sempre a dar em cima, até que se enfiou pela minha t-shirt. “Quando as abelhas atacam não devemos fazer gestos que as irritem”, disse-me, mais tarde, a minha mãe. É a lógica do ataque dos tubarões: não se mexam e tal que o tubarãozinho passa ao lado, uma vez que são os movimentos que o atraem. Muito bem: e quem é que consegue, num ataque, ficar PARADO? Quem? É dar ao slide e rezar para que todos os santos ajudem. E o de Compostela ainda se devia lembrar do meu abracinho apertado.
Consegui sair quase ilesa. Picou à superfície mas não deixou ferrão. Menos mal. Nada que uma pomada não atenuasse.
No meio de tantas árvores, a minha vai ser mais uma. Contudo, é a minha árvore. Sou mãe dela. Ajudei-a a nascer e vou velar por ela, mesmo que seja a quilómetros de distância por telepatia e boa vontade. Sinto que neste mundo sujo e poluído já fiz a diferença. Dei-lhe mais um pulmão. Pequenino mas bem intencionado. E as maçãs até podem revelar-se deliciosas como o nome sugere.
Um parto, dois livros publicados e uma macieira plantada. Posso morrer em paz. Isto é, como ser humano já fiz a minha parte. Não é que não quisesse publicar muitos mais livros. Oh, se queria! Ter mais rebentos é que não. E árvores, por mim, era uma floresta! Adoro o campo, o sussurrar das folhas, o silêncio da noite e a alegria dos grilos, sem esquecer o brilho das estrelas. Mas também não me vejo como camponesa. O meu lado trendy e citadino impede-me de deixar a civilização. E nenhum amor se sobrepõe ao MAR. Um dia gostava de ter a minha própria editora. É um sonho. Publicar os meus livros e todos aqueles que aprovássemos por serem originais e belos. Ou inquietantes. Porém, ainda não me saiu o euromilhões. Talvez um dia herde e possa realizar esse desejo. Até lá, vou continuar a fazer aquilo que gosto e sei. Escrever e ler até que os olhos me doam! E, de vez em quando, respirar uns ares marítimos ou campestres, dependendo da psicose do clã.

A sombra da outra

O ambiente já estava tenso mas algo veio ainda perturbar mais o cenário. O pai da bebé deixou o telemóvel na sala do andar de cima e quando por ele passei assinalava nova mensagem. Como o meu marido é muito dado a convívio alheio li algo que me deixou – até hoje – em Marte: “Não há nada para resolver. Vamos mas é fazer amor e tomar banho juntinhos.” Explodi… Imagine-se a cena: eu desvairada com o telemóvel dele na minha mão, trémula, a ler em voz alta aquele SMS nojento, ele que, entretanto, viera do andar de baixo a tentar apanhar-me – nessa altura já eu me escapara para o quarto e estava de pé, em cima da nossa cama, a brandir a prova – a mãe dele com a bebé ao colo a perseguir-nos e a gritar: “Não acredite nisso! Isso é tudo mentira! É mentira! Ele gosta é de si! Olha a sua bebé!”, e por último, o desgraçado do meu sogro – única pessoa que é lúcida e fenomenal naquela família – a exigir o “deixem-na em paz”.
Fechei-me na casa de banho e fiz o que nunca se deve fazer mas como não acredito em nada do que diz o pai da bebé telefonei à fulana. A colega de trabalho dele lá me disse o quanto estavam envolvidíssimos, o como ele não gostava de mim mas ficava comigo só por causa da bebé e que ela, coitada, nunca reparara sequer que ele era um homem casado e nunca se imaginara na pobre situação da amante, da outra. Enfim… Enquanto mantinha este estimulante diálogo em vésperas de fazer um ano de casada, o meu marido tentava arrombar a porta a pontapé, acto no qual foi bem sucedido, tendo partido a porta e ferido o calcanhar que o pai dele viria a cuidar e a desinfectar meticulosamente nos dias seguintes…
É interessante as pessoas tirarem férias porque precisam. E férias de férias destas… não se tiram? O enredo felliniano não podia ser mais perfeito… E depois? O que se faz numa situação destas? Chora-se, insulta-se, grita-se a palavra divórcio a plenos pulmões e percebe-se porque acontecem tantos crimes passionais no norte do país.
Peço ao meu sogro para me trazer de volta a Lisboa. Ele está muito triste. E até envergonhado. O filho tem sido uma surpresa desagradável. Mas é filho. Numa confissão desesperada diz-me que a vontade dele era desfazer-se de tudo e fechar-se num lar. Ignorar o mundo. Mas depois lembra-se que o filho sozinho desgraça-se mais depressa. Teme-lhe as companhias e os vícios. Olha para mim e entendemo-nos sem mais palavras. É duro ser pai. É duro ser mulher de um homem imaturo e desleal. Estamos no mesmo barco. Profundamente desapontados.
De regresso a casa, exijo que o pai da bebé esclareça a situação de uma vez por todas. Ele nega tudo. Fala de uma vingança feminina por não lhe dar o troco que ela queria. E eu faço o que todas as mulheres que têm uma filha de sete meses fazem: finjo acreditar. Ligo o automático e sigo viagem. Literal. Vamos passar uns dias a Santiago de Compostela. Fazemos amor, até. O que é tão raro em nós. Este homem vai conseguir apagar-me o desejo… Numa magnífica operação de charme ou compensação esmera-se em agradar-me. É um passeio simpático. Eu abraço o santo e peço PAZ. Ele pede mais um filho que não terá. Pelo menos, não serei eu a mãe. Não foi assim que imaginei o meu casamento. Estou descrente de tudo. Apetece-me morrer. Fechar-me e desaparecer. Só a minha bebé vale a pena. E eu amo-a perdidamente. Não sei se ela um dia irá ler este blogue. Sei que todas as acções provocam reacções. E que os gestos das pessoas ficam impressos na vida e no coração dos outros.

Isto ainda não é o Paquistão

Porque será apanágio masculino falar mal das sogras? Países como o Afeganistão e o Paquistão vêm-me à mente com alguma regularidade. Em particular quando - como mulher casada e mãe - passo duas semanas em casa dos meus sogros em Trás-os-Montes, sentindo-me uma propriedade da família do meu marido que ditam quando devo comer, descansar e passear, sem direitos nem vontade em relação à minha própria bebé. Haverá algo mais paquistanês? “Coma sossegada”, “durma descansada”, “vá tranquila” eram expressões repetidas com o único objectivo de me sacarem a miúda. Ora, uma mulher enerva-se. Uma mãe que se preze e saiba o que é ser mãe fica fora de si. Então tem alguma lógica eu ficar de braços cruzados durante quinze dias e esquecer-me de que sou mãe? Há alguém que o consiga fazer?
Uma coisa é nós, os pais, irmos para qualquer lado e a bebé ficar ao cuidado dos sogros. Outra totalmente diferente é estando com eles, partilhando a mesma casa sermos ignorados enquanto pais. Foi como se nos passassem um atestado de incapacidade. Alimentar, adormecer, passear a bebé passaram a ser tarefas que a minha sogra tomava a peito com exagerada gana. Aquilo foi de tal modo, que até para lhe limparmos o rabo ou sacar macacos do nariz exigia uma conversa diplomática de modo a não se ferirem susceptibilidades. A mesma sogra que não se dava com a dela e agora exerce este comportamento doentio. Tal como o Cato da Pantera Cor-de-Rosa atacava-me mal eu punha o pé no corredor. Como me sobressaltavam as suas investidas inesperadas: “Hoje está muito frio é melhor vestir-lhe um casaco”, ou “ela já bebeu o leite”, ou “vai dar-lhe banho?”. Sobressaltada e trémula devolvia-lhe um bom-dia irónico que acabou por desaparecer de tão saturada.
Claro que me queixei ao pai da bebé. Disse-lhe: “Ouve lá, a tua mãe tem uma psicose qualquer. Isto não é normal. Não me importo que tome conta da bebé e até agradeço toda a ajuda e tal mas agora, connosco aqui, tem de haver equilíbrio. Ela é a minha filha! Quero ser eu a dar-lhe banho e a vesti-la. Não vim carregada de roupas para a tua mãe andar a vestir-lhe as dela!”. E isso é outra estória… Os meus sogros fazem questão de comprar roupa para a neta e vesti-la à maneira deles, o que é mais uma cena inexplicável… Não sei quantos pais iriam tolerar isto.
O crescendo foi a proposta de numas próximas férias comprarem uma cama para ficar no quarto da bebé com a finalidade de a minha sogra dormir junto da pequena!!! Dá para acreditar em tamanho absurdo? Saltou-me a tampa e declarei bastante furiosa que isso nem pensar! Se tivesse de dormir com alguém dormia comigo! E aproveitei para lhes explicar que de futuro as coisas iam ser diferentes: eu trato da minha bebé e fico perto dela e ninguém mais me arranca a miúda dos braços ou se o fizerem rolam cabeças. Juro que fiquei atónita com tudo isto. E esse mal-estar profundo ainda não me abandonou sequer. Continuo em estado de choque. Pior: ganhei aversão. Nunca mais vou passar pelo mesmo. Quem quiser ser banana que fale por si. Mas à primeira todos caem e à segunda só cai quem quer.
Tensa e irritada com toda esta situação, os dias lá se passaram, comigo a contá-los com uma ansiedade há muito esquecida. Lembrava-me do meu colégio interno e de como marcava os dias com uma cruz na ânsia de regressar a casa. Foi mau. Muito mau. Arrasou-me psicologicamente. E depois uma pessoa tem de se conter para não dizer mesmo o que pensa e tal. Uma merda. As sogras, sendo mulheres, nunca são punidas e acabam por escapar a todas as censuras… Até quando?!?!?!?!

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Fazer as malas


Após o segundo mês de tratamentos perdi, segundo o BL, mais uns 17 centímetros. O peso manteve-se. Muito estranho este fenómeno de diminuir de volume mas não de peso… Na realidade, sinto os meus braços e pernas óptimos, apenas a barriga morta estraga tudo… Cada vez estou mais mentalizada para pôr em marcha o plano B, assim que vier de férias em finais de Setembro.
Partimos no próximo sábado e a ideia de mudar de ares começa a ganhar forma. Constato que cada vez mais me custa fazer malas. Antes, quando viajava muito por causa da profissão, até achava super divertido e comprava acessórios mil para os destinos que me esperavam. No entanto, nas minhas últimas viagens tenho sentido grande desmotivação para arrumar as minhas coisas. Uma vez no local adoro perder-me em compras e encher a bagagem de regresso. Mas é o fazer as malas para partir que me quebra por dentro. Afinal, descobri que é um suplício para a maioria das pessoas. Quase ninguém gosta dessa tarefa, assim como da viagem em si. Apenas a ideia das férias, do descanso e divertimento conforta e entusiasma quem parte.
Mas vejamos como simplificar o processo. Em primeiro lugar, tenho de consultar o boletim meteorológico para optar pelo calçado e roupa correctos. Ora bem, o meu sogro acende a lareira à noite e, segundo o telejornal, choveu granizo – do tamanho de ovos cozidos – em Trás-os-Montes. Hum… Um bom casaco, guarda-chuva, trench-coat e talvez um corta-vento. Mas céus! Já me parece roupa a mais. E nós vamos apenas de férias, não vamos mudar de casa! Quantas calças posso levar? Eu que neste momento só me sinto confortável com umas de ganga da Donaldson? Vestidos nem vê-los. Uma ou duas saias… É uma tarefa quase impossível porque tenho tantas peças lindíssimas num closet que é um sonho mas receio bem que só possa levar meia dúzia de insignificâncias…
A roupa é per si um problema. Se chegar amachucada já é outro. Não pode andar aos trambolhões na mala nem ficar demasiado apertada. Temos de acondicioná-la bem. Sempre tratei maravilhosamente os meus trapinhos. Mal chego penduro e arrumo tudo. Faz quase um ano parti em lua-de-mel e grávida de dois meses e meio. Neste momento, a minha semelhança física com o ano passado é notória. Podia estar grávida também. Maldita barriga e malditos genes, por que não sou uma magrinha, eu que com a minha altura e carinha laroca passava logo por modelo? Ai, que tristeza de vida…
Os sacos são bons para levar sapatos. De resto, os produtos de higiene devem ir nos sacos próprios e, por falar nisso, preciso urgentemente de comprar champô e creme amaciador! Uma regra de ouro é: pesados em baixo e leves em cima. As calças vão sempre no fundo da mala e por cima as t-shirts, blusas e tops.
Parece-me que pode ser boa ideia levar repelente de insectos e um canivete suíço. É que o campo oferece outras dificuldades distintas da praia. A questão é que não sei se vou saber usar um canivete suíço… Hum… E os medicamentos? Levar QUAIS? Dinheiro sim, telemóvel sim, máquina fotográfica obrigatória. Se não registo o momento excepcional do encontro do meu sogro e da neta dele é uma falha grave da minha parte. Eu ADORO que o meu sogro ame a minha filha. E por a mencionar… só a mala dela me faz tiritar de medo. E se me esquecer de algo muito importante? É que este bebé vive num império de bens materiais. Já estou a sentir suores frios… Enfim, portas trancadas e tudo desligado em casa, chave entregue à mulher-a-dias e seja o que Deus quiser. É neste sábado mas já estou a bater MAL…

terça-feira, 28 de agosto de 2007

Totalista no Euromilhões

O pai da bebé tem o sonho de um dia se tornar milionário graças ao concurso do Euromilhões. Nessa fantasia dele – na qual, por lei, dividiria o prémio comigo… ainda que a muito custo – o pai da bebé vê-se ao volante de um Aston Martin DBS, o carro do James Bond, no Casino Royale. Depois, porque como me assegura a nossa vida mudaria radicalmente, contrataria para sua segurança pessoal três jovens russas: Olga, Yelena e Tatiana. É um mistério como já as nomeia mas lá me vai avisando que não me quer a interferir com o seu esquadrão protector… Compraria uma casa na marginal – a qual cobiça desde criança – e creio que muitas outras mais. Claro que lhe disse: “Se contratares três russas eu vou querer escolher um mordomo, um jardineiro e um massagista”. Ao que ele retorquiu que eu não tinha direito a essas escolhas, uma vez que ele controlaria todos os gastos da nossa conta milionária.
Por que o pai da bebé se considera o gajo mais giro que alguma vez respirou no planeta Terra nem quero imaginar o que faria se de facto lhe saísse uma exorbitância de dinheiro. A primeiríssima coisa que faria era deixar de trabalhar. Tal como o meu irmão mais novo também ele defende que as pessoas só trabalham por necessidade e que quem tem dinheiro não precisa de suar as estopinhas. Uma vez em casa… o que faria? Calculo que, se fosse milionário, todos os dias teria programas estimulantes: viagens à volta do mundo, praia grande parte do ano, o último grito de tudo o que fosse informática e aparelhagens várias, bolos e doces vindos das melhores casas e pastelarias internacionais, uma ou mais equipas de futebol, grades e grades de sumol de ananás, uma megastore da sua marca de surf preferida e todos os demais negócios que já lhe passaram pela cabeça mas que nunca pôde concretizar.
Chegou mesmo a anunciar: “Como não podíamos ser pessoas normais comprávamos uma propriedade enorme e tínhamos tudo o que precisássemos lá dentro.” E eu fiquei a pensar que Deus é grande e todo-poderoso e que ainda bem que há pessoas que não ganham o Euromilhões. Passar a minha vida fechada numa casa ou com medo de sair à rua ou impedir a minha bebé de ter uma infância normal não me parece nenhum sonho, antes um pesadelo e dos grandes.
Durante um tempo – não muito prolongado – o assunto Euromilhões fica esquecido. Mas quando o prémio acumula inicia-se o processo de loucura. Aposta de forma aleatória sem números fetiche. Já me fez comprar também dez euros umas duas ou três vezes e eu lá acedi, ainda que muito contrariada porque ABOMINO jogos. Quando penso que já se esqueceu da fantasia verifico com algum divertimento que a ideia está cada vez mais refinada e repleta de acrescentos fantásticos. Desconfio que as russas tenham surgido numa inspiração directa das miúdas que servem as bebidas no bar do Casino Estoril. Fomos lá recentemente e, apesar de criticar o bar afundado que as fazia dobrar mostrando o rabo já pouco protegido pela veste reduzida, a verdade é que veio de lá com as russas na cabeça.
Quando lhe disse que se o dinheiro me saísse dava uns milhões aos meus pais e irmãos saltou-lhe a tampa. Creio que não planeia partilhar a parte dele nem com a família que o educou e vestiu nem com instituição de solidariedade alguma. E mais uma vez, só tenho de agradecer a Deus por uma pessoa tão generosa não ser prendada com tal dádiva. Imagino-o a ler este post e a pensar: “Eis a prova como aquela mulher não me deseja sorte! Pois não hás-de ver um cêntimo!”. Mas… é óbvio que gostava muito de ter milhões de euros. É melhor deixar isto bem claro, não vá o diabo tecê-las… Só que eu administro a minha parte e não vou ficar fechada em palácio algum. Se quisesse gaiolas tinha nascido canário. E a bebé voa comigo: em LIBERDADE.






Mutter Courage und ihre kinder



Aprecio bastante a literatura alemã. Em particular, a poesia de Rainer Maria Rilke, assim como a sua prosa e epistolografia. As cartas dirigidas a Lou Andreas-Salomé são das mais belas que li. Quanto a Bertolt Brecht fascina-me a sua frieza e a forma tranquila e, ao mesmo tempo, perturbadora como escreve.
Mãe coragem é um título gasto pelos jornalistas de todo o mundo. É daqueles títulos fáceis e recorrentes. Legenda com duas palavras toda a dor contida numa fotografia de guerra ou numa notícia feroz. Mãe coragem porque se todas as mães a têm esta é talvez a característica mais saliente naquelas que, perdendo os filhos, têm de continuar a viver com todo o esforço inimaginável que essa mesma sobrevivência implica. Mãe coragem porque também perdendo o marido não deixam de ser mães e, apesar de na grande maioria dos casos, obterem facilmente a custódia dos filhos é feita de sacrifícios a vida das mães que ficam sós e que lutam contra toda a espécie de preconceitos e dificuldades.
Mutter Courage und ihre kinder (Mãe Coragem e os seus Filhos) é uma peça escrita por Brecht em 1939. Apesar da data nos lembrar logo o começo da II Grande Guerra, a acção da peça passa-se durante a Guerra dos Trinta Anos 1618-1648. Anna Fierling perde os três filhos nesse conflito. Esta peça permite-nos compreender melhor dois conceitos brechtinianos: o do teatro épico e o de distanciamento/estranhamento (em alemão este efeito de distanciamento ou efeito de algo que se torna estranho designa-se por verfremdungseffekt).
Às vezes, sinto no meu dia a dia esta sensação de verfremdungseffekt tão intraduzível quanto real e sentida. Ou seja, sinto avisos sobre os enredos antes das cenas começarem. Pequenas denúncias, tiques que já sei de cor e, apesar de me concentrar na negação e no desejo do não acontecimento – estilo “não, isto não vai, não pode acontecer” – a realidade logo encarrega-se de chegar à cena e ela desenrola-se sob a minha incredulidade.
Justaposição e mudança de papéis… conheço isso. Altero entre a ira e a calma. Tão depressa me insurjo como ignoro. Sou ao mesmo tempo mãe, mulher, filha e irmã. Uma única estrela pode representar o firmamento inteiro, um único gesto pode provocar uma catástrofe, os dias e as noites podem ser feitos da mesma cor. Não há tempo para desenvolver sentimentalismos ou empatias porque para tudo é preciso tempo e este escasseia ou passa a ser desperdiçado. A peça de Brecht diz-nos que a virtude não é conseguida em tempos difíceis. A mãe, vendedora ambulante, perde os filhos numa guerra em que lucra também. A ideia é levar o público a pensar mas sem se emocionar.
Deveríamos saber avaliar friamente até aqueles que amamos e rendermo-nos, sem fantasias ou quimeras nossas, àquilo de que eles são capazes de fazer ou não. Os adultos cuja personalidade, ao contrário dos adolescentes, já se encontra formada nunca mudam. Podem atenuar certos traços da mesma mas não mudam. E, às vezes, acreditar nas mudanças só nos traz dissabores. O pior cego é aquele que não quer ver…

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Mães no cinema


A Sétima Arte já mostrou todo o tipo de mães possíveis e imaginárias. Curiosamente são poucas as actrizes que gostam de fazer este papel. O motivo deve-se ao facto de Hollywood rotular de uma forma demasiado óbvia quem faz o quê e, depois da mãe interpretada, o difícil é voltar a ter papéis de uma mulher sensual ou minimamente espevitada. Que o digam Kim Basinger, Kahtleen Turner e Debra Winger, entre tantas outras. Lá porque uma mulher é mãe não deixa de ser sexy, de ter charme e desejo de fazer mil e uma loucuras. No cinema e, mais importante, na vida real. Esta ideia de uma mãe estar acabada para o mundo erótico é no mínimo deprimente e no máximo uma grande falsidade. É claro que a maternidade acarreta novas responsabilidades mas nada disso impede que se goze a vida como muitos crêem e fazem crer. Um grande amigo meu disse-me: “Ser mãe deixou-te ainda mais bonita” e olhou-me daquele jeito que me fez corar até à ponta dos cabelos. “Desculpa os meus genes de lince”, gracejou, de seguida, mudando de assunto. E eu pensei: “Que querido. Nem sequer mencionou o meu excesso de peso – o tal que me massacra diariamente.”
De facto, ser mãe é uma experiência única mas não derradeira. Esclarecido este tema das mães de Hollywood, vi recentemente dois filmes, cujas mães por antagonismo e unicidade me intrigaram bastante: “Sonny” (2002), o primeiro filme realizado por Nicolas Cage e “The Pursuit of Happyness”, com Will Smith.
Nesta estreia de Cage como realizador, Sonny (James Franco, o belíssimo amigo do Homem Aranha) é um gigolo, um homem que foi ensinado pela mãe Jewel (Brenda Blethyn), uma prostituta de New Orleans a ser pago para dar prazer às mulheres quase desde criança, ou seja, um natural-born-whore. Nesta relação de interdependência mãe-filho, estão patentes vários aspectos, entre eles a chantagem psicológica da mãe que atinge o auge na frase: “Tu sabes que és a única pessoa que tenho. Diz que sabes”, o interesse pelo dinheiro que só é adquirido através do único investimento seguro que Jewel fez na vida: o próprio filho vendendo-se como prostituto/gigolo. E ele, Sonny, que tenta mudar de emprego e ser um square para depois desesperar e achar que o seu lugar é aquele e que não pode almejar mais nada ou sequer ninguém no destino que lhe foi traçado pela progenitora e que acabará por aceitar na dormência dos seus dias.
Jewel leva o filho a acreditar que sem ele não há vida possível para ela. E apesar dos apelos da jovem prostituta Carol (Mena Suvari) que foge à alçada de Jewel e tenta persuadir Sonny a também fazer o mesmo, este permanecerá ao lado da mãe, sem a qual, por sua vez, se sente demasiado só num mundo de squares. Sem julgamentos morais num filme hiper realista onde o charme e a ordinarice andam de mãos dadas esta é sem dúvida uma relação singular mãe-filho dada à luz na grande tela.
Já no “Pursuit of Happyness” (2006), o pai (Will Smith) fica logo com a custódia do filho (Jaden Smith, filho do actor na vida real). Enquanto que a mãe Linda (Thandie Newton), cansada de trabalhar turno após turno e de ver que o marido não consegue pagar a renda de casa nem vender a mercadoria dele acaba por partir. Neste filme que retrata a vida real de Chris Gardner, um vendedor que chega à Bolsa e vence – muito ao estilo dos filmes que Hollywood gosta de nos impingir a tresandar a sucesso – pouco se sabe sobre esta mãe. Linda apenas desaparece e deixa o filho para trás sem que Chris (Will Smith) se preocupe ou questione mais sobre o assunto. Chris brilha sozinho como profissional e pai irrepreensível.
Uma mãe manipuladora, interesseira e intragável no “Sonny” e uma mãe ausente, permissiva e quase invisível no “Pursuit of Happyness”. Lembrei-me agora de uma outra mãe: a do “8 Mile” (2003), onde Kim Basinger interpreta Stephanie, a mãe do rapper Eminem, o qual se representa a ele próprio na tela. Surge como uma mulher egocêntrica, que negligencia a filha de cinco anos, alcoólica e que passa a vida a discutir e a deitar os sonhos do filho – gravar um disco – por terra… Hum… Estou a precisar de ver filmes com mães heroínas e heróicas. E, já agora, consta que na vida real o rapper e a actriz que fez de mãe dele... andaram enrolados. Viva Édipo, viva!

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Barriga morta

Hoje a minha barriga foi declarada oficialmente morta. Snif... Estava em pleno tratamento nas mãos do BL quando a miúda russa me pergunta: “Tens a certeza que não morreste?”. E eu: “Porquê?”. E ela: “És a primeira a suportar a carga 50 na electro-estimulação na barriga e nem sequer protestas. Só agora consigo ver algum trabalho do músculo.” Animador: primeiro dizem-me que tenho os músculos atrofiados e agora declaram-me a maior suportadora de carga eléctrica ao observarem o pobre abdómen a querer expressar-se através de uma intensa camada adiposa, calculo. Raios! Barriga atrofiada e morta dá que pensar…
E isto ainda me frustra mais dado que o peso na balança estagnou. Agora não engordo mais mas também não emagreço e ainda estou a uns bons seis quilos do meu peso. Estranhamente, o volume continua a diminuir e a minha cintura parece ter reaparecido. O mistério é por que fenómeno sobrenatural o peso não desaparece?
Cansada de massacrar todos com as minhas dietas e a angústia do peso decidi não falar mais sobre o assunto. Menos aqui, claro. Afinal, uma psicose partilha-se para não nos sentirmos tão abatidos e únicos. É óbvio que encontro mães recentes com muito mais peso do que eu e outras que nem parecem ter engravidado… A importância genética também ajuda e a minha família é assim para o cheiinho… Mas tenho um plano B em marcha e isso tranquiliza-me.
Morto também anda este meu mês de Agosto que tanto gosto. Gosto de Agosto. Agosto que gosto. Caramba! Soa bem. Na realidade, este vento que se faz sentir só massacra ainda mais. E a bebé anda meio constipada… Está rouca e isso preocupa-me. Febril. Mas come bem. É uma leoa a comer, como a descreve orgulhosamente o meu sogro. Para o mês que vem vamos ter com ele e passar uns dias de férias no Norte. Vai ser a primeira grande viagem da bebé. Eu também nunca estive por aquelas paragens mas ele já lá está, radiante com a perspectiva de nos ver chegar e de… lareira acesa devido ao frio nocturno! Em Agosto. Que desgosto…
Agora que penso nisso nem quero imaginar o que será fazer as malas da bebé… Ela precisa de tanta coisa! Produtos, roupas, acessórios, brinquedos, etc. Vamos ter de alugar uma camioneta! Mas eu adoro tratar dela: dar-lhe banho, massajar o creme, fazer-lhe o almoço que come cada vez melhor, vesti-la e embelezá-la. E quando alguém a elogia sinto-me mesmo envaidecida. Um dia destes, o pai da bebé comentou: “Nunca deves ter brincado tanto com os bonecos tipo Nenuco como brincas com ela.”
O que é verdade, até porque desde sempre preferi a Tucha, Sindy, Nancy, a Daisy da Mary Quant, entre outras, que se assemelhassem a pequenas mulheres. E, mais tarde, aderi à Barbie, claro, a minha favorita. Os bebés não eram o meu forte. Daí, também, a minha falta de prática no vestir e despir. Se ela tivesse os 29 cm de altura mudava-a à velocidade com que descasco camarões. Muito inveja o meu pai esta minha habilidade natural mas para o compensar também lhe descasco uns e ele lá se satisfaz. Se existisse um concurso televisivo talvez ganhasse umas coroas com esta minha velocidade manual no que toca à mariscada. Dons…
Esta da barriga matou-me o dia. E agora vou deitar-me porque estou a morrer de sono. Vou dormir com a minha barriga morta e pensar numa forma de a matar de vez.

terça-feira, 21 de agosto de 2007

Apesar dos golpes

Estou a ler uma biografia da minha escritora preferida. Já sabia que a relação dela com a mãe não era das melhores. Mas um trabalho aprofundado dá-nos uma outra riqueza de pormenores… sórdidos, até. Enfim, apesar de tudo, ela resume numa frase referindo-se à progenitora: “Mais je l’aime au-delà de cette connaissance que j’ai d’elle et qu’elle n’a pas d’elle-même.” E isto é assombroso. Gostar-se da mãe – que gritava, chorava, sofria comas melancólicos, batia-lhe, não a protegia do irmão mais velho que a agredia também física e verbalmente, da mãe que considerava obscena a ideia de ela se tornar escritora, da mãe que a vendeu a um amante chinês mas rico, da mãe… Continuo a achar extraordinário este laço inquebrantável que se tem com quem nos deu a vida.
Laços… Temo-los com quem amamos. Podem parecer fortes e eternos mas, quando menos esperamos partem-se e, com eles, parte-se o nosso coração, a maneira como vemos os outros e a nós mesmos.
É difícil falar sobre perdas mas pior é mesmo sentirmos essa angústia esmagar-nos os dias e toldar-nos o horizonte. Não há sensação mais atroz do que perdermos alguém quando ainda a amamos. “Perdermos” não porque morreu ainda que nos obrigue a uma espécie de luto em tudo semelhante ao autêntico. O tempo sara todas as feridas, dizem. Mas às vezes o tempo parece atrasar o passo…
Alguém que conheço perdeu a mulher para um outro homem e depois perdeu-o ela porque isto do coração e da tesão às vezes confunde…Foram dez anos de partilha feliz que acabaram em dois meses de cenário de guerra. Consta que se tratou do divórcio mais célere de Lisboa… Já lá vai quase um ano e ele confidenciou-me que quando está com uma mulher ainda sente que lhe está a ser infiel… à mulher desertora da história que antes era feliz. E a solidão continua imensa.
Eu acredito e valorizo todo este sofrimento. Há feridas que não se curam nunca ou então demoram séculos a cicatrizar. Existem pessoas mais sensíveis feitas de pó de estrelas que ousam sonhar quimeras. Fantasiam de olhos abertos, vêem a realidade cor-de-rosa e são felizes assim. Outras sabem que tudo é feio, porco e mau e preferem ver as coisas dessa maneira. Os realistas não têm qualquer tolerância versus os fantasistas. Acham-nos infantis e tristes. Esses curam a perda vingando-se nuns e noutros. Usam muletas como os sonhadores imaginam novas paisagens. Uns não estão para sofrer e outros sofrem em silêncio, com os amigos ou escondem a dor no orgulho que ainda lhes resta.
Triste é perdermos quem amamos. Porém, se soubermos passar por esse inferno uma coisa é certa: fica-se incólume, ou quase, a futuros desaires. A dor torna-nos mestres na vida. Mas que o coração nunca se nos enrijeça. Pois quem sonha e ama e sabe, apesar dos golpes, não desejar mal nenhum ao outro que os infligiu, esse é o mais sábio de entre nós. E o AMOR sabê-lo-á reencontrar.

terça-feira, 14 de agosto de 2007

O poder das mães

Sempre me fascinou a devoção cega que uma pessoa normal – homem ou mulher – tem pela mãe. Crescemos a amar a mãe como se fosse algo tão natural como termos duas pernas ou respirarmos pelo nariz. Mas quando somos mães percebemos que esse amor é algo que não nasce connosco antes se constrói da relação diária entre mãe e filho. Assim, não admira que crianças criadas por pais não biológicos nutram por estes o afecto autêntico e, como tal, muitas vezes ouvimos: “Mãe é aquela que me criou e não a que me fez.”
Todos os dias acordo sobressaltada com os gritinhos ou gemidos da bebé. Agora ela já dorme no seu quartinho e os intercomunicadores tornam-se essenciais. Levanto-me estremunhada para ver o que se passa. Aconchego-a na cama e endireito-a, tapo-a com o lençol, coloco-lhe a chucha ou, em casos mais drásticos, pego-lhe ao colo e tento adormece-la. Aqueço-lhe o leite e dou-lhe o biberão, um gesto que já repeti milhares de vezes. Mudo-lhe a fralda. Encho-lhe as bochechas de beijos. Só adormeço quando ela dorme tranquila. Adquiri uma responsabilidade enorme com esta bebé: sou a mãe dela, a que vela por ela, aquela que a protege e alimenta. Mais tarde, serei responsável pela educação dela, terei que lhe transmitir os valores nos quais acredito, moldarei a minha filha para ser uma pessoa honesta, correcta e exemplar. Isso é o que eu quero.
Por vezes, quando lhe mudo a fralda ou a visto no seu quarto cor-de-rosa imagino-a adolescente, fechada nesse mesmo quarto, com um letreiro do género “Entrada Proibida” pespegado na porta. Talvez a música que ela oiça seja ensurdecedora, ou a roupa demasiado extravagante, o cabelo pintado de azul, os lábios escuros e no chão encontre mortalhas, erva, ou pequenos sacos de plástico com pó branco ao pé de notas enroladas e de CD’s que se misturam com cartões vários. Quando penso nisso, as minhas mãos tremem e sinto-me morrer. Não é assim que quero ver a minha filha mas, às vezes, estas imagens desoladoras saltam-me à mente.
Nós ouvimos tantas histórias e vemo-las desenrolarem-se todos os dias à frente dos nossos olhos. Basta estarmos atentos. Em cada hora que passa perdem-se mil almas, dizia a minha avó. Mas eu não pari esta filha única para a perder. Não a quero perder para nenhum vício nem para nenhum homem nem para nenhum culto ou cataclismo natural ou acidente de automóvel ou fatalidade ou seja o que for.
Vou ensinar tudo à minha bebé. Vou afastá-la do mal e das más companhias. Não a quero a fazer disparates ou ouvi-la a mentir. Quero que a minha filha não saiba o que é uma mentira. Eu cresci na crença de que a mentira é a mãe de todos os vícios. Curiosamente resultou. Ainda hoje não sou capaz de mentir. Posso ocultar informação para não magoar quem me é próximo mas não minto. E se me confrontarem eu digo e conto tudo. Aliás, é assim que os papagaios fazem. Contam tudo a todos na sua ilha tão colorida como a variedade de penas que os enfeita. Repetem. Não sabem falar. Imitam os sons. Não os deformam, contudo. São leais e divertidos, os pequenos papagaios.
Eu desejo o melhor dos mundos para a minha filha. Como mãe dela tudo farei para que ela possa ser uma mulher feliz e que Deus me conceda a graça de a ver mulher feita. Mas sei que apesar de a querer moldar saberei respeitar a sua liberdade. Chegará uma altura em que a minha bebé me vai virar costas e fazer-se à vida. É assim a lei das aves e, por isso, defendem os estudiosos da matéria, que não somos nós que nos temos de adaptar ao bebé mas o bebé a nós, uma vez que já cá estávamos quando eles chegaram. E, naturalmente, por cá ficaremos quando eles partirem, gratos ou ingratos por tudo aquilo que lhes demos. Regressarão com a graça de um neto e terão para connosco um carinho perene ou deixar-nos-ão cair na solidão de uma velhice amarga? Cada pessoa é um mistério, um livro único, uma aventura sem igual. Não há dois destinos gémeos. Gostava de a saber criar e de receber em troca o seu afecto que começa por ser tão naturalmente construído e absoluto e pode findar de mil e uma maneiras.
Enquanto ela for a minha bebé esse é o tempo sagrado. O mais belo momento. Recordar-me-ei do seu pequeno rosto de bebé para sempre ou terei de me socorrer das velhas fotografias? Depois, seguiremos caminhos separados. Mas espero que me guarde sempre no coração dela e que saiba amar como foi amada. E que não minta.


quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Amor tumultuoso

A bebé nasceu de uma reconciliação – a primeira de muitas – entre os pais dela. Zangamo-nos com uma enorme facilidade e, depois, fazemos as pazes e… por acréscimo fizemos a bebé. Foi feita com muito amor é verdade. Com intenção também. Ambos a queríamos. Ele mais do que eu. Ele desde sempre, suponho. Ou desde que me beijou magnificamente numa noite junto ao rio. Disse-me que me desejava há muito. E é curioso porque se recordar um longínquo jantar de grupo recordo-me de ter comentado com o amigo que então me acompanhara apontando o pai da bebé: “Ele é o homem mais belo desta sala.” Ao que o meu amigo me respondeu: “Bem podes encolher as garras que, esse aí, já é comprometido.” Volvidos alguns anos voltámo-nos a encontrar e, desta vez, os dois livres. De novo, o achei o homem mais belo do café onde então se deu o nosso rendez-vous. E mais tarde, do bar. E depois percebi que a beleza dele iria acompanhar-me sempre e encher todos os espaços onde estivéssemos.
Namorámos três meses e casámos em seis, com a bebé já a rondar as 12 semanas… Pelo civil, na casa que sempre amei e onde desfrutei os melhores dias da minha vida. E depois começámos a nossa vida de casados. Não é fácil.
A nossa relação faz-me lembrar a de George Sand – a escritora francesa – com Alfred Musset, eleito aos 17 anos a estrela mais brilhante do cenáculo de Victor Hugo. Musset defendia que amava as mulheres apenas para as atormentar até à morte. Viciado em ópio, escalava a Notre-Dame para assistir ao pôr-do-sol sobre Paris. Cliente assíduo das prostitutas dizia: “On les caresse et on les insulte.”
Irritava-se com a escrita da amante, quase automática, preferindo refugiar-se junto das meretrizes. É ciumento, tão ciumento que, Sand, a fim de o reaver, opta por se afastar da sua corte de amigos... Mas a relação vive momentos selvagens, nos quais ele brande uma faca e ela fala no suicídio. Por fim, o mais forte dos dois põe fim a esta luta, terminando uma relação onde tudo era extâse, furor e literatura.
Às vezes, o pai da bebé grita-me que não é uma personagem e que a nossa vida não é um livro. Ou que odeia ser invisível para mim quando eu o ignoro. Sim, porque ignoro-o muitas vezes. Sempre que me ofende ou magoa faço de conta que ele deixa de existir. É um corpo que não me diz nada. E depois fazemos as pazes.
O pai da bebé queixa-se de ser humilhado quando é ele que traz terceiros para o nosso seio. Seja através do telemóvel ou da Internet. E é capaz de declarar: “Mas agora não tenho nada a esconder”, como se o que tivesse acontecido antes não contasse para nada… “O passado é passado” disse eu, “não se fala mais nisso”. E ele adorou a frase, claro. Todos gostam de finais felizes, perdões, reconciliações, pazes feitas. Afinal, temos uma bebé. Mesmo que não seja por ela, por nós. E se a bebé não existisse? Estaríamos juntos? Casaríamos outra vez? Ele pergunta-me muitas vezes isso: “Casavas comigo outra vez?”.
Às vezes, insultamo-nos e atiramos ou partimos objectos. Eu bebo e vomito. Ele também. Não sabemos gerir a nossa separação mas também tem sido uma dura aprendizagem a nossa união. Quando estamos bem, ele provoca. Diz algo só para magoar, ofender, ferir. Reajo com muita agressividade a essas provocações à toa e desnecessárias. Tenho ganas de partir. De deixar tudo para trás. De acabar com o mito da minha possessividade.
Há dias difíceis e há dias felizes. Hoje começa o meu mês preferido. Espero que feito dos dias de Beckett. Eu amo o pai da bebé. E casava com ele de novo. Mas quero PAZ.

quinta-feira, 26 de julho de 2007

Romance no Parque


Levar a bebé às vacinas é algo que tem sido relativamente rápido e engraçado. Parece que às quartas-feiras é o melhor dia para esta pequena tortura. Claro que no momento em que é picada, a bebé chora e grita desalmadamente, enquanto lhe seguro as pernocas e as enfermeiras cumprem o boletim. Porém, antes do suplício, a bebé adora ver outros bebés que constituem novidade para ela. Sim, porque há aqueles que vão para as amas ou têm primos próximos, irmãos, sei lá. A minha é um caso isolado. Vive com dois adultos e, até agora – apesar de já ter travado conhecimento – tem escapado ao Gaspar, o nosso gato, temporariamente – há séculos… – a viver com os meus sogros.
Desta vez, enquanto aguardávamos que nos chamassem, uma senhora brasileira mais a bebé dela sentaram-se perto de nós. Entre as duas fizeram logo uma grande festa de guinchos, olhares curiosos trocados e babas simultâneas. Ambas com cinco meses pareciam maravilhadas uma com a outra. A Gabriela – assim se chamava a outra bebé – tinha o cabelo num repuxo e era maior. Também a mãe dela me superava em excesso de peso. Confesso que até fiquei com pena dela. Passo a vida a lamentar-me mas há mães que devem sofrer muito mais do que eu quando se vêem ao espelho. Quando me levantei para entrar com a bebé ela lançou-me aquele olhar triste que eu lanço às magrinhas… Como eu a percebo.
Nesse campo, tenho razões para estar mais feliz. Medida e pesada pelo Bloco de Leste obteve-se um resultado satisfatório: menos 27 centímetros – distribuídos por várias partes do corpo – e cerca de 3,5 quilos. Acho que podia ter perdido mais peso mas elas dizem que é melhor emagrecer gradualmente. Mesmo assim, num mês, é uma miséria… Já os centímetros, fizeram-me sentir bem. Sinto que, de facto, estou menos volumosa e determinadíssima a perder mais peso no próximo mês.
Hoje, inspirada pelas boas notícias, resolvi dar uma longa passeata com a bebé. Enfio-a no canguru e, lá vamos nós, a pé pelas ruas mais calminhas. Sempre que um carro passa, a bebé assusta-se e encolhe-se um bocado. Daí, que evite as mais movimentadas. Tranquilas, passeamos junto a moradias lindíssimas, nas quais os jardineiros aparam a relva ou os cães dormem ou fingem dormir. Muitos portões abertos, outros fechados, dão para espreitar para o interior e nos encantarmos com a magnificência da casa ou nos entristecermos com o abandono e ruína de outras.
Não demoramos muito tempo a chegar ao Parque Marechal Carmona. Apesar de mínima, a bebé já adora ver patos e outras crianças brincarem. Sempre que alguém passa por ela e lhe faz elogios, toda ela se derrete em sorrisinhos… Depois de algum tempo junto ao lago, prosseguimos e sento-me num banco à sombra com vista para um relvado onde alguns miúdos jogam à bola. Aqui, suspiro de alívio, enquanto a tiro do canguru e a cubro de beijocas. Não pelo peso porque ela ainda não tem sete quilos mas por ela ser uma menina e as meninas não jogarem à bola.
Estava eu nestas delícias de a beijar, levantar, sentar nos joelhos, pernas e, essas acrobacias todas, quando se aproxima um menino giríssimo, cabelo loiro palha e um par de olhos azuis de fazer parar o trânsito. Dois anos, calculei, se tanto. Parou encantado a olhar para a bebé que lhe sorriu de imediato. A mãe dele, uma inglesa muito simpática apareceu logo atrás: “She’s so cute, isn’t she?”, diz-lhe, enquanto ele se aproxima cada vez mais, verdadeiramente seduzido. Lá partem com um bye-bye e um adeuz.
Quando decidimos sair do parque – a fome do biberão das cinco e meia – voltámos a passar pela dupla britânica. Mas o miúdo já só me viu de costas e eu ouvi a mãe dele dizer: “Look, the pretty baby is going too.” E ele: “Where?” E a mãe: “She’s behind her mother.” Então, ele tenta alcançar-me para a ver uma last time. E, como sou uma romântica tonta, paro o passo e viro-a para ele. Mais uns olhares e uns sorrisos e deixámos o David completamente knokcout. Ai, esta bebé… Vai destroçar corações…

segunda-feira, 23 de julho de 2007

Fogo de artifício


O andar ao lado do nosso está em obras há séculos. Antes de as ditas começarem vivíamos tranquilos, em grande serenidade, num piso quase despovoado. Mas estes fulanos do A resolveram estragar tudo. Literalmente tudo: paredes deitadas abaixo, chão de mármore substituído, etc. O barulho ensurdecedor das marteladas e das máquinas é de ensandecer qualquer um… quanto mais uma pequena bebé. Ainda em camisa de noite, toda desgrenhada e de nariz empinado, deu-me uma daquelas raivas que me cegam momentaneamente e dirigi-me à maldita porta: “Os senhores não sabem que eu tenho uma bebé de meses e que não podem estar a fazer esta barulheira?”. E o chefe de obras com aquele descaramento típico deles, a simular um ar de cordeirinho inocente quando há segundos atrás martelava que nem um possesso: “Pois… Tem razão.” “Eu sei que tenho razão”, ripostei sem piedade: “Mas o que tencionam fazer?”. “Olhe, ainda bem que apareceu porque nós estávamos mesmo para lhe ir bater à porta.” “Claro… sim… e os elefantes têm asas, o Pai Natal existe e as galinhas têm dentes sem placa bacteriana”, pensei, furiosa. E ele continuou: “Diga-nos quando pudermos avançar. Assim, se soubermos que a bebé está a dormir… esperamos.”
Cocei a cabeça danada. Aquilo não era solução. A bebé dorme várias vezes ao dia e em momentos imprevisíveis. Decidi avançar com a única opção viável: “Fazemos assim: vou pôr a bebé em casa dos meus sogros e, vocês, até ao final desta semana partem o que têm a partir e tal mas para a próxima já estão mais calminhos.” “Isso era óptimo! Nós esperamos que a bebé saia e depois impulsionamos isto tudo e para a semana é como se já nem tivéssemos cá!”.
Voltei para casa, lavei a bebé e massajei-a com os cremes especiais – é o momento SPA da bebé – e depois da sopa e do frango triturado e da papa de fruta, lá seguimos para casa do meu sogro. Como seria de esperar, os avós paternos ficaram radiantes de ver a princesa e, com a história das obras, até pernoitou lá duas ou três noites. Eu ia visitá-la, claro, mais o pai dela. Mas, curiosamente, sentia-me isso mesmo: uma visita da minha própria bebé e não a mãe dela. Isto porque os meus sogros são super possessivos com a neta. Mesmo entre eles disputam a atenção da garota. Porém, existem campos bem delineados: é a minha sogra que lhe faz a comida, a alimenta, troca as fraldas e põe o creme. Por seu lado, o meu sogro pavoneia-a ao colo o tempo inteiro, brinca com ela, leva-a a passear e mostra-lhe tudo e mais alguma coisa, fazendo-lhe todas as vontades reais e imaginárias: “O que queres bebé? Estás farta de estar aqui? Então, vamos dar o nosso passeio. Olha, já viste o fato que o avô te comprou? Pareces uma atleta. Agora é que vamos dar uma volta e só aparecemos quando tivermos fome, não é?”. E desaparece do nosso ângulo de visão…
“Venham ver a bebé a pôr o creme nas pernas”, anuncia a minha sogra como se fosse um espectáculo inédito em nossa casa. Ela gosta assim, ela gosta assado, ela não gosta disto e adora aquilo, etc. Somos informados pelos avós do que devemos e não devemos fazer à nossa cria… Confesso que, uma vez que tenho todo o tempo do mundo com a bebé em casa, até gosto de a ver nas mãos de outros familiares que tão bem cuidam dela mas os meus sogros exageram… Só vejo a bebé de relance a passar de colo em colo. Até o pai dela quando a tinha há segundos nos braços sofreu um voo a pique do pai dele que, peremptório, lhe arrancou a bebé com um “não a estás a segurar bem, ela gosta é de estar assim” e, deu meia volta, sumindo-se com a neta pelo corredor decorado com mil e uma fotos da bebé.
Sem a bebé em casa, as obras avançaram. Eu pisgava-me para o ginásio e a desgraçada da Nice – saudosa da sua bebé – esforçava-se por limpar a casa, maldizendo os trolhas que não só a importunavam como lhe tinham afastado a doçura dos braços. Desconfio que passa mais tempo a mimar a bebé do que a limpar a casa mas… o que hei-de fazer? Pelo menos sempre tenho o meu tempo para ir tratar do corpo e isso vale tudo.
A bebé regressou e, quando a nova semana arranca, o barulho atenua-se mas … persiste. “Ah… Temos de fazer umas modificações. As paredes da cozinha ficaram tortas.” E vai de martelar de mansinho de manhã e meio selvagem à tarde. Como não posso executar os homens das obras contenho-me e espaireço, saindo de casa e passeando a bebé no canguru. Mas, mentalmente, parece que transporto aquele martelar na cabeça.
Uma destas noites – algo que acontece imenso por esta terra – rebenta-me um aparatoso fogo de artifício. “Olha que giro! Anda ver”, exclama o pai da bebé, que logo se posiciona na varanda, acendendo um cigarro. Mas eu, saturada de marteladas ensurdecedoras durante o dia, chego à loucura com estes foguetes pirotécnicos que abomino desde sempre. “Quero lá saber da ascensão dessas trampas explosivas! Odeio essas cenas populares! Bimbos!”, grito fora de mim. O pai da bebé olha-me desnorteado e, claro, aproveita logo para fazer campanha: “ Ai, se as pessoas soubessem o que eu sofro nas tuas mãos… ”. Homens… têm de ser sempre o centro do universo.

sexta-feira, 20 de julho de 2007

Chuchar no polegar

Admira-me que aos cinco meses, a bebé tenha escolhido justamente o seu pequeno polegar para o chuchar alegremente. Na verdade, começou por pôr a mão toda dentro da boca, ou dois e três dedos de cada vez. A dada altura, até provocou vómitos a ela própria, segundo o meu sogro, sempre atento a estas pequenas evoluções. Mas depois do que imagino ter sido um casting natural, a bebé acabou por optar pelo polegarzinho. Talvez por isso o nome da personagem e da história que tanto encanta as crianças. É curioso mas nunca tinha feito essa associação… Enfim, a verdade é que a bebé ama o polegar e eu passo a vida a tirar-lho da boca e a seduzi-la com a chucha, não vá o dedo ficar atrofiado.
O chuchar em si parece uma função vital na bebé tão importante como o respirar. Lembro-me que já no útero – como visionei nas ecografias – chuchava no polegar. Nascerão os bebés já programados para isto? Acredito que o principal culpado seja o biberão (no meu caso) e o peito da mãe, uma vez que ao beberem o leite fazem-no por sucção. Logo, os bebés, nas suas cabecinhas, associam o acto aos prazeres da vida. Afinal, é desse modo que enchem as barriguitas. Bem alimentados, associam o chuchar ao bem-estar e ao conforto. Também nós, quando nos deixam pendurados, costumamos dizer: “Pois é! E eu fiquei para aqui a chuchar no dedo”, quase como uma espécie de auto consolo. Um destes dias, andava eu com a chucha da bebé e o pai dela disparou: “Já não tens idade para andares com isso na boca!” e, depois, com um olhar e sorriso concupiscentes “a tua chucha agora é outra”. Homens… e o meu é realmente um doce aficionado por doces. Quando vamos a alguma feirinha ou festa popular enche-se de algodão-doce, chupa-chupas em forma de chupeta, maçãs caramelizadas, pipocas, frutos secos, gelados e tudo o mais que tiver muito açúcar. Se fosse eu pesava duzentos quilos mas a ele não faz grande mossa.
Nesta fase, a bebé não só chucha o polegar como mete tudo o que apanha na boca. A nossa mão, por exemplo, é capaz de direccioná-la certinha para aquela boquita aberta sempre babosa. Lá está, continuo a não ver dentes alguns mas o pediatra diz-me que a baba dela é sinal de que eles vêm aí. Os bonecos ficam ensopados, assim como todas as roupas que ela mastiga. Parece um caracol baboso. Fui obrigada a colocar-lhe um guardanapo perene. Só espero que não faça alergia. É verdade. Uma vez, numa loja de roupa para bebés – a minha perdição do último ano – uma mãe queixava-se de que uns guardanapos que tinha comprado para o bebé dela haviam-lhe feito alergia no pescoço, já não me lembro se os de atar com fitas ou os outros de feltro. Eu uso os dois e, embora a bebé seja atreita a alergias com a sua pele atópica, a verdade é que não registei sinais devastadores à conta dos babettes.
Apesar de molhar tudo à sua volta, a bebé recusa-se a beber água. Raríssimas vezes consegui que ela bebesse um gole ou outro. E com esta canícula era de esperar que saboreasse a sensação fresca da água. Alguém me disse também que os bebés devem beber muita água para fecharem mais depressa a moleirinha. Mas não sei se isso é verdade ou mito. Tenho de confirmar com o pediatra. Contudo, gostava que ela bebesse água. Eu própria, confesso, não bebo muita e sei perfeitamente que me ajudaria a emagrecer. Sou capaz de beber litros de leite magro e sumos sem açúcar mas nunca fui muito fã de água. Até a minha ginecologista topou isso e mandou-me beber mais. Agora com o ginásio, pelo menos, bebo sempre uma garrafita por treino.
Muitas vezes, eu própria lambuzo a bebé com beijos e controlo-me para não a morder porque ela está tão doce e apetitosa que é irresistível. Também o pai dela se queixa das minhas dentadinhas de amor. Acusou-me de o trincar, aquela flor de estufa. Ora, está visto que, desde bebés é pela boca que desfrutamos o máximo prazer possível: chuchando, trincando, lambendo, lambuzando, etc. E pela boca morre o peixe, o que significa que devemos acautelar os nossos ímpetos gulosos. Lembrei-me agora que, quando pedimos boleia também esticamos o polegar… Poderá isto despertar alguma memória afectiva no condutor que pára e se dispõe a transportar um desconhecido? Não… parece-me freudiano demais.
Mas voltando ao polegarzinho – não ao de Perrault, Grimm e Andersen mas ao da minha bebé – tenho de admitir que não deixa de ser enternecedor vê-la tão mínima e já tão decidida quanto ao dedinho a chuchar. E agora quem se está a babar sou eu. A mãe babada de um bebé baboso.


quarta-feira, 18 de julho de 2007

Uma espia na casa do amor

A bebé tem o estranho hábito de me fixar durante longos momentos a fio. Estou a dar-lhe o biberão e ela não desvia os olhos, afasto-me para ir buscar algo e, os seus olhinhos escuros como duas azeitonas seguem-me. Estão sempre cravados em mim. Dir-se-ia que me espia. Se me ausento muito mais do que dois minutos, logo reclama atenção. Também já sorri muito e puxa-me o cabelo. Tenho de o prender, caso contrário sou mais um brinquedo naquelas pequenas mãos, sacudido com violência.
Quando dorme – ainda no seu berço – a bebé posiciona-se toda contorcida como um ponto de interrogação. Saberá que a coluna dela não é flexível ou os bebés são iguais aos gatos nos ruídos e gestos? Igual mesmo é ao pai dela. Quando nasceu, ainda tinha horas, e já todos comentavam essa parecença. A carinha é uma miniatura versão feminina do pai. As orelhas idênticas. Transpira como ele e já tem algumas manhas paternas… Espevitada, só gosta de ver e mexer em tudo. Uma pequena cusca. E agora adoptou o sofá dele, onde neste preciso momento dorme deleitada. Devido à inclinação das almofadas não está na sua posição de arco, valha-nos isso!
Outra coisa que os une é comerem o doce e o salgado misturados. O pai da bebé come sempre doces antes e durante a refeição. Uma vez, uma fotógrafa minha amiga referiu esse pequeno prazer proibido pela nossa educação. Isto é, os nossos pais ensinam-nos que os doces comem-se no fim das refeições e, também ela, quando se apanhou a viver sozinha extraía vivo prazer na transgressão dessa norma. A bebé é seguidora da mesma filosofia: sopa e fruta sabem melhor juntas. O que fazer?
A minha mãe acha que a neta vai ser hiperactiva. Às vezes, surpreende-se com as birras e, embora as tente apaziguar ao jeito dela, embalando-a e tal, diz sempre: “Nenhum de vocês era assim.” Pois… Uma coisa interessante é que a bebé não reage muito bem ao timbre de voz da minha mãe. Ela sempre falou muito alto e é um pouco ríspida, o que incomoda a princesa habituada à voz doce da mãe e à vozinha protectora da outra avó, sempre solícita com o seu “pronto, pronto” ao mínimo choro. Por isso, muitas vezes, só de ouvir a minha mãe a bebé franze o sobrolho para deleite do pai dela… “A bebé não gosta da tua mãe” diz, todo ufano mas, não é verdade. Ela incomoda-se com a estridência do tom. Também já a vi sorrir e palrar para a avó materna, toda contente. Infelizmente, os meus pais não dispõem do tempo e da capacidade física para estarem com a neta como gostariam. E aí, os meus sogros ganham aos pontos.
É engraçado que, quando casamos, não ganhamos só um parceiro. A nossa família cresce com os sogros e cunhados. E claro, as discussões e as antipatias saltam logo. Quem é que nunca ouviu frases do género: "O melhor dos teus pais foi terem-te feito?" ou "Só podes ter sido criada por outras pessoas é a única explicação racional?".
Porém, no meu caso, não tenho razões de queixa. Gostava que a minha família e o pai da bebé fossem mais comunicativos – e, às vezes, até são – porque eu gosto imenso dos meus sogros, sempre gentis e disponíveis, desde o primeiro momento. A minha cunhada é uma pessoa muito reservada mas, quando trocamos impressões, acho-a sensata, directa e com um excelente sentido de humor. E o ideal é mesmo as famílias darem-se bem porque… temos sempre natais pela frente, não é? E não há nada pior do que passar uma época festiva com os nervos e outras indisposições à flor da pele. É também importante para a bebé sentir que as pessoas que gostam dela são todas amigas. A minha mãe sempre me contou lindas histórias dos meus avós paternos e manteve com o sogro dela uma relação quase de pai e filha até à morte deste. Acho bonito. São casas onde reina o amor que merece ser observado – espiado – e absorvido. Quem é amado sabe amar. E a bebé vai dar cartas.



terça-feira, 17 de julho de 2007

Bloco de Leste

Com a casa já totalmente organizada e decorada e a faltarem duas semanas para a bebé fazer os cinco meses ganhei ânimo e decidi liquidar o peso a mais. Farta de dietas improdutivas e de ginástica caseira inscrevi-me num ginásio a dois passos do prédio. Primeiro, investiguei as condições. Não era nada como o meu anterior mas… algo me sorriu e conquistou de imediato: o espaço dedicado à estética. Uma série de programas com vários tratamentos que aliados à ginástica e à dieta poderiam ajudar-me a emagrecer. Fiquei fascinada. Elaborei logo um plano semanal, uma vez que só me posso ausentar quando a Nice está operacional. O que seria de mim sem essa brasileira fabulosa que concilia o trabalho de limpeza com babysitting e que deve ser a culpada de já, por duas vezes, me terem atribuído um estranho sotaque brasileiro?
Assim, tranquila com a bebé entregue em boas mãos, lá sigo para a queima de calorias três vezes por semana. Descobri tratamentos incríveis: a pressoterapia, por exemplo, é uma espécie de terapia por pressão, ou seja, estamos deitadas numa marquesa e elas ligam a engenhoca de maneira a sermos mais apertadas do que alguma vez o fomos por braços de homem algum… Sabe bem e equivale a drenagem linfática. A crioterapia é um horror mas a seguir a grandes sudações é óptima. Trata-se de um gel que nos arrefece o corpo e, segundo o mito, ninguém até hoje o aguentou sem massagem. Depois, a electroestimulação – pequenos choques bem distribuídos pelo corpo – até pode ser interessante, uma vez que equivale a fazermos ginástica sem nos levantarmos da marquesa mas irrita-me que me digam que tenho os músculos da barriga atrofiados e que as agulhas estão paradas em vez de darem alegres saltos… Pudera! Ainda há pouco tinha a bebé lá dentro. Abdominais definidos depois da gravidez é difícil…
Exfoliações, massagens, chás drenantes, comprimidos para emagrecer e muito exercício é uma espécie de ou vai ou racha! Na verdade, sinto-me melhor, mais rija, com o ventre menos saliente e alguma roupa já me serve, embora ainda esteja justíssima. Mas pelo menos entra, o que é muito compensador. Ando mais animada e tudo, graças ao Bloco de Leste. É assim que designo a minha equipa de esteticistas. São todas loiras – Tatiana, Helena, Natália, Olga – vindas do frio (não admira que amem a crioterapia a seguir à sauna à falta de um lago de águas geladas…), altas e robustas, massagistas de mãos sábias e doces que asseguram uma diminuição de volume, medindo antes para impressionar depois. Sim, fui medida e pesada e, no fim destas sessões, espero não ser a primeira cliente excepção… Enfim, não posso pensar negativo e, como não há milagres, toca a reduzir doces, massas, pães, batatas, arroz, ou seja, tudo aquilo que nos dá prazer ingerir. Mas para perder peso, eu faço tudo, a sério. Já passei duas semanas a batidos e emagreci mas não voltei ao que era. No fundo, o que me parte a cabecinha é isso mesmo: não aceito o meu corpo tal como está; quero o meu físico de antes do parto e, enquanto não o tiver, enlouqueço e dou com todos em doidos.
O pai da bebé, por exemplo, torceu o nariz à iniciativa. Primeiro porque é muito ciumento e não quer que eu faça amizades no ginásio… Depois, porque é muito ciumento e acha que quem precisa de massagens é ele que, coitado, passa o dia todo à frente de um computador lá na empresa a trabalhar e a flirtar… Comovida com tanta angústia acumulada e para provar como sou uma jóia de mulher resolvi oferecer-lhe um programa especial de duas horas e meia no meu SPA. Os homens fingem sempre que não gostam destas coisas, sobretudo se forem sérias. Aposto que se tivesse descompressões manuais ficava com um sorriso extasiado. Porém, a minha bondade não chega a tanto. Tivesse aproveitado as massagens sensuais antes de constituir família.
Também a bebé gosta de ser massajada quando lhe passo os cremes de manhã e à noite. Podia dizer que ela dorme melhor mas para minha grande sorte ela sempre nos deu boas noites. O que é uma questão típica, já que quando somos pais todos nos perguntam: “E a bebé? Deixa-vos dormir?”. Sim, a nossa é um perfeito anjo. Tirando aquela hora de alarme accionado… Talvez ainda contrate uma babysitter russa. Lá que têm mão firme, têm!

domingo, 15 de julho de 2007

O martírio das sopas



Tudo na bebé é uma evolução extraordinária de ver. Mesmo o simples banho. No princípio, a banheira parecia enorme e ela, com as suas pernas e braços minúsculos e barriga maior, um pequeno sapinho num charco. Agora é o contrário: já parece pequena demais para a bebé. Sentada na sua cadeira de banho ajustável, em cujas bordas já agarra as mãos, a bebé diverte-se a chapinhar com as perninhas e braços, olhando os inumeráveis brinquedos aquáticos com alguma atenção. Ainda não os agarra, é certo, mas também não os ignora. Sapos, patos, coelhos e macacos flutuam sobre as ondas das suas sacudidelas. Não chora quando entra ou sai – raríssimas vezes o fez – e adora ver-se ao espelho, tanto ou mais que o pai dela…
Também as suas refeições têm evoluído com muita graça. Passar do leite para a sopa foi uma prova difícil para a bebé que é super comilona por excelência. Bebia vários biberões e, enquanto não os tivesse, não dava tréguas a ninguém… Assim, o meu irmão do meio que é médico – cirurgião ortopédico – e adora bebés resolveu apiedar-se do meu esforço culinário e ofereceu-me um livro fantástico “1,2,3 Uma Colher de Cada Vez – um guia para crianças dos 4 meses aos 3 anos”. Em bom tempo me salvou porque perante estas mais de 150 receitas todas certinhas e apetitosas nasceu-me uma nova alma.
Não é que eu fizesse mal a sopa. Segui as instruções do mega pediatra da bebé e tal mas… quem nunca fez sopas para bebés passa sempre por mil incertezas e eu até adoro cozinhar. Não me estou a tentar desculpar mas fiz algumas asneiras. Por exemplo, a base era sempre batata e cenoura mas eu exagerava na água e ficava líquida demais. Depois, aprendi – com o tal livro – que a água deve apenas cobrir os vegetais. Deste modo, quando triturava os legumes cozidos já obtinha uma consistência mais de papa. Até aqui, tudo bem. Experimentei cebola e azeite e a bebé mandou-me pastar e, não comeu. No livro, também não referem uma coisa nem outra e eu, pura e simplesmente, cortei com ambas.
A primeira sopa que ela apreciou mesmo em termos de sabor foi uma de cenoura à qual juntei a polpa de uma batata-doce que assara no forno. A bebé amou. Depois fiz-lhe purés de abóbora, cenoura, maçã e pêra. Isto, aos quatro meses, que foi quando ela começou a dar o salto alimentar. E como não consegui que ela comesse com a colher de silicone resolvi dar-lhe a sopa no biberão. Na consulta dos cinco meses, o médico dela censurar-me-ia: “Não pode ser. É muito perigoso. Se ela se engasgar vão a batata e a cenoura directas para o pulmão.” Bolas! Aquilo assustou-me e lancei-me em novas tentativas à colherada e já com novas receitas.
Ora bem, acontece que aos cinco meses, o doutor introduziu carne de frango ou peru nos primeiros quinze dias e, depois, carninha de vaca louca. Tudo triturado num 1,2,3 – estes números perseguem-me… – de modo a ficar uma porção do tamanho de uma almôndega. A carne antes é temperada com alho e ervas – nada de sal – e frita ou grelhada num pouco de azeite. Só na altura da refeição a devo juntar à sopa. E a seguir dou a fruta. “Parece fácil”, pensei e corri para um talho onde pedi que me cortassem bifes de 90 gramas, ou seja três porções de carne em cada bife que deveria usar no cocktail almoço e também ao jantar, embora pudesse optar por leite na mesma. Para não ser muito duro para a bebé resolvi só desmamá-la ao almoço. Afinal, duro mesmo, só se for para mim. É um verdadeiro massacre texano…
A rejeição inicial e as birras manhosas combati à bruta: “Se não comes a sopa, não comes mais nada” e, depois de alguma persistência, ela lá vai comendo e sujando à grande e à francesa. A cara quase que desaparece por entre a pasta laranja que se espalha e escorre também pelo babette e mãos que tentam agarrar a colher. Não a consigo segurar ao colo e é muito cedo para a instalar numa cadeira, daí que a coloque na espreguiçadeira, protegida por uma fralda, e me sente de pernas cruzadas à frente dela: “Vamos, bebé, abre lá a boquinha. Sê gentil para a mamã e tal”, rogo-lhe desesperada. Mas aqueles bracinhos frenéticos movimentam-se quando menos espero e zás! Sopa para o olho, chão, sofá, cortinado, salpica-me também, claro, não há nada a fazer. “Tenha paciência”, diz a minha sogra que adora alimentar a prole dela e tem o vício simpático de nos estar sempre a oferecer bolos e iogurtes. Mas também ela, uma enfardadora clássica, teme o momento sacro da sopa e já me pede para lhe deixar a bebé depois de almoço.
Enquanto invento novas técnicas – estilo, na mesma colher, dou-lhe um pouco de fruta e sopa – interrogo-me quanto tempo demorará ela a saber comer sem este festim de sujidade à nossa volta e já sinto saudades do processo limpo do biberão…

















sábado, 14 de julho de 2007

Alergias, cólicas e birras


“Que linda bebé!”, elogiam as senhoras idosas quando me vêem passeá-la na rua dentro do canguru. Aproximam-se e, depois dos elogios, segue-se o espanto: “Mas não faz mal levá-la assim?”. Explico-lhes que não, que o canguru é mesmo feito para transportar bebés: primeiro, virados para nós e, depois dos cinco meses, de costas para a mãe. Elas admiram-se, tal como a maioria das pessoas, ainda não habituadas a um transporte que já se pratica há séculos na Ásia, América Latina e África. Se repararem, quase todos os pais estrangeiros – homens também – passeiam os seus rebentos alegremente em panos cangurus que nem fechos têm. E foi um homem – o meu sogro – quem me ofereceu este e, quando passeia a neta, também a leva assim. E o meu sogro é um homem do norte, carago! Claro, que a bebé apanha estes elogios todos e devolve sorrisos, derretendo corações. “É um amor!”, dizem. “Como é sossegadinha.” Pois… Se a vissem à noite, antes de adormecer, assistiriam a uma verdadeira metamorfose. A bebé vira um alarme e não há nada que a acalme.
Primeiro, teve o azar comum a muitos bebés de fazer um eczema, o qual se manifestou por manchas vermelhas que escamaram, ao ponto da roupa branca interior ficar cinzenta… Foi um horror. Mudei-lhe de creme cem vezes e… de pediatra. Por fim, um deles acertou na cura. É ele hoje o médico dela e, curiosamente, também foi o pediatra do pai da bebé. Consta que começou a exercer muito novo, pois velho é que ele não é. Acho-o o máximo! Exprime-se muito bem, tem um magnífico sentido de humor, super gentil e profissional. Depois de um péssimo obstetra ganhámos um excelente pediatra. Menos mal.
A dermatite atópica irritava profundamente a bebé que chorava incomodada. Para combatê-la, o médico disse-me que evitasse o contacto directo da lã na pele e a vestisse apenas com roupas que fossem 100 por cento de algodão. O banho passou a ser de dois em dois dias, a gama de cremes de novo alterada – investi no Leti AT4 – e a bebé fez antibiótico, Floxapen. Também levou corticóides: Advantan cortado a meias com um creme hidratante, no caso, Decubal. O leite – o grande suspeito – foi substituído por Aptamil Pepti, indicado para lactentes com alergia às proteínas do leite de vaca. Obtivémos um resultado milagroso: de um dia para o outro a recuperação tornou-se óbvia. A bebé voltou a ter a pele macia, lisinha e sem marcas, um dos seus muitos encantos. Infelizmente, o Pepti não se vende em todas as farmácias e, depois de maratonas improdutivas calcorreando meia urbe, passei a encomendá-lo.
Debelada a alergia, também o mesmo médico acertou na questão das cólicas. Até aos três meses dava-lhe Infacol, um medicamento que o pai da bebé descobriu ser usado com sucesso pelos colegas da sua empresa junto dos bebés deles. Um mandava vir uns tantos de Inglaterra e dividiam os frascos. Mas, o que ela toma agora é bem melhor: Biogaia. E eu pensei: “Genial! Foram-se as cólicas, o ardor da alergia e agora, vamos ter sossego cá em casa!”. Mas para meu horror, a baba e o chorinho que depressa fica buzina derivam… dos dentes! Fiquei em estado de choque: “Mas doutor… a bebé só fez quatro meses. Não é nova demais para os dentes já estarem a querer nascer?”. Com um sorriso sem contemplações lá me passou um bálsamo primeiros dentes, um pó de matricária em saquetas e ben-u-ron supositórios para lactentes de três meses a um ano…
Os dentes, não os vejo e não os sinto, no entanto, que a bebé berra que se mata, ah isso berra! Torna-se insuportável. O pai dela não ouve do ouvido esquerdo e, uma noite destas, enquanto a embalava, escutei-o protestar, exasperado: “Isso, berra à vontade! O pai já não tem um ouvido e agora queres-lhe acabar com o outro!”. Repreendi-o pela dureza do comentário e falta de paciência… mas sempre é melhor desabafar, do que me plantar a bebé à frente do plasma – literalmente frente – sincronizando o BabyTV…
Com as birras da bebé e as iniciativas de relaxamento do pai dela… prevejo dias ainda mais dificéis.

sexta-feira, 13 de julho de 2007

A bênção de a ver crescer


Não gosto quando as crianças são baptizadas e já fazem e dizem montanhas de gracinhas sem graça nenhuma para a importância de um sacramento como o baptismo. Eu fui baptizada aos três meses e a bebé também. Só a ideia de lhe acontecer alguma fatalidade e ela me ficar no limbo deixava-me numa pilha de nervos. O pai da bebé disse-me que o Papa abolira o limbo. Olhei-o incrédula. Também João Paulo II se pronunciara contra a inexistência do inferno mas nós sentimo-lo bem perto e quase todos os dias… Por isso, com limbo ou sem limbo, eu queria-a baptizada e depressa. Há realidades invisíveis que ou se crêem ou não mas, apesar de eu ser católica não praticante, sei bem a lição e, a bebé também seria iluminada pela luz do espírito santo e unida a Jesus, participando assim no seu mistério pascal. Para muitos isto é chinês mas para se morrer e ressuscitar, passando da morte do pecado para a vida eterna, tem de se ser baptizado, tem de se ser filho de Deus. Se a bebé seguir ou não a vida cristã, logo se vê mas, pelo menos, tem a graça, a força e o amor. Os dons do baptismo são maravilhosos.
Escolhemos o meu irmão mais novo e a irmã dele para padrinhos e optámos por fazer uma festa muito íntima, apenas para as nossas famílias nucleares. Porém, uma tia minha e uma prima casada e de cuja filha eu sou madrinha também foram convidadas. Sempre se alargou o número de convidados com estas excepções de última hora…
A madrinha ofereceu o vestido lindíssimo, a vela e os sapatinhos, o primeiro par do meu anjo que se sair à mãe rivalizará com a célebre filipina…
Falei com um sacerdote amigo da família e escolhemos a igreja. Comprámos as estampas de recordação e mandámo-las gravar: “Hoje nasci para Deus”, uma frase linda que, de uma forma tão simples enuncia o que é o baptismo. A bebé nasceria para uma vida nova vivendo a felicidade de ter Deus como pai. E que bem que sabe quando rezamos na esperança de que algures Ele nos oiça. Não sou praticante como disse, não vou à missa, não comungo, fiquei-me pela profissão de fé e não cheguei a fazer o crisma mas, quando estou muito feliz ou miserável é no Pai do céu que encontro amor e conforto. Por exemplo, não me canso de Lhe agradecer todas as coisas boas que me acontecem e o facto de ainda ter os meus pais vivos, comigo, ao meu lado, sobreviventes de edema da glote, ele e, atropelamento, ela, entre tantas outras peripécias que lhes podiam ter já ceifado a vida… E, muito obviamente, agradeço-Lhe o facto de ter tido uma filha linda e saudável, o maior milagre da minha vida de fumadora inveterada e criatura dada a inconstâncias.
A cerimónia correu bem, com a bebé a contorcer-se toda na altura em que sentiu a água na cabeça. Não pude deixar de rir mas fi-lo educadamente. A água e as palavras do sacerdote é o que todos vemos e ouvimos mas o significado para lá do visível comoveu-me: a bebé seria amada e salva, como filha de Deus. E quando o celebrante disse: “Que Deus lhes conceda – aos pais – a bênção de a ver crescer”, apercebi-me de que não sou eterna e que posso morrer antes de a ver uma mulher feita e, tal imagem de privação fez-me chorar. Uma lágrima e outra que rapidamente disfarcei, pois todos os olhos estão postos na mãe e eu sempre defendi a célebre fleuma britânica, ou não tivesse estudado em Sherborne.
Depois de concluída a papelada, bateram-se sempre fotos e fotos e lá seguimos para o jantar. A bebé na sua linda veste branca e, claro que apesar de gorda, também trajei umas calças brancas porque me enerva ver pessoas vestidas de preto em casamentos e baptizados já que contrariam o princípio da luz e da felicidade. Assim, numa sala linda de tons vermelhos e brancos jantámos pratos muito refinados e todos os convidados apreciaram o repasto. Mesmo o pai da bebé que, ao princípio, tanto protestara com a hora, a data, a frase das estampas, a igreja, etc. Ele é que escolheu o fotógrafo e, o álbum, que acabei de ver – demorou séculos a chegar – está um encanto. Mais tarde, a minha bebé vai vê-lo e partilhá-lo com quem ela amar. E sentirá, em cada página, o amor e a vaidade dos pais dela, dos avós e tios. Foi há dois meses, no 13 de Maio e já parece que foi há uma eternidade, dado o pulo que ela deu. Já agarra o biberão com as duas mãos e está bem mais comprida e saltitona. No outro dia, escorregou-me da espreguiçadeira – não a tinha amarrado – e aterrou-me no tapete… Prevejo dias difíceis.

quinta-feira, 12 de julho de 2007

Quarto vitoriano



Só quem já mudou de casa pode valorizar o tremendo esforço a que tal empreendimento obriga. Foi um autêntico massacre. Caixas e caixas que tive de abrir e guardar peça a peça, montanhas de livros, mil bibelots – investigados criteriosamente por ele que me apontaria um gosto duvidoso em meia dúzia deles – roupas nossas, da casa, etc., loiças, quadros, espelhos, tapetes, tudo o que possam imaginar que faça falta a uma mulher possessiva e a um homem vaidoso e com exigências técnicas a nível de máquinas e equipamentos. Graças a isso, temos um excelente plasma, um frigorífico americano que produz gelo em cubos, em cubinhos e água geladíssima. Ainda bem que os homens adoram essas tecnologias. No entanto, só em arrumações lá se passaram outros dois meses.
A bebé dormia a maior parte do tempo. Quando acordava bebia o seu biberão, mudava-lhe a fralda e regressava ao meu martírio de desencaixotar mais e mais acessórios. No fim, a casa ficou linda. O pai da bebé ofereceu-me uma divisão inesquecível: um closet, como dizem no Brasil, ou um quarto de roupa à portuguesa. Fui às lágrimas. Ter a minha roupa toda arrumada naquele espaço é um enorme prazer para quem sempre cultivara essa fantasia e agora a via tornada realidade. O meu sogro, que tantas vezes me diz – no que eu acho que é uma lavagem cerebral ainda que inconsciente da parte dele – que as virtudes do rapaz superam os defeitos é capaz até de ter razão. Pelo menos, no capítulo da casa, o pai da bebé foi incansável e exigiu sempre o melhor.
Com a minha atenção virada para o lar não tive tempo ou capacidade mental para gerir a questão dos quilos a mais, ou seja, continuei uma baleia e, só de me ver nas fotos do baptizado, vêm-me calafrios ao corpo todo. Como desejei, então, ser igual àquelas mães de ventre liso dos anúncios… Nunca se vê uma mãe anafada banhar o seu bebé ou mudar-lhe a fralda. Ou sequer esboçar a mínima dificuldade na tarefa. São sempre lindas, sorridentes e de uma magreza invejável. Porém, a realidade é bem diferente como denunciavam aquelas fotos perenes. Um dia, também a bebé vai ver como a mãe pertenceu à espécie dos mamíferos marinhos: um cetáceo raro ou uma foca deslumbrante. Enfim, tenho de puxar a brasa à minha sardinha…
Graças e desgraças, só sei que quando não conseguimos emagrecer dá-nos uma depressão fatal. Ninguém nos pode ouvir falar mais de dietas e, discretamente, mudam de assunto, ou consolam-nos com o “estás sempre bonita” mas, só nós é que sabemos como odiamos os espelhos. Uma vez, uma lojista minha amiga confidenciou-me que uma cliente sua estava super abatida, pois já tivera o filho há dois meses e todas as pessoas ainda lhe perguntavam para quando era o parto… Maldita história que não me saía da cabeça… Estaria eu também naquelas condições? Na verdade, parecia mesmo estar grávida, mas aquela barriga de princípio, três, quatro meses. Se alguém me fizesse uma pergunta do género eu acho que me suicidava na hora.
Com a questão do físico adiada até à conclusão das arrumações e decorações, dediquei-me de corpo e alma ao nosso espaço. A bebé também tem o seu quarto, embora confesse que ainda não a mudei para lá. Fez agora cinco meses e gosto de a ter a dormir no berço ao meu lado. O restolhar da borboleta – pendurada no interior da cama – sempre que ela se vira em ângulos verdadeiramente acrobáticos é um som que muito aprecio. Ajeito-a, acaricio-a, canto-lhe, alimento-a, beijo-a à distância de um braço. Para mim é reconfortante.
Mas o quarto dela é engraçado. A cama acabou de chegar. É de ferro, foi toda pintada de branco e pertenceu ao meu pai – senhor já na casa dos 90 – quando ele era bebé. Comovem-me estas antiguidades com valor sentimental. Também no quarto dela dispõe de uma cómoda dos meus bisavós e de uma cadeira de criança da mesma época. É a única divisão cor-de-rosa da casa. Possui cortinados floridos e um candeeiro de pé verde alface que me custou os olhos da cara e que eu teria feito igual ou melhor quando me debrucei sobre ele com mais atenção. Para compensar essa minha falta de visão comprei-lhe uma casa de bonecas em pinho no Vassoureiro e pintei-a e decorei-a ao meu gosto. Comprei-lhe bonecas à medida – lil’Bratz – e adoro que ma elogiem. A minha mãe, que tem um feitio muito especial e pouco contemplativo com minudências, diz sempre que eu fiz a casa mas foi para mim…
Estes elementos novos e coloridos cortaram aquele ar vitoriano que o quarto tinha. Graças a Deus, que não havia perdido, lá pelo sótão dos meus pais, um cavalo de baloiço de madeira, ou bonecas de porcelana, ou carrinhos de bebés antigos, todos eles me arrepiam e fazem lembrar filmes de terror! Daqueles em que as rodas deslizam sem que sejam empurradas e os olhos de vidro da bonecada parecem encerrar almas do outro mundo… Quando mudar a bebé vou usar os intercomunicadores que o pai, o senhor da tecnologia, comprou há muito. Só espero que ela seja super feliz nesta casa. E nós também.